Estátuas, tamboris, robôs e hipopótamos: Gabriel Abrantes demonstra a sua criatividade em Quatro Contos

Estreia nas nossas salas um quarteto de curtas-metragens que melhor sintetizam um realizador em rápida ascensão nos quadros portugueses: “Quatro Contos de Gabriel Abrantes”. Jovem, prolifero, criativo e ao seu jeito provocador, para os mais desatentos foi o responsável (em conjunto com Daniel Schmidt) de uma comédia tresloucada que se passou por sátira a uma das figuras incontornáveis da contemporaneidade portuguesa – Cristiano Ronaldo.

Nesta coletânea de contos, como indica o título, somos levados pelos devaneios do nosso inconsciente com tamboris à mistura em “Freud Und Friends”, seguido pelo resumo histórico que levou à criação de uma enigmática escultura de Constantin Brancusi em “A Brief History of Princess X” e terminando com os dilemas amorosos de um robô (“Humores Artificiais”) e da evasão de uma estátua “banal” no algoritmo dos coletes amarelos (“Extraordinárias Desventuras da Menina de Pedra”). São enredos excêntricos, trabalhados a lado com os seus encantos visuais, traduzindo numa estética que em muito o Cinema Português não está, interiormente, preparado.

Gabriel Abrantes falou com o Cinema Sétima Arte sobre o projeto e cada uma das suas “estações”, de forma a decifrar um sentido único no seu cinema.

Sabendo que Gabriel Abrantes já frequenta estes cantos cinematográficos há algum tempo, foi com “Diamantino” e o prémio da Semana da Crítica que o despertou atenção num público mais desatento. Com isto deparamos com uma seleção de quatro curtas suas, algumas delas igualmente premiadas em festivais. Fez parte desta escolha de trabalhos seus? Se sim, como procedeu à seleção e a sua imposição orgânica de forma a criar uma obra única e plena?

Queria programar uma sessão das minhas curtas mais recentes, uma delas, feita a seguir ao “Diamantino”, e que fazem parte do mesmo universo do “Diamantino”, no sentido que são filmes que misturam o cinema de género com um humor absurdo, histórias por vezes delirantes e fantásticas mas que falam das realidades de hoje. Se existe um fio condutor na sessão, é o humor e o amor, que são temas que permeiam todas as curtas.

“Freud und Friends” (2015)

“Freud Und Friends” havia anteriormente integrado um filme coletivo, uma espécie de “cadáver esquisito”, se bem me lembro, foi uma proposta do Indielisboa (“Aqui, em Lisboa – Episódios da Vida de Uma Cidade”, juntamente com Denis Côté, Dominga Sotomayor e Marie Losier). Neste caso, o seu contributo emancipou-se do conjunto e encontrou nova vida noutro “mosaico”.

É verdade! Gostei muito de participar no projeto ‘Aqui, em Lisboa’, e estou muito grato ao IndieLisboa por me ter convidado na altura. Gosto que os espectadores agora tenham a oportunidade de ver o “Freud Und Friends” neste contexto, rodeado de outros filmes meus. Acho que o filme ganhou alguns sentidos bem diferentes agora que está contextualizado com outras curtas minhas.

Há um delírio pecaminoso em “Freud Und Friends” e mais que isso, um deboche aportuguesado dos nossos “brandos costumes” (falo obviamente daquele intervalo através de um pseudo-filme de um pseudo-Woody Allen e uma Lisboa sob perspetiva “”gringa”).

“Freud Und Friends” é um exercício de auto derisão, e o trailer paródico para um filme do Woody Allen e goza com o Woody Allen e a forma que este fez vários filmes que funcionam como obras de propaganda para o ministério de turismo de diferentes cidades europeias.

Chegando a “A Brief History of Princess X”, o que fez interessar pela escultura de Constantin Brancusi [Princess X], desde a sua história e o absurdismo o qual a mergulha?

A Princesa X é uma escultura muito particular, porque é uma obra que representa, no modo da abstração, uma forma fálica, e parece uma piada infantil ou boçal, mas que foi feita por Constantin Brancusi, um escultor modernista, um dos inventores do abstracionismo, e escultor que enaltecia o seu trabalho a um patamar místico quase religioso. Essa contradição entre a piada infantil e escultura mística atraiu-me a pesquisar esta obra, e dai descobri a inspiradora história de Princesa Marie Bonaparte, uma das figuras mais importantes da história da psicanalise. Depois de mergulhar um pouco nessa pesquisa quis fazer um filme que retratasse a escultura e a Princesa Bonaparte.

“Os Humores Artificiais” é um filme que vem demonstrar com exatidão um dos seus reconhecíveis gestos, o trabalho visual e as suas derivações de efeitos especiais que se integram nestas mirabolantes narrativas. Gostaria que me falasse dos efeitos visuais e a importância destes nos seus filmes?

Sempre gostei de efeitos visuais, os mundos fantásticos criados pelos efeitos visuais é uma das coisas que mais me seduz no cinema. Cada vez gosto mais de trabalhar com efeitos especiais. Procuro fazer filmes que misturam um lado fantástico com temas atuais da nossa realidade contemporânea, e os efeitos especiais facilitam essa mistura. Trabalho com a IrmaLucia, uma empresa especializada em VFX, e muito do meu trabalho seria impossível sem os talentos deste atêlier.

“Os Humores Artificiais” (2016)

É possível que “Humores Artificias” seja um dos seus trabalhos lineares e ao mesmo tempo complexos. Esta oposição de humor / amor leva-nos a refletir a duas (assim cremos) impossibilidades para a vida artificial, no entanto, o Gabriel Abrantes dá esperança aos robôs em ambas virtudes.

Estou muito interessado nos mais recentes desenvolvimentos no campo da inteligência artificial, e este filme partiu desse interesse. Existem realmente alguns pesquisadores que estão a tentar criar ‘robôs de stand-up’ e o filme partiu dessas inspirações.

Na “As Extraordinárias Desventuras da Menina de Pedra”, somos confrontados com a curiosidade mórbida duma “banal” estátua do museu do Louvre, que mesmo reduzida à sua frustração existencial, consegue à sua maneira instalar uma “revolução”. A revolução parte de gestos “vulgares” que involuntariamente tornam-se gloriosos?

A Menina de Pedra é uma escultura naïf, e na sua naiveté consegue ter fé no impossível, e talvez essa ingenuidade pode ser uma raiz do espírito revolucionário. O filme é inspirado num conto do Hans Christian Andersen, ‘O Pinheirinho’, sobre um jovem pinheiro, que sonha um dia ser uma árvore de natal. É igualmente sobre um ser naïf, que deseja ser algo que não deveria ser. O filme pega nesse tema e adapta-o ao conflito entre ‘arte’ e ‘política’.

Como artista visual, gostaria que me falasse sobre as prolongações de “Humores Artificias” e “As Extraordinárias Desventuras da Menina de Pedra”, que cada uma à sua maneira serviu de instalações artísticas.

Muitos dos meus filmes foram exibidos de diversas formas, em cinemas, festivais e museus. Gosto muito de poder mostrar os filmes em diversos contextos, e acho que servem públicos diferentes, e a experiência do filme é diferente.

Quanto a novos projetos? O veremos aventurar em uma nova longa-metragem?

Estou em pré-produção da minha próxima longa-metragem, um filme de terror passado em Trás-os-Montes.