Esta é uma citação retirada de uma folha de sala de 2005 da Culturgest sobre o espectáculo “A Fábrica de Nada” de Judith Herzberg, título homónimo e no qual Pedro Pinho se inspira para realizar este filme. A palavra ‘fábrica’ é originária do latim ‘faber’ que significa artesão. Este é um indivíduo que faz, que transforma, que ao longo do filme em voz-off nos vai sendo explicado que cria valor. Assim, se entende o jogo de palavras presente no título, o fazer nada é ainda assim uma criação de valor. Este filme cria o valor da dignidade do trabalhador e o valor da relevância do posto de trabalho.

Os portugueses, como outros povos, experienciaram entre 2007 e 2015 uma crise económica e social acentuada e particularmente violenta com perda de soberania económica e uma constante e generalizada deterioração dos seus rendimentos e da sua qualidade de vida. Os meios de comunicação lidaram com esta realidade através da reportagem de uma forma muito eficaz, revelando as dificuldades sentidas pelas famílias em Portugal. O cinema procura e inventa uma forma muito diferente de abordar estes momentos históricos –a forma realista ou a forma alegórica.

Esta é uma obra-crise na linha de outras obras do cinema português como o “Mil e Uma Noites” de Miguel Gomes ou o “São Jorge” de Marco Martins na medida em que são tentativas de cristalizar a crise vivida em Portugal mas através de experiência auto-reflexivas e de um metacinema. Por vezes estes filmes mostram os dispositivos em busca do distanciamento brechtiano, realçando a ficção e assumindo a posição de fazedor ou fabricante. Neste sentido, o filme produzido pela Terratreme é uma obra que se coloca nesta linha de cinema, conseguindo de uma forma brilhante e bem disposta a produção de um mosaico da realidade portuguesa de 2014.

Um conjunto de trabalhadores de uma empresa de módulos de elevadores vêem-se perante o despedimento com indemnização ou a luta pelo posto de trabalho. A escolha do posto de trabalho prende-se com a associação entre a sua função e o que são enquanto pessoas e o caminho que os define enquanto seres em devir. Ao longo do filme, uma personagem, figura de um «encenador» que sob o pretexto de um estudo académico vai em voz off endoutrinando o espetador sobre o capitalismo e o papel do trabalhador nesse sistema, bem como o sistema de produção, corporizado nos operários, nas máquinas e em última estância na fábrica. O objetivo é conduzir o corpo de operários a uma consciência coletiva de auto gestão da empresa, emulando algumas das experiências realizadas na crise da Argentina do início do milénio.

A partir de uma ideia de Jorge Silva Melo, Tiago Hespanha, Luísa Homem, Leonor Noivo e o próprio Pedro Pinho escrevem um argumento centrado na fábrica, o ‘não-lugar’ com o seu funcionamento com reminiscências de Jacques Tati, nas ações repetitivas e nos ruídos orquestrados, para nos mostrar como esse espaço pode ser habitado por operários que não abdicam. Estes transformam a unidade fabril num domus de discussão, de corridas de maquinaria, de coreografias e cantorias encenadas, de estórias partilhadas. Enfim, recriam o hábito do fazer, não o seu trabalho, porque esse está irremediavelmente deslocalizado para um outro espaço geográfico mais lucrativo, mas o fazer como criação de valor humano através da recuperação da sua identidade operária. Para trás, poderá ficar uma vida familiar e a construção de um projeto familiar a dois, mas esse só é possível quando a nossa identidade está consolidada.

Numa realidade absurda, o paradoxo é a figura da compreensão para atingir o sentido mais elementar da existência humana. Este filme com os seus paradoxos, como a quebra da quarta parede, a insólita encenação de um musical e as cenas de discussão política de índole documental traduz um conhecimento sobre um fenómeno social e profissional do Portugal desta década, acrescentando valor a esse fenómeno através da conversão numa obra artística que apreende e condensa um sentimento de uma vivência. Esta é uma obra cinematográfica que demonstra a especificidade da sétima arte – a associação deliberada de imagens em movimento produz uma experiência e uma linguagem única e insubstituível – para aceder à espessura intangível dos tempos.

RealizaçãoPedro Pinho
Argumento: Jorge Silva Melo, Tiago Hespanha, Luísa Homem, Leonor Noivo, Pedro Pinho
Elenco: Carla Galvão, Joaquim Bichana Martins, Dinis Gomes, Njamy Sebastião, Américo Silva, José Smith Vargas
Portugal/2017 – Drama/Musical
Sinopse
: Uma noite um grupo de operários percebe que a administração está a roubar máquinas e matérias- primas da sua própria fábrica. Ao decidirem organizar-se para proteger os equipamentos e impedir o deslocamento da produção, os trabalhadores são forçados – como forma de retaliação – a permanecer nos seus postos sem nada que fazer enquanto prosseguem as negociações para os despedimentos. A pressão leva ao colapso geral dos trabalhadores, enquanto o mundo à sua volta parece ruir.

«A Fábrica de Nada» – Operários que preferem fazer nada a nada fazer
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