Nuno Sá Pessoa_2

Nuno Sá Pessoa foi júri convidado para a competição de curtas-metragens da 6ª edição do Festival de Cinema Itinerante em Língua Portuguesa (FESTin), que decorreu entre os dias 8 e 15 de abril, no Cinema São Jorge, em Lisboa. Os filmes premiados podem ser consultados aqui. Aproveitando este facto, o Cinema 7ª Arte entrevistou o jovem realizador que tem já um sólido percurso no cinema.

C7A: Dentro do cinema o Nuno aborda vários géneros, que vão desde o documentário à ficção e ao cinema experimental. Tem, ainda assim, preferência por alguns destes géneros?

NSP: Tenho interesse e constante ambição de realizar vários projectos em todos os géneros, mas a minha preferência é sem dúvida alguma a ficção.

C7A: A par disso realizou ainda um (ou vários) videoclip. Ao ver os seus trabalhos sente-se perfeitamente a presença da música. Até que ponto acha que as suas escolhas musicais completam os seus filmes? De que referências parte?

NSP: A banda sonora é um dos elementos mais importantes de um filme e a elaboração da mesma um dos processos mais prazerosos. Ainda antes de fazer cinema prestava muita atenção à música dos filmes, lembro-me de comprar CDs da banda sonora de vários filmes como Blade Runner, Laranja Mecânica ou Era uma vez na América, e ser admirador de compositores como Vangelis, John Barry ou Ennio Morricone.

C7A: Ao longo das entrevistas que deu, refere sempre o cineasta Stanley Kubrick como a sua maior referência no cinema. Até que ponto deixa e quer que o cinema de Kubrick, tão específico, seja um ponto de partida, se é que o é?

NSP: Enquanto espectador os filmes de Stanley Kubrick destacam-se entre as minhas preferências, como realizador considero-o a maior referência tendo em conta toda a sua filmografia, admiro muito a sua visão e método de trabalho. Penso que é o conjunto destes dois factores que fazem com que o mencione frequentemente, mas não considero nem quero que seja um ponto de partida, já que todos os trabalhos e situações são pontuais e para as minhas decisões contribuem diversos factores e influências que vão formando a pessoa que sou.

C7A: Em Portugal consegue encontrar referências cinematográficas? Fale-nos um pouco do que considera ser o panorama actual do cinema português e de que forma o seu trabalho pode ou não inserir-se num determinado aspecto deste panorama.

NSP: No que toca a referências penso que não posso individualizar alguém em específico, talvez a minha referência seja a nova vaga de cinema e cineastas que tem vindo a crescer nos últimos tempos, jovens que têm feito trabalhos independentes de elevada qualidade com poucos recursos. Acredito que quando este conjunto de jovens realizadores tiver meios de produção mais elevados farão trabalhos notáveis fruto das adversidades e poucos meios a que estão habituados e é neste panorama que gosto de pensar que o meu trabalho se insere.

C7A: Falando agora do público português, considera que reconhecem o seu trabalho? Até que ponto a presença em festivais de cinema contribui para levar os seus filmes ao público, dar-lhes mais  visibilidade?

NSP: Acho que é um pouco complicado julgar o que o público entende do meu trabalho, de forma geral fico feliz com as reações que costumo ter e é precisamente nos festivais de cinema que consigo perceber quais são essas reações. Felizmente existem cada vez mais festivais onde podemos mostrar os nossos filmes e é muito gratificante saber que são vistos por pessoas em tantos países diferentes.

C7A: A respeito ainda de festivais de cinema, fez parte recentemente do júri da competição de curtas-metragens do FESTin. Do que viu no festival, como considera que está representado nacional e internacionalmente o cinema neste curto formato?

NSP:  O FESTin tem filmes oriundos de quase todos os PALOP, as diferenças no que diz respeito à qualidade e produção dos filmes de país para país é notória, na minha opinião o Brasil destaca-se claramente pela positiva e Portugal continua a crescer positivamente com a tal nova vaga a que me referi.

C7A: Os atores João Craveiro e Fernando Luís são alguns dos que têm participado nos seus filmes , sendo que o João Craveiro mais que uma vez. Como selecciona os actores com que quer trabalhar e de que forma acredita – se é que acredita – nos designados actores-fetiche que acompanham muitas vezes várias obras de um realizador?

NSP: Não tenho um processo específico que aplico ao selecionar um actor para um determinado papel, varia de papel para papel e de filme para filme, posso dizer que gosto que os actores, assim como todos os elementos da equipa, sejam pessoas bem formadas, inteligentes e criativas. Nesse sentido acredito nos actores-fetiche, é natural que os realizadores trabalhem várias vezes, não só com o mesmo director de fotografia ou compositor, mas também com os mesmos actores, mas tal não pode acontecer sempre, já que existem muitos outros factores para além dos já referidos que influenciam a escolha dos actores e restante equipa de um filme.

C7A: Muitos cineastas dizem que é um privilégio encontrar, ao primeiro ou segundo filme, a sua própria linguagem, o seu cinema, a sua forma única. Considera que está a construir a sua narrativa cinematográfica ou já a alcançou?

NSP: Acho que tenho vários elementos visuais e narrativos que são identificáveis de filme para filme, mas espero que até ao último dia em que faça um filme a minha linguagem cinematográfica continue em construção e evolução, procuro aprender e crescer todos os dias a todos os níveis, quero mudar sempre para melhor e a única forma de o fazer é ser humilde e saber que até ao último dia terei sempre muita coisa para aprender.

C7A: O Nuno considera que cada realizador deve fazer de cada obra uma peça única, original. Considera que cada filme seu mantém esta premissa?

NSP: Espero que sim, pelo menos o intento está lá, sinto-me mais satisfeito com alguns filmes do que com outros, mas em última análise o espectador é quem tem a palavra porque é para ele que faço o que faço.

C7A: Fundou, juntamente com os seus amigos Kris Skovmand e Samuel Anderson, a produtora Skookum Films que pretendem que seja livre de barreiras físicas e intelectuais. Ao mesmo tempo até que ponto a criação desta produtora foi urgente, no que toca à produção, promoção e divulgação do cinema de autor e o vosso, em particular?

NSP: A criação da produtora foi importante no sentido em que foi o concretizar de um ideal em que acreditávamos e o veículo de expressão de uma visão artística em que nos identificávamos. O significado da palavra Skookum resume aquilo que é a nossa forma de estar e o conceito da produtora é talvez semelhante àquele que nos uniu quando nos conhecemos na Dinamarca.

C7A: Acha que a sua formação numa instituição de ensino na Dinamarca (The European Film College) e o contacto com outras culturas influenciou a sua forma de ver e fazer cinema? Até que ponto acha que foi fundamental à sua formação enquanto cineasta e mesmo espectador essa experiência fora de portas?

NSP: Estudar no The European Film College foi extremamente importante na minha formação enquanto pessoa, ajudou-me a expandir os horizontes para múltiplas culturas e profissionalmente foi a primeira porta que abri para o estrangeiro, a partir dessa porta abri muitas outras e espero que assim continue a ser.

C7A: Qual ou quais os projectos para o futuro? Considera, já com uma carreira solidamente iniciada e sustentada, que a sua obra está a ter o percurso inicialmente traçado?

NSP: Neste momento estou a desenvolver vários projectos com a nossa produtora e actriz Sara Moura, o primeiro a ser filmado será já uma curta co-produzida com o realizador brasileiro Cloves Mendes que conhecemos recentemente no FESTin, em Agosto iremos também ao Brasil para colaborar com o realizador Alceu Bett, os músicos Thoth e Lila com quem já fizemos um videoclip regressarão também a Portugal neste mês e já está apalavrada a realização de um novo videoclip, estou satisfeito com os trabalhos que tenho feito até aqui mas ao mesmo tempo sinto sempre uma vontade de fazer mais, desde cedo aprendi que a vida passa muito rápido e como tal não gosto de deixar nada para amanhã, tenho muita ambição e quero ainda realizar muita coisa, espero ter tempo e condições para isso, como disse Fernando Pessoa, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

créditos de ©José Cruzio

créditos de ©José Cruzio

Nota: entrevista realizada via e-mail