A guerra. A morte.

A distância entre realidades presentes num mesmo continente (ou até mesmo em países separados por uma única fronteir) pode ser abismal. A distância implica ignorância, e a realização de tal desperta, muitas vezes, uma curiosidade voyeurística – um desejo de conhecimento à base do olhar superficial mas que ‘realiza’ interiormente, de alguma forma, os indivíduos (como que  tentando encher uma caixa oca com poeira).

“Frost” é um (not so typical) road-movie, onde o caminho realizado por uma carrinha carregada com bens de ajuda humanitária é como um túnel que, ao ser atravessado, vai-se tornando cada vez mais estreito, mais intenso: um caminho onde a luz (a eterna metáfora do conhecimento!) se encontra cada vez mais perto, para desaparecer por completo no final da viagem. Rokas e Inga são as duas personagens que conduzem esta carrinha, esta narrativa, esta história. Da Lituânia até à linha da frente de combate entre os separatistas e os patriotas ucranianos, é possível observar um crescimento pessoal destas personagens, que nos são lentamente apresentadas nesse mesmo processo. A cada fronteira que têm de passar, a cada barreira geográfica – ou meramente política – que têm de atravessar, os níveis de tensão aumentam. A cada fronteira, o conforto do Ocidental desaparece, mas a sede de conhecimento – essa tal curiosidade voyeurística – de Rokas vai aumentando, culminando em actos que poderão simbolizar o absurdo da exploração quase turística da guerra, da destruição de um país e da luta de um povo.

Tal como em grande parte das obras de Šarunas, é possível detectar reminiscências da sua persona, tal como daqueles que amou, daqueles com quem convive nas personagens que apresenta.

Inga, uma jovem que é, em grande parte, representada enquanto um corpo inocente, motivo de desejo inviável e impossível, marcado pela tentativa – consciente e inconsciente – de tentação e sedução (repare-se na forma como mexe nas maçãs vermelhas, repare-se na forma como beija as maçãs vermelhas, repare-se na forma como atrai as suas ‘presas’). Os seus traços assemelham-se à eterna musa de Bartas, para sempre presente nas suas obras, como que numa homenagem – por vezes obscura – do seu poder e da sua influência, marcada pela (também eterna) amargura sentida pelo realizador.

Rokas é um homem de extrema complexidade, que gostaria de amar sem mágoa, que gostaria de entender e ajudar um outro país – um sentimento que, ainda que inicialmente inexistente, cresce à medida que se aproxima da zona da real acção -, não sabendo, no entanto, se seria capaz de fazer o mesmo pela sua pátria, pela sua nação. A violência da guerra, que nos aparece em vídeos de youtube expandidos no ecrã, ou através de fotografias retiradas da Internet ou até mesmo, eventualmente, das filmagens e fotografias que ele próprio tira, demonstram não só uma capacidade de inserção de novas estratégias e formas cinematográficas de Bartas – avaliando de forma superficial -, mas, acima de tudo, são uma ilustração em grande plano da nossa forma de olhar, de conhecer o sofrimento dos outros: as imagens que supostamente nos aproximam (porque nos informam), mas que nos separam pela sensação de distância sensorial das imagens, pela barreira física entre o ecrã, a câmara, uma realidade e outra realidade. Será o cinema uma forma de auxílio, de consciencialização, de luta por um país? Será o cinema uma forma de ultrapassar as fronteiras, as barreiras e alcançar um entedimento que permita uma acção? Bartas não é desconhecedor deste tipo de situações político-sociais e deste tipo de questões, tendo ele próprio passado por uma ‘quase’ guerra civil durante o processo de independência da Lituânia da União Soviética, no início dos anos 90.

As questões sociais e políticas deste filme são exploradas particularmente através de diálogos – algo considerado não tão típico da cinematografia de Bartas, mas que aqui se tornam fulcrais -, que decorrem em determinados settings e de uma forma que nos transporta, por momentos, para um documentário. A visão do Ocidente (representado por indivíduos franceses que conhecem pelo caminho, num hotel de luxo), do Leste ocidentalizado (representado por Rokas e Inga, da Lituânia, que nos guiam neste viagem), e do Leste (representado pelos soldados ucranianos que se encontram na zona de conflito, que se encontram em locais em decaimento, em degradação) entram em diálogo e iluminam, de alguma forma, este espaço profundo e obscuro de separação. Esta separação poderia ser moralmente criticável, mas deriva de uma distância criada por um instinto natural de auto-defesa, perpetuado pela forma de criação e manutenção da memória colectiva e da história das nações europeias, onde mesmo indivíduos da Lituânia, que esteve em circunstâncias semelhantes à situação actual da Ucrânia há 20 anos atrás, parecem estar num plano de esquecimento de séculos e séculos.

 

 

 

 

 

 

 

A beleza desta obra de Bartas resulta da combinação de uma reflexão de um tema de extrema relevância, nos nossos tempos, juntamente com as demonstrações visuais da sua marcante sensibilidade. Aqui, temos direito às pausas, aos silêncios, aos ritmos naturais. Aqui, temos a visão (mais ou menos) turva, (mais ou menos) frenética, (mais ou menos) perturbadora,  tal como (mais ou menos) tranquila, (mais ou menos) apaixonada: sempre reveladora de algo mais interior, mais pessoal, mais (in)expresso. Aqui, temos Bartas mais uma vez despido, em permanente vulnerabilidade sensorial e sentimental: um olhar que atenta tanto à micro-expressão, ao movimento, como à forma como as imagens podem, de alguma forma, fazer sentir, pela forma como expressam (muito mais do que mil palavras) os processos de evolução interna,  de pensamento e de emoção das personagens que nos apresenta.

No final desta viagem de lenta progressão, de gradual acréscimo de intensidade, é possível entender que tudo nos encaminhou para um fatídico final. Fomos preparados, a passo e passo, para uma inevitabilidade que gostaríamos de não ver (mas ninguém poderá estar verdadeiramente preparado).

O cheiro da morte. O fim da inocência. A alma que se eleva e que nos revela que a morte, na guerra, transforma os indivíduos em objectos, com potencial (sempre presente, neste estado de suspensão das suas vidas) para um fim que não será marcante para a História.

Mas este é um passo marcante para nós. O ligar das luzes da sala de cinema, a saída da sala de cinema não tem o efeito habitual de retorno ao presente, ao espaço que ocupamos. A marca de “Frost” implica um estremecer interno e externo, de choque de emoção e de sensações, que congela, por momentos, a nossa realidade e que nos coloca num patamar de desconforto e de sensibilidade raramente alcançáveis através de um filme.

Nunca o belo foi tão mortífero e tão arrasador. O gelo da distância é quebrado, é destruído, é arrasado. Sejamos todos bem-vindos ao mundo de Bartas.

«Frost» - O abalo do degelo das barreiras das emoções (LEFFEST 2017)
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