Gotham Awards 2025: “Batalha Atrás de Batalha” vence Melhor Filme e inicia a temporada de prémios

Paul Thomas Anderson vence o prémio de Melhor Filme, mas Jafar Panahi domina a cerimónia e leva as principais estatuetas com “Foi Só Um Acidente”
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“Batalha Atrás de Batalha”, de Paul Thomas Anderson

A 35.ª edição dos Gotham Awards, realizada na noite desta segunda-feira (1) em Manhattan, consagrou “Batalha Atrás de Batalha”, o mais recente filme de Paul Thomas Anderson, como Melhor Longa-Metragem, selando uma noite de consensos, mas também de forte carga política e simbólica.

Em paralelo, o cineasta iraniano Jafar Panahi despontou como a figura maior da cerimónia, ao arrecadar três dos principais galardões: Melhor Filme Internacional, Melhor Realização e Melhor Argumento Original, com o laureado “Foi Só Um Acidente”, vencedor da última Palma de Ouro.

Reconhecimento tardio

Para Paul Thomas Anderson, a distinção como Melhor Longa assume um sabor especial. Trata-se do seu primeiro Gotham, depois de quatro nomeações anteriores, um reconhecimento tardio, mas inequívoco, de uma filmografia que há muito ocupa um lugar central no cinema americano contemporâneo.

O realizador concorria ainda na categoria de Realização com esta evocação amarga de um grupo de ex-revolucionários confrontados com o reaparecimento do seu antigo inimigo, dezasseis anos depois. Com Leonardo DiCaprio, Sean Penn e Benicio Del Toro à cabeça do elenco, o filme superou os 200 milhões de dólares de receitas mundiais e somou um recorde de seis nomeações.

“Não contava com isto”, confessou o realizador no palco. “Este filme foi, acima de tudo, um acto de prazer.”

A prisão de Panahi

O momento mais intenso e politicamente carregado da noite pertenceu, contudo, a Panahi. Os seus prémios foram-lhe entregues poucas horas depois de o realizador ter sido condenado à revelia, no Irão, a um ano de prisão e proibido de viajar durante dois anos, acusado de “atividades de propaganda” contra a nação.

“Este prémio pertence a todos os que trabalharam comigo”, declarou por intermédio de um intérprete. “Dedico-o a todos os cineastas que foram privados do direito de ver e de serem vistos, mas que continuam, ainda assim, a criar.”

“Foi Só Um Acidente” foi escolhido pela França como candidato ao Óscar de Melhor Filme Internacional, reforçando o seu peso simbólico num contexto de repressão cultural e política.

My Father’s Shadow

Outro título revelado em Cannes destacou-se igualmente ao arrecadar dois prémios. “My Father’s Shadow” valeu a Sopé Dìrísù o galardão de Melhor Atuação, enquanto Akinola Davies Jr. foi distinguido como Realizador Revelação.

Filme de matriz semi-autobiográfica e candidato oficial do Reino Unido ao Óscar internacional, acompanha dois irmãos numa errância por Lagos sob a ameaça latente da crise eleitoral nigeriana de 1993.

Talentos em evidência

O prémio de interpretação secundária foi para Wunmi Mosaku, pela sua composição da líder espiritual Annie em Pecadores”. Na ausência da actriz, foi o realizador Ryan Coogler quem subiu ao palco para receber a estatueta, voltando mais tarde com o elenco para aceitar também o Prémio de Conjunto. No discurso, evocou a ideia do cinema como meio de deslocação libertadora, a arte que lhe permitiu viajar antes mesmo de possuir passaporte.

Já o prémio de Actor Revelação coube a Abou Sangaré, protagonista de “Souleymane’s Story”, exibido na secção Un Certain Regard, onde arrecadara o Prémio do Júri, no papel de um imigrante guineense perdido na engrenagem impessoal de Paris.

Pillion

O prémio de Melhor Argumento Adaptado, categoria estreante nos Gotham, foi atribuído a Harry Lighton pela sua estreia na realização com Pillion”, adaptado do romance Box Hill” (2020), de Adam Mars-Jones. O drama é protagonizado por Harry Melling, que interpreta um homem gay reservado, e Alexander Skarsgård, no papel de um enigmático motoqueiro com quem inicia um relacionamento BDSM.

Adquirida pela A24 antes da sua estreia em Cannes, a produção já tinha sido premiada nos British Independent Film Awards.

Documentário

No campo da não-ficção, o vencedor foi “My Undesirable Friends: Part I – Last Air in Moscow”, uma obra de cinco horas e meia em que a realizadora americana de origem russa Julia Loktev acompanha várias jornalistas em Moscou, sobretudo mulheres entre os 20 e 30 anos, durante os últimos meses de 2021 e início de 2022, quando o regime de Vladimir Putin passou a classificá-las como “agentes estrangeiros”, mergulhando-as num clima de crescente perseguição e vigilância.

Algumas minúcias

A noite ficou ainda marcada por um vasto leque de homenagens especiais, entre as quais as dirigidas a Luca Guadagnino, Julia Roberts, Noah Baumbach, Guillermo del Toro, Oscar Isaac, Jacob Elordi, Tessa Thompson, Kate Hudson, Hugh Jackman, Jeremy Allen White e Scott Cooper.

Como contraponto de leveza, Adam Sandler garantiu o alívio cómico ao apresentar Baumbach, enquanto Julia Roberts e Guadagnino encenaram um breve momento de falsa tradução no palco, numa cumplicidade que arrancou sorrisos à plateia.

Este ano, os Gotham Awards alargaram a categoria principal de cinco para dez nomeados, confirmando uma inflexão estrutural no perfil do evento. Ao todo, cerca de 40 longas-metragens e 25 interpretações disputaram os prémios. Tradicionalmente associados ao cinema independente norte-americano, os Gotham aboliram em 2023 os limites orçamentais, abrindo definitivamente a sua órbita às grandes produções de estúdio, gesto representativo de um tempo em que as fronteiras entre independência e indústria são cada vez mais porosas.

Vencedores da 35.ª edição dos Gotham Awards

MELHOR REALIZAÇÃO
Jafar Panahi – Foi Só Um Acidente

MELHOR DOCUMENTÁRIO
My Undesirable Friends: Part I – Last Air in Moscow, de Julia Loktev

MELHOR ATUAÇÃO
Sopé Dirísu – My Father’s Shadow

MELHOR INTERPRETAÇÃO SECUNDÁRIA
Wunmi Mosaku – Pecadores

MELHOR ATOR/ATRIZ REVELAÇÃO
Abou SangaréSouleymane’s Story

MELHOR REALIZADOR REVELAÇÃO
Akinola Davies Jr. – My Father’s Shadow

MELHOR ARGUMENTO ORIGINAL
Foi Só Um Acidente

MELHOR ARGUMENTO ADAPTADO
Pillion

MELHOR FILME INTERNACIONAL
Foi Só Um Acidente

PRÉMIOS ESPECIAIS
Pecadores – Melhor Elenco
Noah Baumbach – Direcção
Jeremy Allen White e Scott Cooper – Prémio Ícone Cultural
Hugh Jackman e Kate Hudson – Prémio Musical
Tessa Thompson – Prémio Spotlight
Luca Guadagnino e Julia Roberts – Prémio Visionário
Guillermo del Toro, Oscar Isaac e Jacob Elordi – Prémio Vanguard