Se uma vez gostaria de saber como seria pular de prédios, cair à terra sem para-quedas, fazer parkour ou até disparar uma arma, “Hardcore” tenta dar a resposta. O filme começa razoavelmente leve, a fim de deixar a audiência acostumar-se com a perspectiva do Henry enquanto ele anda e mexe os braços. Logo depois a ação começa e não para. Inspirado em vídeo-jogos, o filme inteiro é filmado e apresentado do ponto de vista do protagonista mudo, utilizando uma câmara especial dando à audiência uma participação inédita da ação. Quando o Henry salta de um piso ao outro, parece que pulamos juntos. Quando ele atira com uma metralhadora num veículo, parece que também estamos a atirar. Filmado com uma câmara colocado num arnês especialmente construído, vemos tudo do ponto de vista do Henry—um efeito pouco utilizado no cinema, mais lembrado numa sequência no filme “Doom-Sobrevivência” (2005), ele próprio uma adaptação do vídeo-jogo influente. Embora a técnica de mostrar uma cena do ponto de vista do protagonista é muito utilizada no cinema, ela é normalmente apenas um plano ou um foco da câmara que dura alguns segundos.

O filme desenvolve-se como um vídeo-jogo e nota-se a enorme influência do género: há cenas onde o Henry recebe informação importante do Jimmy para poder progredir na sua missão: ataca um comboio enquanto dispara uma metralhadora enquanto passageiro numa motocicleta; atira com uma espingarda de franco-atirador e pula entre prédios além de várias outras cenas de ação retiradas directamente de quase qualquer vídeo-jogo, terminando numa luta contra o chefe.

Infelizmente a perspectiva de primeira pessoa rapidamente desfaz-se e vira um simples artifício. Não há desenvolvimento pessoal do próprio Henry, nem das outras personagens além do básico para que a história (ou seja a ação) possa continuar. O problema do filme não repousa com a falta de interesse nas personagens nem com o excesso de ação (isso nota-se em vários filmes de ação), mas na esperança de que “Hardcore” poderia sinalizar uma futura tendência cinematográfica. Enquanto que os vídeo-jogos estão a ficar cada vez mais parecidos com filmes, com histórias desenvolvidas, “Hardcore” não oferece nada de novo em termos cinematográficos a não ser a perspectiva de primeira pessoa. É uma experiência inédita mas rapidamente perdemos interesse porque em vez de temos a possibilidade de participar como num vídeo-jogo, só podemos sentar e assistir, tirando o ponto de venda único do filme.

Será que o filme vai lançar uma nova tendência de filmar à base da perspectiva de primeira pessoa? Certamente haverá, especialmente adaptações de vídeo-jogos, mas a perspectiva será utilizada com moderação já que a experiência de um vídeo-jogo é mais interessante do que a experiência prolongada do “Hardcore”.

Realização: Ilya Naishuller
Argumento: Ilya Naishuller
Elenco: Sharito Copley, Danila Kozlovsky, Haley Bennett, Tim Roth, Andrei Dementiev, Cyrus Arnold, Ilya Naishuller, Will Stewart
Reino Unido/EUA/2015 – Ação/Aventura
Sinopse: Contado a partir da perspectiva de primeira pessoa, Henry acorda num laboratório supostamente após a sua morte, sem qualquer lembrança de seu passado. Com a ajuda de vários clones, Henry tenta descobrir a verdade da sua existência e derrotar um diabólico plano de dominação global.

«Hardcore» – Um vídeo-jogo disfarçado como filme
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