“I Am Greta” – O que significa um nome?

“I Am Greta” é o tão badalado documentário da autoria do realizador sueco Nathan Grossman, um original Hulu sobre uma das personalidades mais admiradas e controversas do mundo de tempos muito recentes – e teve estreia nas salas de cinema portuguesas a 11 de Novembro.

 

Greta Thunberg é a adolescente, a activista sueca pelo clima que começou por marcar posição à porta do parlamento sueco com uma placa escrita à mão anunciando a sua greve à escola em nome da crise climática, em Agosto de 2018.

Desde cedo, Grossman teve acesso à família de Greta e à sua história e a oportunidade de começar a filmar a jovem dando os primeiros passos na sua jornada que, embora não extraordinariamente longa, é marcante e duradoura, surge a par de algumas interrogações.

As motivações ninguém as poderá conhecer intimamente, mas parece certo que o instinto e a necessidade de retratar a coragem de alguém cuja singularidade é inegável ultrapassam largamente a sugestão do oportunismo latente, quando seria impossível adivinhar o futuro próximo.

“I Am Greta” traça cronologica e ordeiramente o percurso de Greta desde aquelas tardes solitárias sentada no chão a discutir ideias com quem a interpelasse até ao decisivo momento do discurso em Nova Iorque, onde participou na cimeira do clima da ONU depois de atravessar o oceano de barco a partir do Reino Unido.

Greta Thunberg na Cimeira da ONU em Nova Iorque, 2019
Greta Thunberg na Cimeira da ONU em Nova Iorque, 2019

O documentário vive num limbo, sobretudo pelo temor de arriscar pisar linhas vermelhas, e embora o faça por aparente respeito à recatada personalidade de Greta, como objecto de cinema resulta ligeiramente superficial.

Por temor a expor demasiado a fragilidade da figura da jovem, que publicamente fala da síndrome de Asperger desassombradamente e se recusa a presumir que sofre de uma condição, mas antes apenas vive com ela, “I Am Greta” mal consegue dar a conhecer o que está por detrás daquele nome ou o que ele significa realmente.

O título pressupõe o acesso à essência de Greta Thunberg, muito mais do que ao seu contexto familiar, à terapia com animais, a exclusão na escola e na vida social, embora esses elementos façam claramente parte daquilo que a jovem é na actualidade.

O documentário aflora muito superficialmente o papel de ambos os progenitores e não defende ninguém das acusações lançadas por muitas das vozes que sobretudo querem descredibilizar a dedicação e trabalho de Greta, mas essa opção pode relacionar-se com a tentativa de não lhe retirar o protagonismo desejado.

Por isso, embora o pai surja sempre ao lado de Greta em todas as suas viagens, claramente não há intenção de direcionar muito do seu tempo a responder a rumores ou esclarecer as motivações, que aqui parecem ser apenas as de um pai que protege e acompanha a sua filha.

“I Am Greta” é o trabalho delicado de alguém que não quis afrontar nem a intimidade da jovem e da sua família, mas que ou não quis perceber ou não esteve preocupado em saber que estava a comprometer o seu trabalho artístico. Ainda assim, é uma opção legítima que mostra que, talvez à semelhança de Greta Thunberg, também Nathan Grossman não tenha grandes ambições para lá de colocar sob os holofotes a importância do discurso da jovem.

O resultado, contudo, é brando e não passa muito da tentativa de contar da forma mais objectiva possível tanto o percurso de Greta como os elementos que fazem dela quem ela é. Nalguns momentos mais íntimos, pode perceber-se algo mais para lá da figura e o espectador tem acesso limitado à Greta adolescente que gosta de se rir, dançar, brincar com os seus cães, estar com a família.

Esse é um dos aspectos mais positivos deste trabalho de Grossman, o acesso a um lado humano, dedicado, pouco intrusivo, respeitador do espaço de alguém que é tão sensível quanto corajosa, tão directa quanto recatada e simples. Em muitos momentos, contudo, a intensidade das suas hesitações, inseguranças e comprimisso é tal que a câmara de Grossman sente-se inadvertidamente como um corpo estranho.

I Am Greta
Greta Thunberg com o pai no decorrer do documentário

Ao mesmo tempo, esse interesse e preocupação não permitem aprofundar e comprometem artística e documentalmente o papel do discurso disruptivo da jovem, as ramificações do seu percurso no desenvolvimento da sua personalidade ou o impacto real das suas palavras nos diversos interlocutores a quem Greta se dirige e tem oportunidade de conhecer.

Independentemente dessa superficialidade compreensível, “I Am Greta” nem tem de se esforçar superiormente para causar impacto, uma vez que ao focar-se em Greta Thunberg dá-se rapidamente conta de que aquela adolescente de 15 anos fala frente a frente sem receios nem rodeios com personalidades normalmente inacessíveis – desde Macron, passando por Guterres ou até Arnold Schwarzenegger.

A concretização de “I Am Greta” traz certamente muitos dilemas e a figura de Greta Thunberg é tão simples quanto complexa, já que a normalidade com que a jovem assume a sua missão no mundo desarma por completo os contextos políticos eivados de normas e formalidades, abrindo portas onde antes se encontravam muros.

De repente, toda a gente quer tirar uma selfie com Greta, ri-se amigavelmente da desarmante qualidade dos seus discurso ou impressiona-se com a frontalidade da sua mensagem por demais honesta quando todos parecem fingir que se preocupam.

No final, “I Am Greta” sofre do mesmo mal sobre o qual a própria Greta Thunberg reflecte ao longo do documentário: artificialidade. Não é possível ignorar que o fingimento que Greta aponta aos políticos que a ouvem e que a ela parece que estão apenas a encenar um entendimento, perpasse de forma tão desconfortável nas entrelinhas do documentário.

Alheio à veracidade dos momentos mostrados e dos factos relatados, o espectador encontrar-se-á a espaços entre a espada e a parede, questionando-se se as imagens mostradas são espontâneas ou produto dessa mesma encenação que Greta condena nos seus interlocutores adultos.

I Am Greta
Greta Thunberg ao lado do cartaz com que começou a sua greve à escola pelo clima

“I Am Greta” queda-se, pois, refém das suas opções e permite até que a verdade que a sua protagonista tanto almeja possa ser questionada, quando esse elemento, entre tantos outros, deveria ser o único isento a que o espectador não poderia colocar em causa.

A bem da verdade e da transparência, Greta Thunberg é retratada como alguém que vive de acordo com os valores que advoga, para não cair nas armadilhas em que facilmente encontra os poderosos líderes com quem se encontra e conversa.

Ora, o documentário que pugna por retratá-la do modo mais fiel possível (ou assim se deveria entender), falha precisamente no único ponto que lhe causa maior fragilidade e expõe-no a rebates de ideias onde não havia necessidade de os haver – embora todos eles sejam legítimos.

No cômputo geral, contudo, o seu papel em trazer para a ribalta o importante percurso de Greta Thunberg e da juventude na mudança de valores, acaba por mascarar algumas dessas fragilidades. Corajoso nesse sentido, faz com que o público não esqueça o que foi dito, se isso chegar a ser possível, percebendo-se que mais do que ser um objecto artístico é um arauto mediático para fazer passar a importante mensagem que envolve a jovem.

Este texto não foi escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico

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