Um dia disseram que o cinema sempre existiu. Franzi o sobrolho. Afirmaram que o cinema não tem somente um século de existência enquanto fenómeno visual e artístico; que o plateau sempre existiu e sempre existirá. Faltava-lhe apenas algo de essencial, algo que surgiria apenas mais tarde: um instrumento cinematográfico, a câmara. As palavras são de Sério Fernandes, esse xamã dos cineastas portugueses, portuense e realizador de “Chico Fininho”. Esta rubrica compromete-se a celebrar a diversidade cinematográfica e o mundo como grande potenciador de histórias e olhares. 

Europa – Roménia – “A Morte do Sr. Lazarescu”, de Cristi Puiu (2005)

Sinopse: Sr. Lazarescu, um homem solitário de 63 anos, sente-se mal e chama uma ambulância. Quando esta chega, os paramédicos levam-no para o hospital mais próximo, mas encontra-se sobrelotado. À medida que a noite avança, a sua saúde deteriora-se no silêncio.

Muito para além de uma sátira minuciosa e brutal do sistema de saúde romeno, o que o filme nos mostra, com uma forma vincadamente documental, é uma apatia burocrática e indiferença mórbida reforçada por uma economia de diálogo. “A Morte do Sr. Lazarescu” é mais um excelente exemplar do revivalismo realista do cinema do leste.

 

África – Senegal – “Moolaadé”, de Ousmane Sembene (2004)

Sinopse: Numa aldeia africana remota, jovens raparigas são submetidas à circuncisão. Para escapar, procuram proteção mágica no moolaadé através de uma mulher que sete anos antes impedira que a sua filha fosse submetida à mutilação. Esta é a história de uma mulher que, renunciando às tradições ancestrais da sua aldeia, tenta proteger quatro crianças que lhe pedem auxílio.

“Moolaadé” não recria a África a que estamos habituados: a África da pobreza, da fome, das lutas sociais e da opressão, recria sim, uma África mais remota. Ousmane Sembene situa a ação numa pequena aldeia senegalesa, onde as tradições ancestrais contrastam fortemente com a influência do mundo ocidental: os rádios de Mercenaire, um comerciante outrora membro das nações unidas, animam o dia a dia com música. As baterias são o produto mais concorrido. A aculturalização tão bem ilustrada pelos planos finais de uma antena de televisão e um ovo de avestruz em cima da mesquita da aldeia dá o mote para a transfiguração da identidade africana.

 

Ásia – Japão – “O Intendente Sansho”, de Kenji Mizoguchi (1954)

Sinopse: No Japão feudal, um governador bondoso é exilado por proteger os agricultores locais. Anos mais tarde, a sua mulher e os seus filhos tentam voltar a reunir-se no local do seu exílio, mas são separados por bandidos. Zushio e Anju crescem entre o sofrimento e a opressão como escravos na propriedade de um membro do império japonês.

O filme maior de Kenji Mizoguchi. De um virtuosismo formal extraordinário, esta parábola sobre sofrimento e opressão, embriaguez de poder e ganância, impressiona não só pela interpretação dos seus atores, mas, evidentemente, pela direção de atores. Mizoguchi, mestre um dos grandes mestres do plano, capaz de, sem movimento, conferir uma vitalidade à imagem que muitos só conseguiriam com essa muleta do movimento. A canção sofredora cantada pela mãe das duas personagens principais, canto hipnótico, é um dos momentos mais memoráveis do filme.  Uma obra obrigatória.

 

Américas – Argentina – “O Pântano”, de Lucretia Martel (2001)

Sinopse: Mecha e Gregório passam tempos ociosos na sua quinta com os seus filhos adolescentes. Sob as ondas de calor infernal, os adultos bebem compulsivamente; Mecha corta-se; a sua prima, Tali, traz consigo os filhos para a quinta, onde estes brincam numa piscina imunda; uma das raparigas ama a empregada da casa; um dos rapazes vive com uma mulher mais velha; as crianças tomam banho juntos com uma estranha intimidade. Face à negligência dos adultos, quem corre os riscos são os jovens.

Há quem diga que Almodóvar é um dos mais diretos descendentes formais de Buñuel, mas estão enganados. Tanto a nível da forma como do tema, Lucretia Martel é quem reivindica essa herança. Ela personifica a relevância da América Latina no panorama do cinema contemporâneo. “O Pântano” é  uma teia bizarra de formas mágicas onde as pequenas intrigas do filme estabelecem uma relação de sequencial umas com as outras, explorando os vícios de uma sociedade decadente: a negligência, a apatia, o choque de classes, a deturpação de valores e a religião (a mulher que diz ver a virgem num reservatório de água e que depois o nega de modo a libertar-se da constante pressão da comunicação social). Um filme de pura chafurdice, mas chafurdice da boa.

 

Oceania – Nova Zelândia – “Amizade sem Limites”, de Peter Jackson (2004)

Sinopse: Baseado na história verídica de Juliet Hulme e Pauline Parker, duas grandes amigas que partilham uma vida de intensa fantasia entre o amor pela literatura e a cultura popular, idolatrando ícones como Mario Lanza, James Mason e Orson Welles, o filme narra a separação das mesmas pelos seus pais. Para o evitar, conspiram um plano para matar a mãe de Pauline.

Antes do esmagador sucesso da trilogia “O Senhor dos Anéis”, Peter Jackson tinha  já revelado um interesse quase científico pela fantasia. Se os filmes baseados na saga de Tolkien são fantasia pura, “Amizade sem Limites” é um estudo rigoroso desse mesmo poder criador e, neste caso, destruidor.