Disseram-me que o cinema sempre existiu. Franzi o sobrolho. Que o cinema não tem somente um século de existência enquanto fenómeno visual e artístico. Que o plateau sempre existiu, e sempre existirá. Faltava-lhe apenas algo de essencial, algo que apenas surgiria muito depois, um instrumento cinematográfico, faltava-lhe uma câmara. O sobrolho compreendeu. E assim compreendido, esta rúbrica compromete-se a seleccionar e a celebrar cinco filmes, um de cada continente, de modo a partilhar com os leitores as diferentes tradições e culturas do mundo através do cinema.

 

Europa – Alemanha – “Fitzcarraldo”, de Werner Herzog (1982)

Esqueçam a tradicional definição do épico cinematográfico, reservada quase exclusivamente às mega-produções de históricos ou biópicos sobre aquele e acoloutro e afins; “Fitzcarraldo” é, quanto a mim, o derradeiro épico cinematográfico, o filme-monumento ao espírito titânico de Herzog. Ora, imaginem-se a transportar um barco, com umas boas dezenas de toneladas, por um rio acima apenas com a ajuda dos índios locais (neste caso, do Peru) para construirem uma casa de ópera no seio de uma floresta tropical. Agora imaginem que a pessoa por trás de essa colossal determinação é Klaus Kinski (são famosas as colaborações tempestuosas entre Kinski e Herzog, devido à personalidade excêntrica e megalómana de Kinski). Agora imaginem a câmara crua, nua, totémica e feroz de um xamã do cinema chamado Herzog, e terão toda a substância para a derradeira epopeia cinematográfica que é “Fitzcarraldo”.

 

África – Senegal – “Touki Bouki”, de Djibril Diop Mambéty (1973)

Considerado o Orson Welles do cinema africano (embora um pouco mais sádico e menos megalómano), Mambéty é senhor de um estilo simultaneamente ascético e selvagem e “Touki Bouki” é daqueles filmes que ferem, que fere mesmo. Corroi pela força da sua imagem (a cena da matança do gado no matadouro é simplesmente feroz e visceral e não recomendada a puritanos) e pela crueza do seu tema representado por um crânio de vaca montado na mota de Mory. “Touki Bouki” é, talvez, definido melhor como um road-movie à escala de “Easyrider”, sobre Mory e Anta, dois jovens alieanados e desapaixonados pelo Senegal e pela sua própria pobreza, que sonham com uma vida desafogada em Paris.

 

Ásia – Tailândia – “Ploy”, de Pen-Ek Ratanaruang (2007)

“Ploy” não é exactamente uma obra-prima, mas simplesmente não o consigo esquecer desde que o ví pela primeria vez, há cerca de três anos. É daqueles filmes que discretamente plantam uma sementezinha minúscula no canto mais recôndito da memória, e tomam-na de assalto quando menos se espera. “Ploy” conta a história de um casal de meia-idade cujo casamento se aproxima do final do seu prazo de validade (como nos é revelado pelas próprias personagens), e quando Wit encontra uma jovem rapariga chamada Ploy no bar do hotel, esta realidade torna-se ainda mais ameaçadora para o casal. Intercalada com a narrativa principal, existe ainda uma secundária que aparentemente nada têm de comum (a fantasia de uma empregada do hotel sobre um escape amoroso num dos quartos), mas que subtilmente segreda-nos que este filme é precisamente sobre essa dualidade fatalista do amor e da fantasia patética que durará para sempre.

 

América do Norte – EUA – “Johhny Guitar”, de Nicholas Ray (1954)

A meu ver, o mais subestimado western; e são escassas as razões que justificam esse facto. Que outro filme da década idealiza da mesma forma que “Johnny Guitar” o feminismo? E num western, vejam só. Que outro western retrata com tanta pungência o papel heróico da mulher no mundo selvagem e solitário dos homens (que no fundo é isso que Johnny Guitar encorpora)? Apesar do título do filme, este não é um filme sobre Johnny Guitar, é um filme sobre Vienna (e que magnífica está Joan Crawford no papel) e Emma Small, a sua némesis, determinada em matar Vienna por mero ciúme. Johnny Guitar é apenas uma memória indelével, uma canção que Vienna não consegue esquecer, que é simultaneamente o seu símbolo-crucifixo e o de Emma, um símbolo de amor e redenção. “Johnny Guitar” é a canção saudosa de Nicholas Ray para o espírito feminino; cem vezes mais forte do que o de qualquer homem.

 

Oceania – Nova Zelândia – “Whale Rider”, de Niki Caro (2002)

Talvez um pouco melodramático, mas mesmo assim “Whale Rider” não deixa de ser uma belissima homenagem à cultura maori (oriunda dos povos da polinésia que se estabeleceram na nova zelândia). O filme conta a história de uma jovem rapariga que vive com a angústia de não ter nascido rapaz, e desiludido o seu avô, pois na cultura maori existe uma lenda que profetiza a ressureição de Paikea, o antepassado líder dos maori, o domador de baleias, que irá conduzir o seu povo à glória dos tempos antigos.