Disseram-me que o cinema sempre existiu. Franzi o sobrolho. Que o cinema não tem somente um século de existência enquanto fenómeno visual e artístico. Que o plateau sempre existiu, e sempre existirá. Faltava-lhe apenas algo de essencial, algo que apenas surgiria muito depois, um instrumento cinematográfico, faltava-lhe uma câmara. O sobrolho compreendeu. E assim compreendido, esta rúbrica compromete-se a seleccionar e a celebrar cinco filmes, um de cada continente, de modo a partilhar com os leitores as diferentes tradições e culturas do mundo através do cinema.

 

Europa – Suécia – “Lilja 4 Ever”, de Lukas Moodysson (2002)

Embora elogiado por Ingmar Bergman como um dos mais promissores cineastas da nova geração do cinema sueco, e por isso mesmo, comparado com o próprio Bergman, Moodysson não tem, quanto a mim, assim tanto do etéreo e do esoterismo Bergmaniano; e isso é por demais evidente em “Lilja 4 Ever”: não só o filme é implacável quanto à sua temática – o mercado da escravatura sexual, assente nas consequências devastadoras do regime comunista da URSS, nos seus antigos países membros – como o realizador é impiedoso na forma como retrata cinematograficamente um tema assim tão complexo e corrosivo. O filme, filmado na sua totalidade com câmara à mão, num estilo nitidamente documental (por ventura o seu aspecto formal mais interessante), narra a história de Lilja, uma jovem adolescente extasiada por se mudar para os Estados Unidos com a mãe, a fim de abandonar a sua vida precária na Estónia. Contudo, a mãe parte sozinha e entrega Lilja ao cuidado da tia, e como consequência, deixa-a também à mercê de uma rede de tráfico de escravas sexuais.

 

África – Senegal – “La Noire De…”, de Ousmane Sembene (1966)

O primeiro filme de Ousmane Sembene, considerado por muitos o exponente máximo do cinema africano, “La Noire De…”, lança aquela que é a principal temática de Sembene  (e de grande parte do cinema africano) : a procura da identidade africana num mundo ostracizante e preconceituoso. Diouana é uma jovem senegalesa que procura emprego como empregada doméstica. Em Dakar, acaba por encontrar emprego como ama dos filhos de um casal francês que, mais tarde, a convencem a partir com eles para França onde poderá visitar o país e as suas muitas lojas de marca. Escusado será dizer que o sonho acaba em desilusão por força das inúmeras barreiras de classe impostas na cultura francesa (e Ocidental) que fazem com que Diouana considere o suicídio. O filme é difícil de adquirir (a internet é a melhor aposta) e é de curta-duração (cerca de cinquenta minutos) mas é talvez o filme-modelo de toda uma identidade cinematográfica.

 

Médio Oriente – Israel – “Paradise Now”, de Hany Abu-Assad (2005)

“Paradise Now” é talvez o melhor filme que  vi sobre o longo conflito israelo-palestino, graças à extrema sensibilidade de um realizador assumidamente imparcial no estudo de uma temática onde muitos optam por ostracizar um dos lados. Dois amigos, Said e Khaled, ambos palestinianos, são escolhidos como mártires para um ataque terrorista a Tel-Aviv. No princípio ambos aceitam orgulhosamente a proposta, embora Said manifeste dúvidas em relação ao acto que estão prestes a cometer. A narrativa desenrola-se em apenas um dia, no qual Said procura justificar a sua escolha recorrendo ao sacrifício do pai pela mesma causa. No final do filme, o monólogo de Said resume de forma precisa, o espírito e a convicção no âmago da guerra eterna, justificando em sí o próprio filme e a coragem do seu realizador.

 

América do Norte – EUA – “Do The Right Thing”, de Spike Lee (1989)

“Do The Right Thing” decorre no dia mais quente do ano e é uma tentativa por parte do seu realizador de aproveitar o crescendo da temperatura para contextualizar um filme onde o conflito e a tensão entre os habitantes negros e brancos de um bairro de Brooklyn escala paralelamente ao borbulhar fervoroso do dia. Mookie, o próprio Spike Lee, trabalha na pizzaria de Sal, um italo-americano que decide fugir à concorrência abrindo uma pizzaria num bairro predominantemente afro-americano e hispânico. A princípio tudo parece bem, sabemos que Sal trabalha no bairro há vários anos e que nunca teve qualquer problema com os residentes, até que Buggin Out, um afro-americano altamente paranóico, o acusa de racismo por não ter fotografias de negros no mural da fama da pizzaria. “Do The Right Thing” consegue fazer transparecer toda esta tensão e cólera reprimidas, principalmente através da criatividade fotográfica de Ernest Dickerson, que soube como manipular a luz natural (e bocas de incêndio)  para o efeito.

 

Oceania – Austrália – “Rabbit-Proof Fence”, de Phillip Noyce (2002)

Baseado numa história verídica, “Rabbit-Proof Fence” narra a história de três raparigas aborígenes retiradas das suas famílias pelo governo australiano para impedir a mistura de raças indesejadas com a raça colonizadora; um dos momentos mais negros da história australiana. Molly, a mais velha das três irmâs, encarrega-se da fuga das três pelo deserto australiano até casa, seguindo apenas a famosa vedação que atravessa a astralia de norte a sul, dependendo, ironicamente, da ajuda de australianos para a encontrar. A premissa aparenta ser simples, mas a brilhante câmara e fotografia de Christopher Doyle (Disponível Para Amar, de Wong Kar Wai) conferem a este filme uma profundidade visual que, sem ela, poderia ter resultado um filme menor. Para não falar da poderosa banda-sonora por Peter Gabriel.