“Lucefece”, de Ricardo Leite, o documentário que agora estreia nos nossos cinemas, é um exercício de paciência e de puro experimentalismo e é uma delícia assistir a esta viagem.
Construído ao longo de duas décadas de trabalho, é o produto não só de um experimentalismo físico, em que o realizador se aventura em diferentes formatos e meios de revelação alternativos, mas também um experimentalismo emocional, audaz e sem receios.
Aqui se cruzam não só décadas de biografia e de crescimento pessoal, contadas de modo cronológico, mas ainda todas as décadas anteriores que fazem parte da formação do cineasta, combinando com tudo isto o recurso a imagens de utilizadas para contextualizar a narrativa por onde guia o espectador.
O mito de Lucefece ou Lucefécit é o ponto de partida da narrativa, nome do rio mítico e místico que foi local de culto da divindade proto-histórica conhecida comummente por Endovélico. Ali se situa o seu santuário e é partir dali que se inicia a viagem do realizador e do filme, esta uma viagem mais metafísica que parece aludir ao momento da criação do homem.
O documentário inicia-se no mito e vai atravessar os mitos contemporâneos dos diversos santuários do consumo, a pé pela sua estrada de Damasco, dirigindo-se a toda a brida em direção à desmontagem de sonhos e pesadelos íntimos do realizador que se misturam com as memórias de um passado colectivo mais ou menos distante.
A realidade confunde-se com a ficção: tão depressa “Lucefece” se foca na história familiar do realizador como mergulha no sonho das viagens espaciais dos norte-americanos e dos russos ou no que representou a libertação deste pequeno grande Portugal das garras apertadas do fascismo.
Das viagens ao espaço, faz-se paralelo com as paisagens lunares das Minas de S. Domingos, antigo espaço exploratório espartilhado pelo poderoso império britânico. Desenham-se paralelismos fascinantes entre os primeiros passos no espaço e os primeiros passos dados no cinema e no laboratório de experiências do cientista dos filmes Ricardo Leite.
O movimento das coisas que se inicia no Lucefece serpenteia, cabeça e cauda da serpente interligadas, conectadas: o mesmo rio que é o começo do percurso metafísico do filme é o meio pelo qual o pai do realizador havia atravessado a fronteira para fugir à tropa, em direção a França.
Do microcosmo familiar, salta-se para o macrocosmo da Guerra Colonial, cujas experiências, cruas, contadas pelo próprio pai, trazem à superfície traumas incontáveis carregados às costas durante vidas inteiras, aqui falados, aqui libertados, o cinema funcionado como confessionário, mas também como modo de seguir em frente.
Seguindo a linha cronológica, “Lucefece” dedica-se depois ao período do 25 de Abril, reflectindo sobre a natureza da arte e do artista e o seu papel em tempos conturbados. Essa reflexão aplicada ao período conturbado que se seguiu ao 25 de Abril pode agora aplicar-se ao tempo presente e mais que nunca essa é uma reflexão que encerra futuro, o futuro de todos.
“Lucefece” é um filme que destrói fronteiras e, por isso, se dedica tanto a identificar e deitar por terra recorrentes muros cuja existência teimosamente persiste. São muros erguidos pelos homens que pelejam, feitos à guisa de barreira à liberdade criativa e como impedimento da circulação de gente livre.
Um eterno retorno, “Lucefece” é um desafio mais que desejado às fronteiras do cinema, às fronteiras próprias, com vontade de dar o corpo às balas, mas sensível à poesia que é o movimento dos homens, a inteligência emocional que é reconhecer o erro quando ele é crasso, mas também quando é liliputiano.
Repete-se o que foi dito no início: “Lucefece” é uma verdadeira delícia, muito por tudo o que foi dito, mas também porque em poucos filmes se terá agradecido ao deus Endovélico nos créditos finais.


