Margarida Gramaxo retrata dilemas e impactos do turismo sustentável em “Lindo”

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Há dez anos, um milionário sul-africano decidiu investir em hotéis de luxo na Ilha do Príncipe, em São Tomé e Príncipe, com o objetivo de promover um turismo sustentável. Os habitantes da ilha, que é reconhecida pela Unesco como Reserva Mundial da Biosfera, tiveram as suas vidas impactadas. Homens como Lindo (alcunha de Manuel Gomes) passaram a trabalhar na proteção das tartarugas marinhas, ao invés de caçá-las, e na conservação das praias. Ele é o protagonista-título da primeira longa-metragem documental da portuguesa Margarida Gramaxo. “Lindo” entrou em cartaz nos cinemas nesta quinta-feira (10).

Gramaxo conta que o filme surgiu da vontade de compreender uma transformação social, ambiental e económica no Príncipe, a partir do caso de Lindo, da sua esposa Regina e de seus filhos. “Pela empatia que tinha sentido pelo Lindo, voltei a entrevistá-lo com mais tempo. Ele aí revela-me que a trabalhar em conservação ganhava menos do que quando caçava tartarugas. Nesse momento percebi que, para além da personagem, tinha uma história que me interessava”, afirma a realizadora. Dilemas como esse, que envolvem o fim de um meio de subsistência da população por causa de uma tomada de consciência ecológica, são retratados em “Lindo”.

Leia abaixo a entrevista que Margarida Gramaxo concedeu ao Cinema 7ª Arte:

Quando e como surgiu a ideia deste filme? Qual é a sua relação pessoal com São Tomé e Príncipe?

Interesso-me pelo que se passa em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Já tinha produzido um filme em Angola, tenho ideias para projetos com ligação a Moçambique e sempre tive um fascínio pela Ilha do Príncipe, pela sua beleza natural. Em 2014, a revista “Visão” publicou um artigo sobre o projeto de investimento estrangeiro em turismo sustentável que o milionário sul-africano, Mark Shuttleworth, desenvolvia na ilha. Para além dos hotéis exclusivos, previam-se gastos avultados em infraestruturas, educação, apoio social e em conservação da natureza. Percebi que o projeto ia mudar o Príncipe, uma ilha ainda marcada pelo seu passado colonial, com uma economia extremamente vulnerável, mas com uma natureza pristina, preservada pelo seu isolamento. E foi na vontade de documentar essa mudança e as suas consequências que comecei a trabalhar.

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Como foi o primeiro encontro com o Lindo (Manuel Gomes)? Quando foi que você decidiu que ele seria o protagonista da história, inclusive dando o nome dele ao filme?

Por coincidência, conheci e entrevistei o Lindo logo em 2016, na primeira viagem que fiz ao Príncipe. Ele trabalhava no projeto de conservação das tartarugas marinhas, na altura financiado pelo Mark Shuttleworth. E nessa entrevista senti de imediato uma empatia grande por ele. Era uma pessoa generosa, carinhosa e que amava tartarugas. Mas nessa altura eu ainda estava a compreender a realidade da ilha, dispersa, a entrevistar muita gente, e as entrevistas ainda eram relativamente superficiais. Na segunda viagem que fiz nesse mesmo ano, precisamente pela empatia que tinha sentido pelo Lindo, voltei a entrevistá-lo com mais tempo. Ele aí revela-me que a trabalhar em conservação ganhava menos do que quando caçava tartarugas. Nesse momento percebi que, para além da personagem, tinha uma história que me interessava.

Ainda fiz mais uma viagem de pesquisa, onde aprofundei a relação de amizade com o Lindo, ao mesmo tempo que analisava outras histórias possíveis, mas a dele acabou por se afirmar. Acho que nos documentários, tão importante como a realidade que estamos a retratar, é também a relação que temos com o personagem e a nossa, que se estendia à Regina, esposa do Lindo, e aos seus filhos, era muito boa. Para além disso, ao conhecer o modo de vida do Lindo, apercebi-me que teria pontes para tudo o que para mim era importante incluir no filme e que era resultado das minhas experiências na ilha: era um ponto de partida para celebrar a natureza única da ilha, para mostrar o ser humano e a natureza como parte do mesmo ecossistema e para levantar algumas das questões que eram consequência da “tal mudança” que me tinha levado ao Príncipe.

Você disse em entrevistas que enfrentou alguns problemas de financiamento. Até que ponto esse tipo de dificuldade prejudica ou altera a trajetória de um filme?

O filme tem um orçamento baixo e os apoios foram sendo conseguidos de forma progressiva. É um primeiro filme, feito num país onde a cultura não tem o investimento necessário, por isso não podia esperar outra coisa. Não sei até que ponto isso prejudicou o filme. Não consigo dizer, porque sou apaixonada por ele! Mas sei o desgaste pessoal que me trouxe, pela incerteza e muitas vezes precariedade. A expressão “quem corre por gosto não cansa” só é verdade até um certo ponto da maratona! Mas uma das coisas mágicas do cinema é tratar-se de uma arte colaborativa e, por isso, o filme teve a sorte de contar com profissionais experientes e talentosos, que compreenderam os constrangimentos orçamentais e foram de uma enorme generosidade.

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Set do filme ‘Lindo’, de Margarida Gramaxo – Divulgação/Risi Film

Quais mulheres profissionais do cinema/audiovisual lhe inspiram? Qual foi a última produção que você viu feita por uma mulher ou por uma pessoa não-binária que lhe emocionou?

Esta primeira pergunta é a mais difícil de todas! Fazendo um top de cinema mencionaria a Agnès Varda, a Chantal Akerman, a Lucrécia Martel e a Jane Campion. Em televisão tenho de referir a Shonda Rhimes, a Michaela Coel e a Mindy Kaling. A última produção que vi feita por uma mulher e que me emocionou foi “Contos do Esquecimento”, da Dulce Fernandes. Estreou em cinema na semana passada e foi um filme que me fez sofrer mas que a determinada altura me apaziguou com um poema lindíssimo que me comoveu muito, mas não posso spoilar mais.

Quais temas você gostaria de explorar nas suas obras futuras? Pretende continuar a fazer documentários ou tem interesse em ir para a ficção?

Creio que vou estar sempre dividida entre a realidade e a fantasia. Tenho dois documentários em mente, ainda em fase muito embrionária, ao mesmo tempo que estou a tentar financiar a minha primeira curta de ficção. A saúde mental é um dos pilares da vida em sociedade e um tema pelo qual sinto grande afinidade, por isso sei que, se tiver oportunidade, o vou perseguir. Isto sem deixar de pensar na relação entre os humanos e a natureza! Para além disso queria muito manter-me ligada, nomeadamente, a Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe e a histórias que me permitam pensar sobre a relação de Portugal com esses países.