Neste domingo (7), às 16h40, a Casa do Cinema de Coimbra transforma-se num observatório das memórias rurais portuguesas, recebendo Maureen Fazendeiro para a apresentação do seu mais recente filme, “As Estações”.
Após a projecção, a cineasta participará num momento de perguntas e respostas conduzido pelo investigador André Tomás Santos, professor de arqueologia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, abrindo um diálogo entre cinema, história e memória colectiva.
“As Estações” constrói-se como um caleidoscópio de tempos e paisagens, onde os depoimentos de trabalhadores rurais se entrelaçam com notas de campo de arqueólogos, imagens de arquivo amador cruzam-se com desenhos científicos, lendas, poemas e canções.
Para Fazendeiro, o filme é “uma viagem pela história real e inventada de uma região de Portugal e dos povos que ali viveram”.
Filmado integralmente em 16 mm, este primeiro documentário de longa-metragem assinado a solo oferece um mergulho sensorial e lírico, combinando memórias e geografia, história e ficção, e traçando um retrato poético dos habitantes e da sua terra.
O filme estreou mundialmente no Festival de Locarno e foi distinguido com o Prémio FIPRESCI para Melhor Longa-Metragem na 31.ª edição do Festival Caminhos do Cinema Português. O júri destacou a fusão de arqueologia e cinematografia como meio de tornar a história legível numa paisagem, elogiando a forma singular como Fazendeiro transforma tempo e espaço em narrativa cinematográfica.
A sessão na Casa do Cinema de Coimbra oferece não apenas a experiência da projecção, mas também o encontro entre público e criadora, um instante raro em que se descortinam os bastidores do processo criativo e as motivações de quem filma a memória de um país com paciência, sensibilidade e poesia.
Os bilhetes custam 6 € e podem ser adquiridos em casacinemacoimbra.bol.pt ou na bilheteira 30 minutos antes da sessão. Estão disponíveis entradas com desconto de 5 € e a tarifa para sócios é de 2 €.
Maureen Fazendeiro
Formada em literatura, arte e cinema na Universidade Denis Diderot, em Paris, Maureen Fazendeiro é realizadora e argumentista.
Entre os seus trabalhos destacam-se “Motu Maeva” (2014), que retrata a vida de Sonja André, uma mulher que construiu a sua própria ilha. O filme combina imagens em Super‑8 com depoimentos e memórias fragmentadas, explorando viagens, experiências e paisagens internas. Sem narrativa linear, oferece um retrato sensorial e poético de uma vida marcada por liberdade, memória e identidade, e “Sol Negro” (2019), curta-metragem que mescla imagens de um eclipse solar com paisagens naturais e cenas fragmentadas. Narrado por uma voz recitando poesia, o filme cria um retrato lírico sobre luz, memória e transformação, explorando o tempo e a percepção através de uma estética de película e colagem visual.
Nos últimos anos, Fazendeiro alternou projectos próprios com colaborações junto de Miguel Gomes, desempenhando funções de directora de casting e argumentista em “Grand Tour”, que valeu a Gomes o prémio de Melhor Realizador na Competição Oficial de Cannes em 2024.
Inspirado livremente numa obra de Somerset Maugham, “Grand Tour”, escolhido para representar Portugal nos Óscares 2025, leva-nos ao Oriente em 1918, em plena decadência imperial. Edward (Gonçalo Waddington), funcionário do império britânico, foge da sua própria história, abandonando a noiva Molly no dia do casamento e partindo sozinho numa travessia asiática que é tanto física como interior. Mas Molly (Crista Alfaiate) recusa o papel de noiva deixada para trás e embarca numa perseguição sensível e persistente, atravessando as mesmas paisagens.
Fazendeiro também co-realizou “Diários de Otsoga” (2021), filme que retrata o confinamento durante a pandemia de COVID‑19 numa quinta perto do mar. Os actores interpretam versões ficcionais de si mesmos, vivendo a rotina doméstica, construindo um borboletário e improvisando cenas que misturam realidade e ficção. Estruturado em ordem cronológica invertida, o filme explora a desorientação temporal, a convivência intensa e a persistência do fazer cinema em condições adversas, oferecendo uma reflexão íntima e poética sobre tempo, isolamento e experiência colectiva durante a crise sanitária.

