Morreu o compositor e maestro italiano Ennio Morricone esta segunda-feira (6 de julho), aos 91 anos, na sequência de uma queda. Autor de algumas das mais emblemáticas bandas sonoras do cinema, como “O Bom, o Mau e o Vilão”, “Era uma Vez na América”, “A Missão” e “Cinema Paraíso”.

Morricone morreu no início desta manhã numa clínica de Roma, para onde foi levado logo após sofrer uma queda que causou uma fratura no fémur, disse o seu advogado Giorgio Asumma à agência de notícias italiana ANSA.

Nascido em 1928, em Roma, o compositor e maestro teve uma longa carreira (mais de 50 anos) na música, tendo sido responsável pela composição e arranjo de mais de 500 filmes e programas de televisão.

Morricone escreveu algumas das bandas sonoras mais conhecidas dos western spaghetti do cineasta Sergio Leone, com quem trabalhou em todos os seus filmes. Ficaram para a história as composições da “Trilogia dos Dólares”, composta por “Por um Punhado de Dólares” (1964), “Por Mais Alguns Dólares” (1965) e “O Bom, o Mau e o Vilão” (1966). E ainda “Era Uma Vez no Oeste” (1968), “Aguenta-te, Canalha!” (1971) e “Era Uma Vez na América” (1984), todos de Sergio Leone.

A música de Morricone, nos filmes de Leone, é quase como uma personagem no filme. Leone disse uma vez: “Posso dizer que Ennio Morricone não é o meu compositor. É o meu argumentista…”. Veja-se o exemplo de “Era Uma Vez no Oeste” (1968), em que sempre que a personagem Harmónica aparece, surge uma música tocada em harmónica. Aqui, cada personagem tinha o seu tema musical. A música tinha tanta importância que podia ser o próprio elemento de uma ação, como no caso da cena do campo de prisioneiros em que a música serve para abafar os gritos dos torturados. Leone consegue dizer muito mais com a música do que com o diálogo e, por isso, usa-a com frequência em todo o filme.

Mas foi na década de 80 que o maestro alcançou reconhecimento mundial, sobretudo com a música que compôs para o filme “A Missão” (1986), de Roland Joffé. Com destaque para o tema “Gabriel’s Oboe”, a música é um misto de primitivo e sofisticação, coral e orquestral. Foi uma das músicas de Morricone mais aclamadas em todo o mundo, o que lhe valeu a nomeação ao Óscar de Melhor Banda Sonora em 1987. No entanto, Morricone perdeu o prémio para Herbie Hancock, pelo filme “À Volta da Meia-Noite”.

Em 2001, numa entrevista de Morricone ao The Guardian, o compositor disse o seguinte: “Senti que deveria ter vencido o Óscar por ‘A Missão’. Especialmente quando se considera que o vencedor do Óscar naquele ano foi ‘À Volta da Meia-Noite’, que não era uma partitura original. Era um arranjo muito bom de Herbie Hancock, mas usou peças já existentes. Portanto, não houve comparação com ‘A Missão’. Houve um roubo!”.

Outro cineasta italiano com quem viria a formar uma dupla inseparável foi Giuseppe Tornatore, realizador de “Cinema Paraíso” (1988), uma referência incontornável na história do cinema mundial que se tornou num dos mais populares filmes italianos das últimas décadas. O maestro Ennio Morricone criou aqui uma das suas mais belas obras musicais: “A sua música faz-nos sonhar, faz-nos sorrir e chorar.” Os temas “Love Theme for Nata”, “First Youth”, “For Elena” e “Cinema Paradiso” são os mais arrebatadores da sua obra.

Com Tornatore, o maestro compôs também as músicas para “Estão Todos Bem” (1990), “A Lenda de 1900″ (1998), “Malèna” (2000), “Baaria: A Porta do Vento” (2009) e “A Correspondência” (2016).

Giuseppe Tornatore está há vários anos a realizar o documentário “Ennio: The Maestro”, que pretende ser uma justa homenagem ao homem que sempre compôs as bandas sonoras para todos os seus filmes. O filme sobre a vida e obra do maestro deverá estrear em 2020.

Em 2003, Morricone trabalhou pela primeira vez com a cantora portuguesa Dulce Pontes, tendo lançado nesse ano o albúm “Focus”, que reúne 16 das mais populares músicas do maestro, interpretadas por Dulce Pontes (algumas em português).

 

Nomeado cinco vezes para o Óscar de melhor banda sonora, Morricone venceu em 2017 o Óscar Honorário, pelas mãos de Clint Eastwood, “pelas suas magníficas e multifacetadas contribuições musicais para o cinema”. Venceu, em 2016, o Óscar de Melhor Banda Sonora pelo filme “Os Oito Odiados”.

Compôs também a banda sonora para filmes como “1900” (1976), de Bernardo Bertolucci, “Dias do Paraíso” (1978), de Terrence Malick, “A Missão” (1986), de Roland Joffé, “Os Intocáveis” (1987), de Brian De Palma, “Ata-me!” (1989), de Pedro Almodóvar, “Lobo” (1994), de Mike Nichols, “Os Oito Odiados” (2015), de Quentin Tarantino.

Morricone foi e será sempre sinónimo de cinema.

(Em atualização)