Finalmente estreia o grande filme da Berlinale 2020, o fabuloso “DAU. Natasha” dos russos Ilya Khrzhanovsky e Jekaterina Oertel. Um projeto que começou como um biopic convencional, mas que se tornou num projeto ambicioso rodeado de controvérsias.

Depois de uma mão cheia de filmes feitos à medida para agradar uma certa agenda que já é tão habitual no festival de Berlim, a segunda semana da Berlinale largou duas bombas na sua competição principal. A primeira foi o “Siberia” do bad boy, quase persona non grata, Abel Ferrara. Um filme radical e apocalíptico que, sem um fio condutor narrativo que organize a sua história, entrelaça várias episódios – muitas vezes sem conexão um com o outro – na vida de Clint (Williem Dafoe), alter ego de Ferrara, numa viagem cósmica e alucinante de um homem a fazer contas à vida.

Foi o filme escândalo do festival, com gente a abandonar a sala, a chamar o filme de embuste – na votação dos críticos organizada pela revista Screen Daily é o filme com a menor cotação do festival – mas, por outro lado, teve gente que o chamou de “A Árvore da Vida” de Ferrara, numa referência ao clássico de Terrence Malick.

“Siberia” pode ser visto como uma história clássica de uma viagem ao interior, uma espécie de descida ao abismo do ego, de um homem a procura da vida que se perdeu, ou da que pudesse ter vivido. Claro que a negociação que se faz com o espectador para chegar até aí não é propriamente fácil, visto que a fragmentação do filme pode se revelar algo um tanto desafiador; mas uma vez embarcados na aventura épica que Ferrara nos propõe, passando por territórios que nos são completamente desconhecidos, ficamos com a sensação de termos presenciado algo absolutamente audacioso.

Mas o grande momento da 70.ª competição do festival de Berlim, ou a segunda bomba da semana, esta muito mais radioativa do que o filme do Ferrara, é o fabuloso DAU. Natasha, dos russos Ilya Khrzhanovsky e Jekaterina Oertel.

O filme é um excerto – se é que podemos chamá-lo assim – de duas horas e meia retirado das mais de 700 horas de filmagens realizadas durante três anos. O projeto megalomaníaco começou em 2005 pelo artista russo (Khrzhanovsky), na época com 29 anos e com apenas um filme no currículo.

Conta-se que Khrzhanovsky recebeu uma quantia avultosa de dinheiro privado para o projeto e então deu início ao que parecia impensável: a construção de uma vila inteira, recriando, entre outras coisas, um instituto de pesquisas secretas da URSS que é o centro do filme, passado em algum lugar da Rússia durante a guerra fria.

Khrzhanovsky contratou 400 atores e mais de 10 mil figurantes, na sua maioria amadores, que foram pagos para viver nos set de filmagens sem nunca sair dos seus personagens, com câmaras em toda parte a registar todos os movimentos e todas as histórias que ali se passavam. Uma espécie de “Truman Show” distópico, só que numa versão muito mais sinistra e kafkiana.

“DAU. Natasha” é o primeiro filme a sair disso tudo. E conta a história de Natasha (Natalia Berezhnaya) e Olya (Olga Shkabarnya), duas atrizes que estão absolutamente incríveis nos papéis, sempre a nos desafiar com atuações que borram as linhas entre ficção e realidade. Elas são funcionárias da cantina do instituto secreto onde alguns experimentos acontecem. Diariamente, funcionários do  instituto, como cientistas e convidados estrangeiros, passam por lá para fazer suas refeições. Até que um dia Natasha se envolve com um destes convidados, o cientista francês Luc Bigé, interpretando uma versão ficcionada de si próprio, e é então que o pequeno affair toma proporções de resultados catastróficos.

O projeto DAU começou como um “experimento antropológico”, querendo contar a história do cientista soviético, ganhador do nobel de física, Lev Landau, e acabou resultando em 14 diferentes filmes até agora, alguns deles com histórias completamente diferentes uma das outras.

Havia uma grande expectativa pela estreia do filme no festival. Muitos acreditavam se tratar de um objeto mais voltado para um certo tipo de expressão artística, daqueles que geralmente se veem numa galeria de arte. Não só porque o projeto teve a sua estreia em Paris o ano passado em forma de “instalação”, mas também porque houve vários outros nomes reconhecidos, como a artista sérvia Marina Abramović, ou o músico Robert del Naja, dos Massive Attack, envolvidos no seu desenvolvimento.

No entanto, o que se viu na Berlinale na quinta-feira surpreendeu toda gente. “DAU. Natasha” está muito mais próximo de um filme convencional do que esperávamos, uma espécie de Dogma 95 dirigido por Michael Haneke, só que com muito mais violência e repleto de sexo explícito.

O filme é quase uma descida aos infernos, de uma vida regulada pelo medo e controle, onde o grande irmão está sempre a espreita e as liberdades individuais viram moeda de troca. É um filme que é quase documental na sua forma como elabora uma narrativa, levando-nos por vezes a questionar o nosso próprio fascínio pela violência das imagens.

E agora, Jeremy Irons?

“DAU. Natasha” tem a cara dos filmes selvagens e ousados que a Berlinale adora premiar. Não precisamos ir muito longe, basta lembrar dos dois últimos ursos dourados do festival, o polémico e belíssimo “Touch Me Not”, da romena Aldine Pintille, talvez o mais controverso dos ursos entregues pelo festival e o ano passado com o desconcertante “Sinónimos”, do Israelita Nadav Lapid. O problema de “DAU. Natasha” é que o filme está sendo todo escrutinado por um filtro que põe em cheque os limites da arte. Uma série de artigos publicados antes mesmo da finalização dos filmes, relatou uma atmosfera de medo e terror durante a sua produção, repleta de assédios e humilhações sofridas dentro do set.

O seu realizador principal, Ilya Khrzhanovsky, foi acusado por várias atrizes (que mantiveram sua identidade anónima) de assédio sexual e que logo abandonaram o projeto assim que os alegados abusos começaram. Na coletiva de apresentação do filme, Khrzhanovsky prontamente negou todas as acusações, sendo apoiado logo em seguida pelo seu conjunto de atrizes.

Dito isso, faz algum sentido que talvez o júri de Jeremy Irons não esteja pronto para bancar um urso tão radical como este. É um filme que ao mesmo tempo é invejável e brilhante na sua concepção larger than life, mas, por outro lado, que pode ou não ter ultrapassado algumas barreiras éticas. Tendo em vista que o próprio ator inglês foi alvo de acusações de misoginia e homofobia no começo do festival, a propósito de declarações que fez no passado e pelas quais teve de pedir desculpas num longo monólogo de abertura na conferência de apresentação do júri, faz com que o gesto se torne ainda mais improvável. As perguntas que o projeto DAU levantam são pertinentes. Afinal, qual é o limite da arte? E até que ponto isso é relevante para analisar uma obra como um todo?

Se amanhã à noite o urso dourado for para qualquer um dos outros 17 filmes do concurso, perderemos uma ótima oportunidade não só de trazer esta discussão para o centro da conversa, mas também de premiar um projeto tão ambicioso que alarga os limites desta máquina de fabricar histórias que é o cinema.