“Os Inocentes” – A Sobrenatural Infância

Os Inocentes, de Eskil Vogt

“Os Inocentes” é o mais recente trabalho de Eskil Vogt, habitual parceiro de Joachim Trier, para quem escreveu o argumento do muito apreciado e galardoado “A Pior Pessoa do Mundo”.

Foi argumentista ainda em “Reprise” (2006), “Oslo, 31 de Agosto” (2011), “Ensurdecedor” (2015), “Thelma” (2017), todos eles filmes realizados por Trier, numa duradoura e frutífera relação.

Esta é ao mesmo tempo a sua segunda longa-metragem, depois de “Blind” (2014), e um dos filmes que marca a reabertura da sala de cinema lisboeta Fernando Lopes, ao Campo Grande.

A estreia do filme no cinema está, pois, marcada para hoje às 22h00 e coincide ainda com a estreia na plataforma de streaming nacional Filmin, exatamente à mesma hora.

Esta é uma fábula de terror sobrenatural que conta com os jovens talentos de Rakel Lenora Fløttum, Alva Brynsmo Ramsta, Sam Ashraf e Mina Yasmin Bremseth Asheim nos papéis principais.

“Os Inocentes” gira em torno de um conjunto de famílias e respetivas crianças, num verão em Oslo, no meio de uma série de mudanças e adaptações. À primeira vista, trata-se de apenas mais um filme sobre o dia-a-dia, o crescimento, as dificuldades das famílias na sua comunicação, as perguntas sem resposta e outros desafios normalmente enfrentados pelas famílias.

Rakel Lenora Flottum como Ida e Sam Ashraf como Ben (Créditos: IFC Midnight)
Rakel Lenora Flottum como Ida e Sam Ashraf como Ben (Créditos: IFC Midnight)

No entanto, “Os Inocentes” insere nas suas entrelinhas um ambiente de tensão e horror que faz com que aquelas crianças, que são as protagonistas da história, vivam na pele as consequências dos seus desejos mais obscuros.

Na realidade, se ao filme se retirar o seu elemento sobrenatural, que é representado por certos poderes distintivos conferidos aleatoriamente a cada um dos meninos, este trata apenas, na verdade, das suas dores de crescimento.

É Anna, uma menina autista, Aisha, outra menina, que sofre de vitiligo, Ben, o rapaz filho de emigrantes cuja mãe não tem um pingo de paciência para o aturar, e Ida, irmã de Anna, cuja consciência não consegue decidir-se entre o bem e mal – escolhendo frequentemente o segundo.

Une-os não só um certo desenraizamento como também as características comuns das crianças que crescem e descobrem o mundo, por isso a sobrenaturalidade dos seus poderes mais não é que uma superficialidade curiosa que parece apontar para a possibilidade e o perigo de todos os desejos poderem ser concretizados.

Bem construído no que toca ao seu suspense, “Os Inocentes” é uma bonita ode às diferenças e de como, às vezes, de modo insuspeito, estas acabam por unir pessoas de origens e caraterísticas muito diferentes.

Mina Yasmin Bremseth Asheim como Aisha
Mina Yasmin Bremseth Asheim como Aisha

Mostra ainda o potencial que essa união representa na descoberta de capacidades ocultas, no vencer de medos, no enfrentar a realidade sem os enredos da fantasia.

“Os Inocentes” respira daquela atmosfera nórdica muito ascética, fotografia quase onírica, até mesmo blasé, azulada nas cenas noturnas, enublada nas cenas diurnas, uma espécie de sonho que esconde depois uma realidade muito mais sombria do que a aparência.

É ainda um enorme monumento de confiança e talento de atores muito jovens que constroem perfeitamente o ambiente tenso do filme sem terem sequer que dizer uma palavra, em muitos casos.

Poderia ter sido interessante prosseguir um pouco mais pelo caminho dos medos inconscientes, de que resultam duas das cenas mais belas e surpreendentes do filme (uma com Ida e suas serpentes, outra com Aisha e sua mãe).

Vogt não escolheu, contudo, aquele caminho com frequência e “Os Inocentes” teria ganho um pouco mais de substância visual acaso tivesse sido essa a opção. Muitos são os momentos em que há uma ausência de força anímica, talvez pela edição ou pela simplicidade dos diálogos.

“Os Inocentes” é um belo exercício de imaginação que vive grandemente do enorme talento dos seus atores. Gira em torno de conceitos basilares como a consciência, a distinção entre o bem e o mal e o que é, afinal, esta ideia de inocência de que se revestem todas as crianças.

Rakel-Lenora-Flottum-e-Alva-Brynsmo-Ramstad
Rakel-Lenora-Flottum-e-Alva-Brynsmo-Ramstad

Por detrás desse pano, há todo um mundo de pensamentos e intenções muitas vezes terríveis que aqui ganham formas reais e fazem questionar a ténue linha entre o bem e o mal.

Ao mesmo tempo, traz uma poderosa mensagem da ligação que se encontra para lá das palavras, quando elas não existem ou falham no mundo físico. Além disso, não esquece quão importante é a necessidade do esforço de integração e do sentimento de pertença no desenvolvimento das crianças.

Os Inocentes, de Eskil Vogt
“Os Inocentes” – A Sobrenatural Infância
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