Os jatos de Tom Cruise fazem barulho em Cannes mas Jesse Einsenberg não foi convidado para a festa

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O segundo dia em Cannes dividiu-se entre a grandeza de Tom Cruise e os jatos promovendo Top Gun: Maverick, e a estreia na realização de Jesse Einsenberg, com “When You Finish Saving the World” que com a atriz Julianne Moore teve as honras de abrir a seção paralela Semaine de La Critique.

O trânsito em Cannes parou literalmente na quarta-feira à tarde. Ruas fechadas, fãs segurando cartazes à procura dos últimos bilhetes e convidados aglomerados em filas gigantescas, ocupando praticamente todos os espaços livres em volta do Palais. Uma loucura megalomaníaca com direito a jatos sobrevoando o tapete vermelho e fogos de artifícios por todo o lado. A simples tarefa de caminhar de uma esquina à outra poderia levar facilmente uma meia hora. Foi a estreia de Top Gun: Maverick, o último filme de Tom Cruise, realizado por Joseph Kosinski, que foi o centro das atenções no segundo dia do festival.

O dia, aliás, foi dedicado ao ator, que à tarde, poucas horas antes da estreia do filme, participava do Rendez-vous with Tom Cruise junto com fãs e jornalistas. Por quase uma hora o ator falou do início da carreira em Negócio Arriscado, sobre o divisor de águas que foi Magnólia e como produtor, explicou como estudou cada área do processo de filmagem, porque queria aprender tudo, “para o caso de um dia ser ator não dar mais certo”. Três décadas depois, parece que tudo está a correr bem para o Tom.

Top Gun: Maverick, que estreia fora de competição, estava pronto para estrear em Cannes na edição de 2020 mas por causa da pandemia, o festival foi cancelado de última hora e o filme engavetado por dois anos. Perguntado se não pensou em estreá-lo numa plataforma de streaming, o ator foi categórico: “Não. Jamais”, sendo aplaudido calorosamente pela plateia que parece aprovar o seu statement anti-streaming.
Basta lembrar que Cannes é o festival que comprou uma briga com a Netflix há alguns anos, visto que uma das regras para se estar em Cannes é que p filme tenha passagem obrigatória por sala. “
Top Gun: Maverick é um filme para o grande ecrã. Nós estamos do lado dos cinemas, nós sabemos o que eles têm passado”.
Parece que deu match: as conversas de corredores dizem que Cannes está tentando se reaproximar do cinema comercial americano, do qual se afastou nos últimos anos, e assim fazer frente a Veneza, com o qual sempre protagonizou uma saudável rivalidade.
Se será Tom Cruise o responsável por fazer este relacionamento desabrochar, ainda não é certo, mas pelo barulho da festa lá fora, parece que os franceses já estão no caminho certo.

Jesse Eisenberg: “Obrigado por virem ver o meu filme e não o Top Gun!”

Mas a algumas quadras dali, um filme menor e mais interessante estava prestes a começar ao mesmo tempo que o filme do Tom. E foi um deleite encontrar Jesse Eisenberg no palco do Miramar, na sessão de abertura da paralela Semaine de La Critique, fazendo o mesmo estilo socially awkward dos seus personagens, mesmo que de uma forma um tanto mais carismática. Foi quase como se ator e personagem se fundissem de uma forma estranhamente familiar.

Em modo stand-up auto depreciativo ele estava ali para apresentar o seu filme de estreia na realização e argumento, o muito simpático When You Finish Saving The World. Juntou-se a ele ao palco a atriz Julianne Moore e o ator Finn Wolfhard. Mesmo que o filme já tenha tido a sua estreia mundial em Sundance, Eisenberg pareceu excitado com a sala cheia:  “Obrigado por virem ver o meu filme e não o Top Gun!”. A poucos metros dali, no Grand Theatre Lumiére, os jatos que promoviam o último filme do astro americano, faziam um barulho ensurdecedor enquanto soltavam fumaça com as cores da bandeira francesa. “Isso me faz sentir como quando você é criança e o menino mais popular da rua (no caso, Tom Cruise), dá uma festa maior que a sua, mas você não é convidado.”

O prazer, claro, foi todo nosso. When You Finish Saving The World foi a desculpa perfeita para escapar da parafernália mirabolante que Cruise armava lá fora. Mas não só por isso, claro, mas também porque sendo o filme imperfeito que é, nos conquista pela forma sincera e enternecedora que quer contar a história de uma família alienada por frustração e narcisismo. E essa história segue Ziggy (Finn Wolfhard), um adolescente ingênuo (e um pouco irritante) que se gaba da sua fama online, onde faz dinheiro à custa dos seus vinte mil seguidores espalhados pelo mundo que pagam para ouvir as suas músicas transmitidas por live streaming. Sua mãe Evelyn (Julianne Moore), uma mulher gentil, de bom coração mas um pouco autoritária, administra um abrigo para mulheres que sofrem abusos dos seus maridos. Evelyn quer se aproximar de Ziggy mas no fundo guarda um certo ressentimento pela forma como é tratada pelo filho, mas também que não consegue esconder a decepção por ele não demonstrar interesse em seguir uma carreira de mais prestígio.

Evelyn construiu uma carreira cuidando dos outros, mas parece não ter muito jeito para lidar com as pessoas mais próximas de si, como o filho e o marido. Quando ela (e Ziggy) esquece de um evento importante onde um prémio é oferecido ao seu marido, ele desabafa decepcionado “eu estou cercado por narcisistas!”.
No entanto, apesar da distância com a família em casa, Evelyn parece se importar muito mais com os estranhos com quem lida no trabalho durante o dia. É quando ela conhece o adolescente Kyle (Billy Bryk), filho de uma das mulheres da qual está acompanhando no abrigo que administra. Evelyn começa por colocá-lo para trabalhar no abrigo e depois para ajudá-la em outras tarefas do dia-a-dia da instituição.

A relação entre os dois é ambígua e explorada de forma muito inteligente por Einsenberg. Será que Evelyn quer se aventurar sexualmente com o seu protégé de 17 anos? Ou será que ela está apenas projetando nele as frustrações e os desejos com os quais ela parece ter reprimido contra o seu próprio filho?

A história engrossa quando Ziggy desenvolve uma obsessão platónica por Lila (Alisha Boe), e pelo seu interesse em política e seu engajamento com os problemas do mundo. “Mãe, você acha que eu consigo ser uma pessoa mais política?” pergunta Ziggy à personagem de Moore, que impacientemente explica ao filho que  “não existe um atalho para uma pessoa ser mais inteligente. Você tem de fazer o dever de casa, tem de ler!”

Enquanto que a estreia na realização de Jesse Eisenberg tem um potencial inegável, com um grande elenco dando o melhor de si, e jogando para a conversa temas atuais como engajamento político como commodity e os limites entre o público e o privado, o filme sofre e, ao mesmo tempo se beneficia, do seu excesso de boas intenções. Especialmente na segunda hora, quando as coisas começam a ser arrefecer com mais velocidade.
Honestidade é qualidade que é sempre bem-vinda, mas excesso de ingenuidade às vezes pode ser um tanto exasperante. Não é o grande filme do dia, mas certamente é uma das estreias na realização que parece ser das mais promissoras.

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