Oscars 1999: quando Harvey Weinstein passou uma rasteira no Brasil

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A cerimónia dos Óscares de 1999 foi especialmente inesquecível para os brasileiros. Foi o ano em que “Central do Brasil” de Walter Salles foi nomeado a melhor filme estrangeiro (hoje chamado “filme internacional”) e Fernanda Montenegro a melhor atriz. No Brasil havia um certo clima de final de Copa do Mundo no ar e todo mundo sintonizou suas televisões para assistir a cerimônia naquele domingo à noite. 

Fernanda Montenegro, que a revista Variety chamou na época de “Meryl Streep brasileira”, era a primeira atriz latina a ser nomeada na categoria principal ever. Além disso, a “febre” Central Station deixava um rastro por onde passava: o filme começou por ganhar a Berlinale em 1998 (melhor filme e melhor atriz) e a partir daí não parou mais, arrecadando prémios em dezenas de festivais importantes pelo mundo, como melhor filme para o British Academy Film Awards, San Sebastian, os Césares, New York Film Critics, melhor argumento em Sundance culminando com o BAFTA e o Globo de Ouro de melhor filme em 1999. Portanto a possibilidade de fechar este ciclo com um Oscar na mão, parecia uma realidade cada vez mais provável.

Mas precisamos voltar um pouquinho atrás. Os anos 90 foram particularmente desafiadores para o cinema brasileiro. A década começou com uma notícia devastadora para a cultura no Brasil. Assim que Fernando Collor de Mello assumiu a presidência do Brasil em 1990, ele acabou com a Embrafilme, a empresa estatal de fomento do cinema estabelecida em 1969. Foi um dos períodos mais negros da história cinematográfica brasileira. Em consequência disso, entre 1990 e 1994, a produção cinematográfica foi praticamente inexistente, com apenas dois filmes financiados com ajuda do governo nessa época.
Então com a queda do governo Collor, dois anos após sua eleição, as coisas começaram a tomar um outro caminho e deu-se início ao que veio a se chamar “cinema de retomada” no Brasil.

Em 1995
“Carlota Joaquina” realizado por Carla Camurati, foi o filme que impulsionou esse movimento e levou milhões de volta às salas de cinema. O filme foi um estrondoso sucesso de crítica e público, e o otimismo com as produções brasileiras era tão grande que na segunda metade da década, o Brasil conseguiu a proeza de ter três filmes nomeados ao Oscar de filme estrangeiro num espaço de cinco anos.

A última vez que um filme brasileiro tinha aparecido na categoria foi em 1963 com  “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, logo após ter vencido a Palma de Ouro em Cannes naquele mesmo ano.

Em 1996, “O Quatrilho”, de Fábio Barreto torna-se a segunda nomeação brasileira, e apenas dois anos mais tarde “O Que é Isso, Companheiro?” realizado pelo seu irmão Bruno Barreto, consagrou-se como a terceira. Eis então que chegamos a 1999, a apoteose do orgulho tupiniquim representado por “Central do Brasil” e Fernanda “Meryl” Montenegro.

Nas bolsas de apostas entre os críticos internacionais, Montenegro era a grande favorita. Mesmo com as suas concorrentes sendo Meryl Streep (Podia-te Acontecer), Cate Blanchett (Elizabeth), Emily Watson (Hilary e Jackie) e Gwyneth Paltrow (A Paixão de Shakespeare). Por entre a imprensa e os cinéfilos no Brasil, ninguém parecia duvidar que dessa vez nós traríamos um Oscar para casa. Mas como diriam os americanos “little did we know…”

O resto da história toda a gente já conhece: o Brasil perdeu em ambas categorias. Primeiro, para “A Vida é Bela” (melhor filme estrangeiro) e depois para Gwyneth Paltrow (melhor atriz). O Oscar para Paltrow foi tão controverso que até hoje ele é motivo de discussão. Numa entrevista recente para um podcast a atriz Glenn Close comentou sobre a natureza arbitrária da premiação afirmando que ainda se lembrava de quando Montenegro perdeu o oscar para Paltrow: “aquilo não fez sentido algum”.

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Mas o que  “A Paixão de Shakespeare” e o italiano “A Vida é Bela” tinham em comum? Ambos foram distribuídos pela Miramax. De estúdio independente relativamente underground que entrou na órbita do mercado em 1989 com “Sexo, Mentiras e Vídeo” e depois atingiu o seu auge em 1994 com “Pulp Fiction”, a Miramax chegou ao final da década de 1990 como uma verdadeira power house de Hollywood.
O seu dono mais célebre, Harvey Weinstein, que Meryl Streep naquela noite o chamou de “Deus”, voltou para casa com nada menos que dez estatuetas douradas. Naquele domingo à noite ele foi oficialmente coroado como o novo “cool kid” de Hollywood.
A maneira como Weinstein engenhosamente usou do seu poder para fabricar estrelas da noite para o dia (Paltrow) e gerar hype para filmes medíocres (“A Paixão de Shakespeare”, “O Paciente Inglês”) mudou todo o jogo do lobby das campanhas do Óscar. Assim, como a autora do canal no YouTube Be Kind Rewind muito bem definiu num vídeo sobre o assunto, 1999 tornou-se na “obra-prima seminal de campanha do Oscar” de Weinstein.

Mal sabíamos nós que ele já andava botando fogo no parquinho há muito tempo (com a devida justiça à Courtney Love, que em 2005, ao vivo na televisão, tentou alertar o mundo do que acontecia nos bastidores por trás da Miramax). Mas a realidade que hoje parece muito cristalina para nós, é que talvez ele não teria chegado onde chegou se não tivesse contado com o silêncio cúmplice de todos os que queriam um pedaço da sua popularidade, ou que de alguma forma se beneficiaram dela.

Para além disso, o que a edição de 1999 dos Academy Awards deixou claro foi que, por mais que se debata sobre a (ir)relevância da principal premiação do cinema do mundo, os Óscares sempre foram e continuarão sendo uma celebração de autocomplacência organizada por uma elite fechada que pouco se importa com o que acontece fora da sua bolha.

Quanto aos pobres brasileiros, que naquele ano ousaram acreditar que poderiam fazer parte do grupo dos “cool kids”, a mensagem foi bem clara: you can’t sit with us.

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