A Cinemateca Brasileira, em São Paulo, dedica de 4 a 15 de Março um ciclo de invulgar fôlego à obra do grande Pedro Almodóvar, reunindo cerca de 20 títulos do realizador espanhol em cópias de 35mm cuidadosamente preservadas pela instituição. O acesso é gratuito, mediante levantamento de bilhetes na bilheteira física uma hora antes de cada sessão, numa rara ocasião de fruição cinéfila em película.
Concebida em articulação com a Embaixada de Espanha no Brasil e o Instituto Cervantes, a retrospectiva propõe uma travessia por mais de quarenta anos de um percurso autoral que redesenhou as coordenadas do melodrama contemporâneo.
Duas vezes laureado com o Óscar, Almodóvar ergueu um universo onde sexualidade, identidade e desejo se entrelaçam em narrativas de alta combustão afectiva, habitadas por personagens femininas de vigor singular e masculinas igualmente hipnotizantes, bem como por uma imagética cromática que se tornou assinatura inconfundível.
Nos seus filmes, a cor é dramaturgia. Vermelhos saturados, azuis eléctricos e amarelos quase insolentes operam como estados de alma, comentando silenciosamente as paixões e as rupturas das personagens. Ao The New York Times, em 1994, o cineasta sintetizou essa poética visual ao afirmar que estabelece a paleta como um pintor, mas em três dimensões, lembrando que, no seu cinema, o figurino nunca é mero ornamento, antes um dispositivo narrativo que revela carácter e destino.
O anúncio da mostra coincide com um momento de renovada vitalidade da Cinemateca, que em 2025 somou 210.693 visitantes, o maior registo anual desde a reabertura, em 2022.
O cinema almodovariano
A filmografia de Pedro Almodóvar pode ser lida como um mapa de metamorfoses, onde cada etapa responde a mudanças íntimas e colectivas.
Os primeiros títulos nascem no turbilhão da Espanha pós-franquista, quando a Movida Madrilenha fazia da irreverência um programa estético. Nesse ambiente de libertação súbita, os seus filmes surgem febris, desobedientes, impregnados de sexualidade explícita, humor insolente e narrativas quebradas, mais interessadas em sacudir o espectador do que em procurar polimento formal. Era um cinema urgente, feito à margem, que respirava a mesma electricidade da noite madrilena.
No final dos anos 1980, sem renunciar ao excesso nem ao sarcasmo, Almodóvar encontra disciplina na exuberância. O melodrama clássico é convocado e reinventado com ironia camp, cromatismo saturado e personagens femininas de extraordinária vitalidade. A arquitectura narrativa torna-se mais sólida, a encenação mais calculada, e a sua assinatura estética adquire nitidez internacional.
Nos anos 1990 e início dos 2000, o cinema almodovariano recolhe-se. A energia provocatória cede espaço a um tom mais íntimo, onde a perda, a maternidade, a memória e a culpa são trabalhadas com ternura grave. O riso torna-se melancolia, e a cor passa a iluminar afectos mais silenciosos. É a fase em que forma e emoção atingem um raro equilíbrio, frequentemente apontado como o ponto mais alto da sua maturidade artística.
Já no século XXI, a sua obra mergulha em territórios mais sombrios. Surgem filmes de tensão psicológica, atravessados por temas como trauma, repressão e voyeurismo. A mise-en-scène torna-se fria e meticulosa, o protagonismo masculino ganha espaço e a inquietação substitui a exuberância anterior. O realizador confronta-se com as zonas mais opacas do desejo e da identidade, como se revisitasse as próprias obsessões à luz de uma lucidez amarga.
Nos trabalhos mais recentes, instala-se um tom elegíaco. O envelhecimento, a doença, o legado artístico e a memória pessoal confundem-se com a história de Espanha, numa escrita cinematográfica depurada, quase confidencial. O silêncio ganha peso dramático, e o olhar do cineasta volta-se para trás, não com nostalgia, mas com consciência crítica.
Filmes em exibição
Entre os dias 4 e 5 de Março, a retrospectiva concentra-se na maturidade criativa e nas zonas mais traumáticas do cinema de Pedro Almodóvar. No dia 4, às 19h30, “O Quarto ao Lado” propõe uma meditação melancólica sobre amizade e finitude, com interpretações de Julianne Moore e Tilda Swinton que sublinham o tom elegíaco da narrativa.
No dia 5, às 17h30, “Dor e Glória” traz Antonio Banderas no papel de um realizador em declínio físico e criativo que revisita o passado numa obra íntima, quase confessional, e, às 20h00, “A Pele que Habito” mergulha num território mais sombrio, cruzando thriller psicológico e horror corporal na história de um cirurgião plástico obcecado que mantém uma mulher em cativeiro para experiências inquietantes.
No dia 6 de Março, memória e desejo ocupam o centro da programação. Às 17h30, “Abraços Partidos” revisita o melodrama sob a forma de um noir cromaticamente exuberante, onde um cineasta cego recorda um amor trágico, numa declaração de amor ao próprio cinema. Às 20h00, “Fale com Ela”, distinguido com o Óscar de Melhor Argumento Original, acompanha dois homens que velam mulheres em coma, compondo uma reflexão delicada sobre solidão, comunicação e afecto impossível.
A 7 de Março regressa-se ao auge da Movida e ao período de afirmação internacional. Às 15h00, “A Lei do Desejo”, exibido em 35mm, apresenta um triângulo amoroso homoerótico atravessado por obsessão e crime. Às 17h30, “Matador” funde erotismo e pulsão de morte, usando a tauromaquia como metáfora central. Às 20h00, “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos” traz a comédia frenética que projectou o realizador internacionalmente, um turbilhão de cores madrilenas e neuroses amorosas.
O dia 8 é dedicado a melodramas icónicos. Às 15h00, “De Salto Alto”, também em 35mm, encena a relação turbulenta entre mãe e filha sob a sombra de um crime. Às 17h30, “Má Educação” constrói um noir denso sobre abusos na infância e vinganças tardias. Às 20h00, “Tudo Sobre Minha Mãe”, talvez o título mais amado da sua filmografia, presta tributo às mulheres e às actrizes com rara intensidade emocional.
Entre 11 e 13 de Março, emergem paixões e pecados. No dia 11, às 20h00, “Volver” convoca três gerações de mulheres numa narrativa sobre fantasmas e segredos familiares em La Mancha.
No dia 12, às 20h00, “Maus Hábitos” satiriza a clausura religiosa através de freiras excêntricas numa comédia ácida e provocatória. No dia 13, às 17h30, “Ata-me!” apresenta o controverso enlace entre sequestro e romance, e, às 20h00, “Carne Trémula” articula destino e culpa num thriller de personagens onde o passado regressa sempre para ajustar contas.
A 14 e 15 de Março, a programação recua às origens rebeldes e experimentais. No dia 14, às 17h30, “Kika” apresenta uma maquilhadora ingénua envolvida em situações bizarras, e, às 20h00, “A Flor do Meu Segredo”, exibido em 35mm, acompanha a crise criativa de uma escritora de romances populares.
No dia 15, às 15h00, “O Que Eu Fiz para Merecer Isto?” oferece um retrato surreal da vida doméstica na periferia madrilena; às 17h30, “Labirinto de Paixões” captura a energia crua da Movida em estado puro; e, às 20h00, “Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão”, a estreia em longa-metragem, permanece como manifesto punk, irreverente e libertário de um autor que, desde cedo, fez do cinema um acto de provocação e liberdade.

