Por vezes é difícil um ator afirmar-se enquanto realizador, no entanto, Karl Markovics (conhecido dos portugueses pela série Rex, O Cão Polícia) é a excepção à regra. “Supermundo” é um filme que reflete a visão já bem aguçada do realizador, apesar de ser o seu segundo filme, tendo o primeiro sido “Atmen”. A história apresenta uma premissa simples, mas nem tudo é o que parece em “Supermundo”.

Gabi Kovanda (Ulrike Beimpold) é uma quarentona que passa os seus dias presa a uma mórbida rotina. Trabalha como caixa num supermercado, vai ao ginásio, e regressa para Hannes, o seu desinteressante, e desinteressado, marido, magnificamente interpretado, contudo, por Rainer Wöss. Um dia, ao regressar do trabalho, Gabi começa subitamente a comportar-se de forma errática e a fugir de um perseguidor invisível. Esquizofrenia? Paranóia? Sabemos apenas que Gabi ouve coisas que mudarão a sua vida e de Rainer completamente.

É interessante notar que, ao contrário da maioria dos filmes, que insistem em facultar todas e mais algumas sensações ao seu público com receio de suscitar desinteresse, aqui, nunca ouvimos o que Gabi escuta. E se os comportamentos de Gabi já são estranhos, são ampliados ainda mais por esse facto. Assim, Gabi entra num transe que a leva a desaparecer constantemente de casa e a deambular pelos campos vizinhos.  E apenas no final do filme nos é revelado o que Gabi escutara até agora – a voz de Deus.

O grande feito de Markovics é conseguir manter esse segredo de Gabi longe do público e enquanto que ela sofre, nós sofremos também com o seu silêncio inquietante. Todo o filme é silêncio (lembra um pouco “O Silêncio” de Bergman, em que é o silêncio entre as irmãs a verdadeira personagem central do filme) até à revelação de Gabi.

Decisão inteligente, foi também a forma económica como Markovics deu uso à sua banda-sonora. Em “Supermundo” a música parece intenta a destruir a muralha de silêncio em torno de Gabi, intenta em produzir alguma vibração alguma vida em Gabi, mas revelando-se apenas em alguns momentos sem nunca parecer estar a mais ou a querer puxar a lágrima do seu público.

A cinematografia é outro dos pontes fortes do filme, aliás, é absolutamente magnífica. A composição de cada plano é de uma simetria quase “Kubrickiana” e a iluminação simplesmente irresistível. Michael Bindlechner é sem dúvida um dos diretores de fotografia a manter de baixo de olho.

Contudo, nem tudo é perfeito em “Supermundo” e há personagens e cenas que destoam completamente do tom que o filme se esforça por manter. A personagem de Ronnie Kovacs, o filho de Gabi, pouco ou nada interessa ao filme, chegando ao ponto de desaparecer por completo do filme bem antes de a sua personagem ser de algum interesse, contribuindo em nada para o desenvolvimento da personagem de Gabi ou da sua relação com Hannes.

Há ainda algumas cenas que parecem simplesmente existir por existir, como quando Gabi interrompe o almoço dos trabalhadores de uma obra e uns estranhos encontros entre Hannes e o seu vizinho abelhudo.

De facto, e apesar da brilhante cinematografia e química entre os atores, a história tem momentos absolutamente desnecessários que poderiam ser aproveitados para solidificar a relação entre Gabi, Hannes e Ronnie.

“Supermundo” poderia ter sido absolutamente soberbo se se tivesse concentrado em Gabi e Hannes de forma mais séria, sem os empecilhos de personagens secundárias irrelevantes e cenas desnecessárias.

Realização: Karl Markovics

Argumento: Karl Markovics

Elenco: Ulrike Beimpold, Nikolai Gemel, Simon Jaritz

Alemanha/2015 – Drama

Sinopse: “Supermundo” conta a história de uma mulher de 50 anos, Gabi Kovanda, que trabalha num supermercado e a sua vida reparte-se entre a família e o emprego, entre a casa e o local onde trabalha. Mas certo dia, quando Gabi regressa a casa do trabalho, acontece algo que transforma a sua vida por completo. Não é nada que se veja, nem nada que se oiça, mas atinge Gabi subitamente como um raio – um encontro com Deus.

«Supermundo» - Uma voz inquietante
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