A 49.ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo encerrou-se na noite de quinta-feira, 30, com a cerimónia que marcou o fim de mais uma edição dedicada à diversidade e à inquietação do olhar cinematográfico. O júri elegeu “The President’s Cake”, de Hasan Hadi, uma coprodução entre o Iraque, os Estados Unidos e o Catar, como melhor filme, num gesto que parece reconhecer a sensibilidade política e poética de um cinema que se constrói entre fronteiras.
Distinguido com um prémio especial, “DJ Ahmet”, de Georgi M. Unkovski, confirma o vigor das narrativas vindas dos Balcãs, enquanto “A Luta”, de José Alayón, recebeu menção honrosa pela sua abordagem crua e íntima da resistência quotidiana. A actriz Doha Ramadan foi premiada pela intensidade da sua presença em “Feliz Aniversário”, de Sarah Goher, obra que reafirma o lugar das mulheres no novo cinema árabe.
Mesmo entre múltiplas línguas e geografias, a edição deste ano evidencia que o cinema continua a ser o lugar onde o olhar se prende e o mundo se revela, por breves momentos, inteiro no ecrã.
O vencedor da edição
Eleito o melhor filme da edição, “The President’s Cake”, de Hasan Hadi, transporta-nos para o Iraque dos anos 1990, em plena guerra e escassez de alimentos. Num gesto de absurdo e poder, o presidente decreta que todas as escolas do país devem confeccionar um bolo em homenagem ao seu aniversário.
Lamia, uma menina de apenas nove anos, tenta escapar à tarefa, mas é escolhida entre os colegas. Forçada a cumprir a imposição das autoridades, a menina recorre à criatividade e à engenhosidade para reunir os ingredientes e concretizar o bolo, transformando um acto de submissão num pequeno acto de resistência e imaginação.
A obra já conquistou reconhecimento internacional, tendo sido galardoada com o prémio Caméra d’Or para melhor filme de realizador estreante em Cannes, assim como com o prémio do público da Quinzena dos Cineastas, também no festival francês.
O filme combina a delicadeza do olhar infantil com a brutalidade do contexto histórico, revelando a capacidade do cinema de transformar limitações em poesia.
Escolhas do público
Nas escolhas do público, “Palestina 36”, de Annemarie Jacir, destacou-se na categoria de ficção internacional. O filme atravessa o ano de 1936, quando a Palestina se encontra à beira da revolta, e acompanha Yusuf, que tenta preservar a sua vida entre a calma relativa da zona rural e a inquietação de Jerusalém. Entre a imigração judaica que foge do antissemitismo europeu e a resistência palestina ao domínio colonial britânico, Jacir constrói um retrato delicado e humano de uma sociedade em ebulição, mostrando como os destinos individuais se entrelaçam inexoravelmente com os contornos da história.
Em terreno nacional, “Criadas”, de Carol Rodrigues, conquistou o público. A obra acompanha o reencontro de Sandra e Mariana, duas primas negras cujas memórias de infância e de ancestralidade se encontram e se chocam dentro de uma mesma casa, marcada por hierarquias sociais e afetivas. Entre fantasmas do passado e amores que nunca se extinguiram por completo, o filme mergulha na identidade, na cor da pele, na classe e nos laços familiares, oferecendo uma reflexão íntima e sensível sobre pertencimento, memória e as formas subtis através das quais o passado se recusa a permanecer enterrado.
Presença portuguesa
O evento trouxe também ao país o escritor Valter Hugo Mãe, que participou das sessões de dois filmes dedicados à sua obra. O primeiro, o documentário “De Lugar Nenhum”, realizado por Miguel Gonçalves Mendes, acompanhou o autor durante sete anos, registando o processo de escrita do romance “A Desumanização”.
O segundo, o longa-metragem “O Filho de Mil Homens”, dirigido pelo brasileiro Daniel Rezende, adapta para o cinema o livro homónimo de Mãe.
Durante a sessão de “De Lugar Nenhum”, Valter Hugo Mãe destacou a importância do projecto, sublinhando o longo percurso de sete anos que culminou na construção do filme, e a intensidade do olhar que acompanhou o seu processo criativo ao longo desse tempo.
49.ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
Durante duas semanas, a 49.ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo exibiu 374 títulos provenientes de 80 países em 52 salas de cinema, espaços culturais e CEUs espalhados pela capital paulista.
Entre os homenageados, a organização concedeu o Prémio Humanidade ao cineasta iraniano Jafar Panahi, reconhecendo a forma como demonstra que a cultura e a arte são, hoje e sempre, poderes fundamentais de defesa das liberdades, e pela forma como expande os horizontes do audiovisual enquanto linguagem estética, ética e política.
Euzhan Palcy foi igualmente homenageada pelo seu papel essencial na construção de um discurso contra-hegemónico, inspirador para inúmeras e inúmeros cineastas, oferecendo ainda ao público a oportunidade de redescobrir uma obra que se tornou ainda mais actual. Jean-Pierre e Luc Dardenne foram distinguidos pelo empenho em expor aquilo que a sociedade muitas vezes prefere ignorar, mas acima de tudo pelo cinema atento às pessoas e aos gestos que resistem.
O Prémio Leon Cakoff foi atribuído ao cartunista e escritor brasileiro Mauricio de Sousa, cuja obra representa “a cara do país: mutante, persistente, aberto e amoroso”, e ao guionista, produtor e realizador norte-americano Charlie Kaufman, reconhecendo a sua contribuição histórica e contemporânea a uma arte que nunca deixa de se reinventar. Como parte da homenagem a Kaufman, a Mostra realizou a primeira exibição no Brasil do curta “Como Fotografar um Fantasma”, estreado no Festival de Veneza.
Confira a lista de todos os filmes premiados pela Mostra na edição deste ano:
- Prémio do júri de melhor filme: The President’s Cake, de Hasan Hadi (Iraque, EUA, Catar)
- Prémio especial do júri: DJ Ahmet, de Georgi M. Unkovski (Macedónia do Norte, República Checa, Sérvia, Croácia)
- Prémio do júri – Menção Honrosa: A Luta, de José Alayón (Espanha, Colômbia)
- Prémio do júri de melhor interpretação: Doha Ramadan pelo filme Feliz Aniversário, de Sarah Goher (Egipto)
- Prémio do público de melhor filme de ficção brasileiro: Criadas, de Carol Rodrigues (Brasil)
- Prémio do público de melhor documentário brasileiro: Cadernos Negros, de Joel Zito Araújo (Brasil)
- Prémio do público de melhor filme de ficção internacional: Palestina 36, de Annemarie Jacir (Palestina, Reino Unido, França, Dinamarca, Noruega, Catar, Arábia Saudita, Jordânia)
- Prémio do público de melhor documentário internacional: Yanuni, de Richard Ladkani (Áustria, Brasil, EUA, Canadá, Alemanha)
- Prémio da crítica de melhor filme internacional: A Sombra do Meu Pai, de Akinola Davies Jr. (Reino Unido, Nigéria)
- Prémio da crítica de melhor filme brasileiro: A Natureza das Coisas Invisíveis, de Rafaela Camelo (Brasil, Chile)
- Prémio Brada de melhor direcção de arte: Jennifer Anti e Pablo Anti pelo filme A Sombra do Meu Pai, de Akinola Davies Jr. (Reino Unido, Nigéria)
- Prémio Abraccine: O Pai e o Pajé, de Iawarete Kaiabi, codirigido por Felipe Tomazelli e Luís Villaça (Brasil)
- Prémio Netflix: Virtuosas, de Cíntia Domit Bittar (Brasil)
- Prémio Paradiso: Coração das Trevas, de Rogério Nunes (Brasil, França)
- Prémio Prisma Queer de melhor filme internacional: Queerpanorama, de Jun Li (EUA, Hong Kong, China)
- Prémio Prisma Queer de melhor filme brasileiro: A Natureza das Coisas Invisíveis, de Rafaela Camelo (Brasil, Chile)
- Prémio Prisma Queer – Prémio Especial do Júri: Morte e Vida Madalena, de Guto Parente (Brasil, Portugal)
- Prémio Humanidade: Euzhan Palcy, Jafar Panahi e os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne
- Prémio Leon Cakoff: Charlie Kaufman e Mauricio de Sousa

