TITANE: Símbolos de masculinidade e desconstrução de género

«Titane» (2021) de Julia Ducournau, o filme vencedor da Palma de Ouro abalou o Festival de Cannes e culminou no momento icónico em que Spike Lee quase anunciou, antes da hora certa, o grande vencedor da noite. Apesar de ter sido ignorado na temporada de prémios 2022, tendo falhado a nomeação a melhor filme internacional para os Óscares 2022, e até mesmo a nomeação a melhor filme na 47ª edição dos Prémios César da Academia Francesa de Cinema, é certo que «Titane» ficará na história e seguramente se tornará ao longo das próximas décadas num filme de culto dentro da comunidade cinéfila e estudantil.

Segundo a realizadora, que foi a segunda mulher na história a ganhar o prémio mais importante do Festival de Cannes, o título do filme «Titane» não só remete para a placa de titânio (titane em francês) que Alexia (Agathe Rousselle) tem na cabeça, mas também para titã (em francês titane é também o feminino de titã). Ducournau inspirou-se na história de Gaea, deusa da Terra, que concebeu 12 titãs com o seu filho Uranos. Segundo a mitologia grega, esta era uma família dinâmica e complexa, uma nova humanidade monstruosa, repleta de violência e rebelião, que pretendia escalar o céu para destronar Zeus. E é com esta nova humanidade monstruosa e repleta de rebelião, que Ducournau nos conta a história de Alexia.  Alexia é uma estrela de danças eróticas em salões de automóveis, tem uma placa de titânio na cabeça e na primeira meia hora do filme torna-se numa assassina em série. Após fazer sexo com um carro de exposição e engravidar do mesmo, faz-se passar por Adrien, um jovem desaparecido há mais de dez anos e é levada para um quartel de bombeiros, onde Vincent (Vincent Lindon), pai de Adrien e chefe dos bombeiros, a introduz neste ambiente maioritariamente masculino como Jesus, sendo ele, o autoproclamado Deus.

Titane (2021) Julia Ducournau
Titane (2021) Julia Ducournau

É com esta sinopse bizarra que nos deparamos com um filme que procura desconstruir os clichés associados aos géneros na nossa sociedade. Através de símbolos de masculinidade, tais como car shows e bodybuilding, Ducournau introduz-nos a personagens que rapidamente desconstroem os símbolos vigentes que dominam a nossa sociedade e o próprio cinema. Em «Titane» é a mulher o rosto do crime, ao passo que as figuras masculinas representam a vulnerabilidade e busca de conforto; face ao género cinematográfico, Ducournau não reduz o filme a body horror e muitas vezes refere ser uma história de amor – numa entrevista ao The Independent afirmou tentar introduzir momentos de realidade sabendo que o filme não é de todo realista; afirmando que quanto mais extravagante e orgânico maior a distância com o gênero sci-fi.  «Titane» inverte a trajetória normal da estrutura narrativa, inicia-se como um filme arthouse serial killer in media res, transformando-se num parental drama e como Ducournau afirma, numa história de amor.

A cena de sexo entre Alexia e o carro, por mais confusão que cause ao espectador, expõe no filme os símbolos de masculinidade e a desconstrução de género a que me refiro. Tal como Ducournau referiu numa entrevista ao Screen Daily, o carro representa a extensão da masculinidade tóxica na nossa sociedade, e com esta cena, Ducournau pretendeu reverter os papéis no momento em que Alexia assume controlo sobre o carro. O erotismo nesta cena faz-nos lembrar o filme «Crash» (1996) de David Cronenberg, e são visíveis traços do cinema de David Lynch, com esta cena Ducournau abre a cortina ao surrealismo num filme que estabelece uma narrativa realista no desenvolvimento das personagens e da própria história. 

Titane (2021) Julia Ducournau

A escolha do salão de automóveis e do quartel dos bombeiros como cenários principais do filme não foi por acaso, tanto o quartel de bombeiros como o salão de automóveis representam espaços onde os estereótipos de género estão presentes, os mesmos que o filme pretende desconstruir; no carshow a figura feminina é objetificada ao dançar em cima de carros de forma sexual e provocadora, a própria protagonista apresenta-se no início do filme como um símbolo sexual feminino, passando por uma transformação que a leva a ter uma aparência masculina na última cena. No quartel de bombeiros o ambiente é dominado por homens, a própria personagem do Vincent representa o estereótipo de homem macho, bodybuilder, líder, auto-proclamado Deus perante os bombeiros, mas ao longo do filme mostra a sua sensibilidade e vulnerabilidade. Vincent procurava encontrar o seu filho perdido, Adrien, ignora todos os sinais que expõem a verdadeira identidade de Alexia, e no fim, agarra o bebé, metade humano, metade mecânico no seu peito e diz: “Estou aqui”. 

Com estes dois espaços e personagens, Ducournau desconstrói o estereótipo de mulher e homem, os símbolos masculinos e femininos revertem-se e expõem a linha tênue que divide ambos os géneros, uma linha imposta pela nossa sociedade. Segundo a realizadora, «Titane» fala sobre humanidade, a única coisa de que o filme realmente fala é sobre humanidade.

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