Triângulo da Tristeza: o navio hobbesiano do capital

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Ruben Östlund é um profundo observador do comportamento e da natureza humanas, comummente bizarros e insólitos, e daí um confesso adepto de plataformas digitais como o YouTube, passatempo e reservatório de inspiração cinematográfica para o realizador sueco.

Lembrando o rei do insólito banal, urbano e intrincado, Woody Allen, também o sueco Östlund não resiste a cutucar dilemas morais, como quando assistimos ao pai que não cumpre o instinto de salvar os filhos da avalanche, em “Força Maior” (2014), ou ao curador de arte que não olha a meios para reagir ao roubo do seu telefone, em “O Quadrado” (2017), até quando assistimos à elite de um cruzeiro afundado e que dá à costa numa ilha na tentativa de sobrevivência, agora em “Triângulo da Tristeza” (2022). Estes dois últimos filmes são ambos vencedores da Palme d’Or do Festival de Cinema de Cannes.

A genialidade do argumento e realização desta filmografia está em retratar toda a moralidade da ideologia humana sem moralismos, e agora de forma magistral em “Triângulo da Tristeza”, sem receio de atiçar o politicamente correcto. O realizador sueco afunila e agudiza, através do seu mais recente filme, aquilo que nos distingue uns dos outros, ideologica e moralmente, a saber, o capital. Ora vejamos.

A narrativa divide-se em capítulos, o que remete para outro dos grandes filmes de 2022, “Drive My Car” (2021, Ryûsuke Hamaguchi,) – e que é sinal que a duração dos filmes parece estar a regressar -, e consubstancia a ideia de Fábula, ou estado imaginado, no qual estamos prestes a embarcar.

Primeiramente, um casal jovem, rico, e do mundo da moda, que exibe todos os tiques do fetichismo da sociedade ocidental: o culto do corpo, a selfie como apêndice, e a “influência” como meio de vida (e de sustento), a par disso exibe, consequentemente, toda a carência de alteridade e de comunidade.

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TRIANGLE OF SADNESS, from left: Charlbi Dean, Harris Dickinson, 2022. © Neon / Courtesy Everett Collection

Neste primeiro capítulo, a discussão moral em torno do capital circunscreve-se à distinção de remuneração em função do género, e sim, a mulher-modelo (Charlbi Dean) ganha mais do que o homem-modelo (Harris Dickinson), todavia, e apesar das actuais correntes feministas, Östlund logo expõe uma ferida: conserva-se a ideia de que o homem deve sustentar a mulher, e de que a mulher se serve ainda desse intuito a priori. Entregues ao simulacro da ocupação de influenciadores digitais, o jovem casal junta-se a um grupo de elite milionária e embarcam num cruzeiro.

O navio do cruzeiro poderá aqui assemelhar-se ao comboio de “Snowpiercer” (2014, Bong Joon-ho), no sentido em que constitui a representação do Estado Social, temática muito teorizado no âmbito da Filosofia política moderna, cuja obsessão era compreender aquilo que nos levou a organizarmo-nos e a vivermos em sociedade. Em resposta a esta obsessão, o realizador e argumentista empresta o pessimismo de Thomas Hobbes, e inverte o caminho da resposta, isto é, dá-nos a representação do Estado social no navio, para depois, expor o estado de natureza do humano aquando dos naufragados tentarem sobreviver na ilha. Se para Thomas Hobbes o abandono do estado de natureza justifica-se pela necessidade civilizacional de os homens e mulheres obterem segurança e protecção uns dos outros, que somente será conseguida pela criação do Estado – na mítica figura de um Leviatã -, em “Triângulo da Tristeza”, compreendemos que o Leviatã contemporâneo não é o da manutenção do convívio pacífico, é o da conservação da desigualdade em nome do capital.

Toda a ilustração da força-matriz do capital está resumida na cena e extraordinário diálogo (não fosse a interpretação de Woody Harrelson) entre o capitão do navio, marxista e americano, e o tripulante russo, milionário e capitalista. Embebidos na discussão ideológica que os opõe (e aqui Hannah Arendt ajuda-nos a antever que todos as ideologias, nos seus extremos totalitários, se tocam), estas duas figuras alcoolizadas são as únicas capazes de lucidez, de entre um navio repleto de tripulantes ricos, podres, a definharem, por contraste com a classe pobre de trabalhadores, a quem cabe lidar e limpar os dejectos e toda a dimensão escatológica elitista.

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Triângulo da Tristeza (2022), Woody Harrelson.

Do navio afundado, premonição porventura de um planeta prestes a implodir, os naufragados e sobreviventes dão à costa e restituem o estado de natureza, ou seja, o do puro instinto de sobrevivência, sem que não se deixem de formar desigualdades-outras. Na ausência de capital (ainda que Dimitri (Zlatko Buric) retire as jóias da irmã moribunda), aquela que detém o poder é a mais capacitada para garantir a sobrevivência, sem surpresas, a empregada Abigail (Dolly De Leon). Ela rapidamente transforma-se na líder e cobradora de favores sexuais, numa clara inversão de classes.

O triângulo da tristeza na nossa face que não se distraia pelo aparente absurdo humorístico da filmografia de Östlund, pelo contrário, que se intensifique pela possibilidade de indignação acerca do rumo e rota do humano. É que a riqueza tende a dar as mãos à flexibilização de valores morais, motivo pelo qual todos se adaptam à nova realidade na ilha. Contudo, não há uma genuína comunidade, e o pessimismo é aqui evidente: no Estado social, ou no natural, tanto o homem quanto a mulher são o lobo um do outro, e o final do filme em aberto serve todo o espectro político, pois irão aquelas mulheres permanecer no abraço e na esperança da união, ou irão elas aniquilar-se na surdina da revolta (?).

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