TVCine dedica mais de 24 horas à obra de João Canijo numa retrospetiva inédita

Serão exibidos 13 filmes de João Canijo ao longo desta programação especial, compondo um olhar inédito e transversal sobre uma carreira que atravessa quase quatro décadas
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Foto: Carolina Monteiro/JPN

No domingo, 8 de fevereiro, o TVCine presta homenagem à obra de João Canijo com uma retrospetiva sem precedentes na televisão portuguesa. Durante mais de 24 horas consecutivas, o canal TVCine Edition exibe uma maratona cinematográfica dedicada à filmografia do realizador, falecido a 29 de janeiro, aos 68 anos, celebrando o legado de uma das figuras maiores do cinema português contemporâneo.

Ao longo desta programação especial, serão exibidos 13 filmes de João Canijo, numa revisitação ampla e inédita de uma carreira que atravessou quase quatro décadas. A emissão tem início às 02h10 de domingo, prolonga-se durante todo o dia 8 de fevereiro e estende-se até à madrugada de segunda-feira.

Em paralelo, os filmes estarão igualmente disponíveis na plataforma TVCine+, permitindo ao público rever ou descobrir uma obra fundamental do cinema nacional.

Esta retrospetiva inclui cópias restauradas pela Cinemateca Portuguesa. No caso de “Noite Escura” (2004), será exibida a versão longa do filme, correspondente à versão final desejada pelo realizador no âmbito do processo de restauro, oferecendo aos espectadores a possibilidade de contactar com a obra tal como Canijo a concebeu.

A singularidade de um autor

João Canijo iniciou a sua carreira no final da década de 1980 e afirmou-se como uma voz central do cinema português, conquistando reconhecimento dentro e fora de Portugal.

O seu cinema distinguiu-se pelo forte realismo social, pela observação rigorosa das dinâmicas familiares e por uma atenção constante às tensões económicas e morais da sociedade portuguesa.

Aquando da sua morte, o encenador Tiago Rodrigues descreveu-o como um “artista extraordinário” que “travou um combate poético com o país que somos”, sublinhando a forma como a sua obra refletia “doses iguais de violência e ternura”.

Um dos traços mais essenciais da filmografia de Canijo é a centralidade das personagens femininas, frequentemente colocadas no centro de narrativas densas e complexas. Ao longo da sua obra, o realizador explorou relações de poder, sobrevivência e identidade a partir do ponto de vista das mulheres, conferindo-lhes um papel determinante no seu cinema.

Em 2023, venceu o Urso de Prata – Prémio do Júri do Festival Internacional de Cinema de Berlim com “Mal Viver”, filme que forma um díptico com “Viver Mal”. No mesmo ano, recebeu também um prémio de carreira no Festival Cineuropa, em Santiago de Compostela, reconhecimento de um percurso artístico ímpar.

Filmes em exibição

Os filmes em exibição percorrem grande parte do universo criativo de João Canijo, entre a ficção marcada por fortes dramas familiares, o olhar atento sobre a religião popular e um conjunto significativo de obras documentais que revelam o seu método e as suas obsessões temáticas.

Na ficção, Canijo estreia-se nas longas-metragens com “Três Menos Eu” (1988), um retrato do reencontro de três amigos de juventude confrontados com o desgaste do tempo e as desilusões da vida adulta. Uma década depois, “Sapatos Pretos” (1998), inspirado num crime real, mergulha num Alentejo opressivo para contar a história de uma mulher presa a um casamento infeliz, num filme sombrio sobre o desejo de libertação. Em “Ganhar a Vida” (2001), o realizador desloca-se para os subúrbios de Paris, acompanhando a comunidade de emigrantes portugueses através da figura de uma mãe, interpretada por Rita Blanco, que tenta elaborar o luto pela morte do filho enquanto enfrenta a dureza da vida operária.

A tragédia familiar regressa com particular intensidade em “Noite Escura” (2004), ambientado numa casa de alterne, onde a ganância e o sacrifício se entrelaçam quando um pai decide “vender” a filha mais nova para salvar o negócio da família. Já em “Sangue do Meu Sangue” (2011), frequentemente apontado como a sua obra-prima, Canijo fixa-se no bairro da Padre Cruz para retratar o amor incondicional de uma mãe e de uma tia que procuram proteger os seus de escolhas trágicas, num filme profundamente marcado pela ideia de dignidade na pobreza.

A religião surge como tema central em “Fátima” (2017), que acompanha um grupo de mulheres numa peregrinação a pé até ao Santuário. Mais do que um filme religioso, trata-se de um estudo sobre o cansaço físico, a fé e a convivência sob pressão extrema.

Em 2023, regressa com “Mal Viver”, vencedor do Urso de Prata em Berlim, que acompanha várias gerações de mulheres de uma mesma família responsáveis por um hotel em decadência, explorando conflitos e ansiedades nas relações entre mães e filhas. O filme encontra o seu contraponto em “Viver Mal” (2023), rodado no mesmo espaço e em simultâneo, mas centrado no ponto de vista dos hóspedes, cujas histórias se cruzam com as das proprietárias.

Documentários

O percurso expositivo inclui ainda um conjunto relevante de documentários, fundamentais para compreender o processo criativo do realizador.

Em “Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor” (2011), Canijo revela o seu método de ensaios intensivos, acompanhando a construção das personagens e dos diálogos de “Sangue do Meu Sangue” a partir da improvisação. “Raul Brandão Era Um Grande Escritor…” (2012) presta homenagem ao escritor, explorando a sua influência e o imaginário da sua obra.

Em “É o Amor” (2013), Canijo cruza documentário e ficção para se fixar nas mulheres da comunidade piscatória de Vila do Conde, sublinhando a força feminina e a gestão da vida doméstica enquanto os homens estão no mar.

“Portugal, Um Dia de Cada Vez” (2015), codirigido com Anabela Moreira, percorre o interior do país, registando o quotidiano, as tradições e a resiliência de populações muitas vezes esquecidas, movimento que prossegue em “Diário das Beiras” (2017), dedicado às histórias de vida de quem permanece naquela região.

Programação:

02:10: “Três Menos Eu” (1988)
03:40: “Sapatos Pretos” (1998)
05:20: “Ganhar a Vida” (2001)
07:20: “Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor” (2011)
08:45: “Diário das Beiras” (2017)
10:45: “Fátima” (2017)
13:20: “É o Amor” (2013)
15:30: “Mal Viver” (2023)
17:40: “Viver Mal” (2023)
19:45: “Sangue do Meu Sangue” (2011)
22:00: “Noite Escura” (2004)
23:35: “Portugal, Um Dia de Cada Vez” (2015)
02:10: “Raul Brandão Era Um Grande Escritor…” (2012)