Berlim 2023: Uma Berlinale mais organizada abre com um filme desorganizado “She Came To Me”, de Rebecca Miller

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Com um time de jurados de luxo encabeçado pela atriz Kristen Stewart, e com Zelensky a fazer de convidado de honra, Berlim abre mais organizada e com maior presença de participantes desde a pandemia. No entanto, arranca com uma estranha comédia dramática que nunca acerta o ponto: “She Came to Me” da realizadora Rebecca Miller.

Depois de dois anos em suspenso, com uma edição acontecendo online em 2021 e depois, com as estritas medidas de segurança em relação à Covid do ano passado, Berlim aparentemente voltou ao normal. A notar pela quantidade de pessoas acreditadas em longas filas na Potsdamer Platz já na quarta-feira, acredita-se que 2023 será um grande retorno à forma. O diretor artístico Carlos Chatrian disse em entrevista recente que é a edição com maior número de acreditados dos últimos anos, não só para o festival em si mas também para o European Film Market. O EFM, como é conhecido, que acontece em paralelo ao festival, faz a sua primeira edição presencial desde a pandemia e esgotou todas as suas cabines para locação já em Dezembro.

Esses fatos geraram mudanças positivas diretas na estrutura do festival como o conhecíamos. As sessões para imprensa do filme de abertura, geralmente programado para a manhã do primeiro dia do festival, este ano foi mudado para um dia antes do seu início. Na quarta-feira à noite todas as salas do Cinemaxx foram fechadas para o visionamento do último filme de Rebecca Miller. Para além disso, novas salas como a Verti Music Hall, uma casa de espetáculos dentro do Mercedes Benz Arena, transformada em cinema, também dará suporte aos espaços físicos do festival aumentando a sua capacidade de público.

No final da tarde de ontem, abriu-se o tapete vermelho que dava início a cerimônia de abertura no Berlinale Palast. A movimentação lá fora era enorme e com intenso alvoroço entre os milhares de fãs que se juntavam à volta das grades para tirar fotos dos seus ídolos. Especialmente Anne Hathaway, uma das protagonistas do filme de Miller e Kristen Stewart, a presidente do júri do festival, que desde a sua chegada a Berlim no começo da semana, parece não ter tido muito sossego. Na terça houve notícias de que a atriz estava sendo perseguida por paparazzis pelas ruas da cidade, onde foi fotografada por um tabloide inglês enquanto caminhava de mãos dadas com a namorada.

Seguiu-se então a cerimônia de abertura, apresentando um novo formato no palco no Palast e com um estranho e desconfortável número musical que parece não ter ecoado muito bem com os presentes. Mas o momento alto da noite, a exemplo do que aconteceu em Cannes em maio passado, foi o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky fazendo uma aparição especial por videoconferência. No telão do Palast, o presidente foi recebido de pé e aplaudido com entusiasmo.

O ator Sean Penn, cujo documentário Superpower” sobre o conflito na Ucrânia está programado para estrear na sexta à noite, subiu no palco para apresentar o presidente ucraniano. Penn revelou que a intenção original do documentário era explorar a improvável ascensão de Volodymyr Zelensky, um comediante tornado presidente, mas a eclosão da guerra na Ucrânia obrigou o filme a mudar de foco.

Zelensky fez um discurso apaixonado, pedindo aos cineastas e artistas que não permaneçam calados sobre questões de política global, já que seu país marca um ano desde a invasão russa. E citando o clássico As Asas do Desejo”, de Wim Wenders, um filme que se passa numa cidade dividida, o presidente afirmou que seria impossível que a Berlinale acontecesse numa Potsdamer Platz dividida, a casa do festival que até 1989 era partida pelo meio pelo infame muro.

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A colcha de retalhos mal costurada de “She Came to Me”

Duas horas depois dessa longa cerimônia, fortemente carregada de mensagens políticas, chegamos aos filmes. As suspeitas de que “She Came To Me” seria mais uma daquelas comédias românticas inofensivas calculadamente apropriada para abrir um festival, são dissipadas logo na sua primeira meia hora. O filme da americana Rebecca Miller (que é filha do escritor Arthur Miller) foi talvez uma das escolhas mais bizarras a abrir a Berlinale em muitos anos.

Depois do insosso Maggie tem um Plano”, que estreou aqui em Berlim na paralela Panorama em 2016, o novo filme da realizadora, “She Came To Me”, teve as honras de abrir a 73.ª edição do festival. Mas Miller fez um filme estranho e desconexo, que começa por ser uma comédia romântica despretensiosa mas que depois acaba por se aventurar por territórios mais desconhecidos. Só que infelizmente no mau sentido.

A história envolve um compositor de ópera (Peter Dinklage) que se encontra em um prolongado estado de bloqueio criativo. Desesperado por uma solução, ele conhece acidentalmente a capitã de um barco rebocador (Marisa Tomei), que foi clinicamente diagonisticada por ser “viciada em sexo e romance”. Depois de um rápido e inusitado encontro entre os dois, a capitã se torna obcecada pelo compositor, que por sua vez é casado com a sua ex-terapeuta (Anne Hathaway).

O affair com Tomei, apesar de temporariamente curar o bloqueio criativo do compositor e fornecer material para a sua nova ópera, que dá título ao filme, o leva a enfrentar uma crise pessoal com consequências para todas as dezenas de personagens criados por Miller.

Claro que este pequeno sumário, que é divulgado como a premissa do filme, resume apenas um terço de tudo o que se passa por aqui. E muita coisa se passa neste filme .

Para começar, Miller parece nunca conseguir acertar o tom. Na ambição de criar muitos subplots e dar vida aos seus múltiplos personagens, a realizadora fez um filme estranhamente confuso, sempre pisando em falso no equilíbrio entre momentos dramáticos e a comédia de erros. Na sessão para a imprensa na quarta à noite, o filme arrancou risos involuntários da plateia, em momentos que não tinham nada de humor, com gags forçadas e piadas que nunca acertavam o timing. Por exemplo, uma das histórias que Miller quer contar, no meio de tantas, envolve um pai querendo acusar o filho (negro) da personagem de Hathaway de estuprar a sua filha, que é branca e menor de idade. O jovem em questão, de dezoito anos, é o novo namorado da filha, de dezesseis. Como sabemos desde o início que eles são um casal apaixonado, e portanto que o sexo entre eles é consentido, fica claro que a acusação é movida apenas por racismo.

Nada de errado com com este fio do enredo, esta seria até uma premissa interessante de se explorar não fosse a seriedade em que Miller tenta impô-la a marretadas, no meio de uma comédia screwball. Logo a seguir a isso, somos expostos à personagem de Hathaway, em modo pin-up cômica, a lidar com uma obsessão por limpeza (a qual nunca entendemos muito bem para quê) desembocando numa crise existencial que a leva a querer ser uma freira!

Ou seja, existem vários filmes sem relação entre si tentando coabitar dentro do microcosmo disfuncional criado pela realizadora. O problema é que quando estes filmes são colados uns aos outros, causa um efeito caótico, excruciante e dolorosamente constrangedor.

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