Saias justas, Zelensky e zombies marcam a abertura de Cannes 2022

Um filme de comédia-terror gore abre a edição 2022 de Cannes, que arrancou ontém com a apariçao ao vivo de Zelensky por meio de satélite. O primeiro dia do festival se completou com uma controvérsia envolvendo o sistema de tickets do festival e uma acusação de censura por parte do seu diretor Thierry Framux.

A 75ª edição do maior festival de cinema do mundo começou ontem aos tropeços. O início deu-se com uma morna conferência de imprensa do júri durante a tarde, com Vincent Lindon como presidente, onde ele fez um discurso longo afirmando que não estava ali para julgar seus colegas e seus filmes. O tom apaziguador se seguiu com todos os outros restantes membros do júri repetindo as palavras de Lindon. A atriz e realizadora Rebecca Hall, a atriz sueca Noomi Rapace, o realizador americano Jeff Nichols, o realizador iraniano Asghar Farhadi, Deepika Padukone da Índia, a atriz italiana Jasmine Trinca, o realizador francês Ladj Ly e o norueguês Joachim Trier.

Mas as perguntas desconfortáveis vieram, como por exemplo sobre a falta de diversidade na competição principal – de mulheres e de negros; e a americana Rebecca Hall visivelmente constrangida, tentou escapar do confronto mas por fim teve de salvar a pele de Thierry Fremaux afirmando que esse é um “work in progress” do festival.

Aí por fim, um jornalista pergunta ao iraniano Farhadi sobre o caso de plágio pelo qual ele é acusado e o que ele achava da possibilidade de “uma colega mulher poder receber 74 chicotadas como punição” no caso de ele ser absolvido. O realizador iraniano, num claro esforço para parecer inabalável, respondeu em farsi que era tudo mentira e que as informações divulgadas na imprensa de que ele fora condenado não passavam de “fake news”. Nada do que já não havíamos lido extensivamente nas semanas anteriores.

E festival sem controvérsia, não é festival. E elas abundam em Cannes, que mal começou. Teve o crash do novo sistema de tickets que deixou metade dos visitantes sem poder agendar os seus filmes, e que o festival respondeu dizendo se tratar de um ataque hacker, e culminou com um artigo da revista Deadline, um dia antes do arranque, que publicou um artigo em que acusava o seu diretor Thierry Fremaux de censura.

Após dar uma entrevista à publicação, o francês voltou atrás e pediu para que algumas das suas respostas – nomeadamente sobre a falta de diversidade e principalmente sobre a presença do filme russo Tchaikovsky’s Wife na competição – fossem apagadas. O burburinho tomou conta das discussões no Twitter da segunda-feira até que o festival teve de improvisar uma pequena conferência com jornalistas na tarde de terça para dar explicações.
Visto que o festival proibiu jornalistas russos que façam publicações pró-Putin e delegações russas patrocinadas pelo Estado, Fremaux foi questionado sobre até que ponto Cannes estava preocupado com o fato de o oligarca russo Roman Abramovich ser um dos patrocinadores do filme do realizador dissidente Kirill Serebrennikov (agora vivendo em Berlim) em competição.

O presidente do festival, em tom irônico, disse que recebia cinco emails por dia com perguntas sobre este assunto, e explicou que o festival decidiu aceitar o filme porque fora filmado antes da guerra contra a Ucrânia, quando receber dinheiro russo ainda não era problemático.

“Nós não cedemos a nada”, disse Fremaux na entrevista à Deadline, “a força de Cannes é respeitar firmemente quem somos, respeitando os outros. Nós não cedemos ao politicamente correto.”
Entretanto, parece que 2022 bate à porta do maior festival do mundo e “não ceder ao politicamente correto” não parece ser mais uma opção disponível.


Mas e os filmes?

Também teve. Ou quase. Antes do filme de abertura, um convidado surpresa interrompia a cerimónia no Grand théâtre Lumière. Através de um vídeo ao vivo via satélite, o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy se endereçava à elite da indústria cinematográfica francesa que o aplaudia efusivamente. No meio da plateia no Debussy, onde a cerimónia corria em paralelo, dois espectadores em pé, numa espécie de flashmob previamente coreografado, seguravam uma bandeira gigantesca da Ucrânia enquanto Zelensky discursava fazendo conexões entre cinema e realidade. Ele fez referência a filmes como “Apocalypse Now”, de Francis Ford Coppola, e “O Grande Ditador”, de Charlie Chaplin, e citou o monólogo final de Chaplin em “O Grande Ditador”, que era lançado nos primeiros dias da Segunda Guerra Mundial: “O ódio dos homens passará, e os ditadores morrerão, e o poder que tiraram do povo retornará ao povo.”
“Precisamos de um novo Chaplin que demonstre que o cinema do nosso tempo não é silencioso”, por fim finalizou Zelensky.

E do cinema mudo, chegamos ao inenarrável filme de abertura, Coupez!, do realizador Michel Hazanavicius, que em 2011 utilizou-se propriamente do cinema mudo em O Artista para fazer a sua entrada retumbante em Cannes. A escolha de um filme como este como filme de abertura do maior festival do mundo soa forçada e arbitrária. Mas se tratando de Cannes, aprendemos que tudo é possível.

O filme tinha sido renomeado de seu título original Z, duas semanas antes do início do festival, visto que a letra Z para alguns simpatizantes de Putin simboliza o apoio à guerra da Rússia. O filme é um remake de um filme de culto japonês One Cut of the Dead de Shin’ichirô Ueda, de 2017, sobre a refilmagem de um filme de zombies série Z. Esse remake é entretanto um remake de um remake que está sendo filmado. Portanto, quer-se brincar ao jogo metaficcional, como se isso trouxesse algum grau de inteligência ao filme, mas o resultado que fica é amador, caricato e terrivelmente irritante.
Com alguns tropeções, a 75ª edição de Cannes começou desastrada e barulhenta. Ficamos assim então a aguardar as cenas do próximo capítulo.

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