Unicamp promove debate sobre cinema e sociedade após exibição de “O Agente Secreto”

Debate na ADunicamp acontece nesta terça-feira, às 19h, em meio à greve nas universidades estaduais paulistas
O Agente Secreto O Agente Secreto
"O Agente Secreto" (2025), de Kleber Mendonça Filho

Em continuidade à exibição de “O Agente Secreto”, realizada a 25 de maio na ADunicamp, a Unicamp promove nesta terça-feira, 26 de maio, às 19h, um debate com estudantes, investigadores e convidados sobre as dimensões políticas, sociais e cinematográficas do filme.

O encontro terá lugar no Auditório da ADunicamp, em Campinas (SP), na Cidade Universitária, Av. Érico Veríssimo, 1479. A sessão contará com a presença do professor Alberto da Silva, pesquisador da cultura e cinema brasileiro e professor associado na Universidade de Sorbonne, e de Gabriel Domingues, director de elenco do filme. A mediação será conduzida por estudantes do Unimídia, colectivo de alunos de Midialogia da Unicamp, em parceria com a Diretoria de Cultura (DCult), vinculada à Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (ProEEC).

A iniciativa propõe aprofundar a leitura do filme a partir de diferentes perspectivas, cruzando análise estética e reflexão social. O objectivo é também aproximar a produção cinematográfica recente do espaço universitário, promovendo a partilha de interpretações entre estudantes e investigadores.

Entre os temas que deverão orientar a discussão estão as diferentes formas de representação do Brasil no cinema contemporâneo e o uso de géneros como o suspense e a ficção científica para abordar questões históricas e sociais.

A actividade integra a programação cultural da universidade, que procura consolidar o cinema como espaço de encontro e reflexão crítica sobre a sociedade.

O Agente Secreto

Ambientado no Recife de 1977, sob a ditadura militar, “O Agente Secreto” articula uma narrativa de regresso atravessada por um exílio íntimo. Marcelo (Wagner Moura), professor universitário e especialista em tecnologia, regressa à cidade natal após um afastamento prolongado, trazendo consigo a marca de um passado em São Paulo apenas insinuado, associado a um industrial poderoso e a uma disputa em torno de uma patente.

O regresso não reconstitui pertença, antes acentua a instabilidade do seu lugar no presente. Entre a tentativa de reencontrar o filho pequeno, criado pelos avós maternos, com o avô a trabalhar como projecionista no Cinema São Luiz, e a procura de documentos que permitam esclarecer o estatuto civil da mãe falecida, Marcelo atravessa uma cidade submetida a mecanismos de vigilância e controlo.

Recife surge como um espaço tensionado, onde a repressão se infiltra no quotidiano e redefine as formas de circulação, relação e memória. Neste cenário, o protagonista vê-se envolvido numa rede de espionagem e conspirações, em que escolhas individuais e dilemas éticos se cruzam com segredos familiares e zonas ainda por resolver da história colectiva.

O refúgio possível encontra-se num “aparelho”, espaço clandestino de resistência habitado por dissidentes e marginalizados, entre os quais um casal de angolanos, Euclides e Tânia Maria, que ampliam a dimensão transnacional do exílio e da luta política.

A obra de Kleber Mendonça Filho ultrapassa a lógica do enredo policial e assume uma dimensão reflexiva sobre a vigilância como tecnologia de poder, a produção de verdades e as formas persistentes de resistência. Entre o suspense e o drama, o filme constrói uma mise-en-scène que convoca a memória histórica e devolve à ditadura brasileira uma espessura trágica e quase espectral.

Percurso de consagração

Desde a sua estreia na 78.ª edição do Festival de Cinema de Cannes, a 18 de maio de 2025, onde integrou a competição pela Palma de Ouro, “O Agente Secreto” foi aclamado pela crítica internacional. O filme destacou-se como um dos mais premiados da edição, arrecadando distinções como Melhor Realizador para Kleber Mendonça Filho, Melhor Actor para Wagner Moura, além dos prémios FIPRESCI e Prix des Cinémas d’Art et Essai.

A obra consolidou a sua circulação internacional através de um conjunto expressivo de distinções em diferentes academias e associações. Tornou-se o primeiro longa-metragem brasileiro nomeado aos Globos de Ouro nas categorias de Melhor Filme Dramático e Melhor Actor Dramático, com Wagner Moura, vencendo este último, feito inédito para um actor brasileiro na cerimónia.

Na mesma premiação, conquistou ainda o galardão de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, segunda vitória do Brasil na categoria após “Central do Brasil”, de Walter Salles.

No BAFTA, o filme obteve duas nomeações, nas categorias de Melhor Roteiro Original e Melhor Filme em Língua Não Inglesa. Já no Critics Choice Awards, tornou-se o primeiro filme brasileiro a vencer a categoria de Melhor Filme Internacional.

A produção somou um feito histórico ao obter quatro nomeações aos Óscares, entre elas Melhor Filme, Melhor Actor (com Wagner Moura a tornar-se o primeiro brasileiro nomeado na categoria), Melhor Filme Internacional e a nova categoria de Melhor Elenco.

Entre os prémios ibero-americanos, destacou-se como um dos grandes vencedores do Prémio Platino, com oito estatuetas, incluindo Melhor Filme Ibero-Americano de Ficção, Melhor Realização, Melhor Argumento e Melhor Actor, além de distinções técnicas em áreas como montagem, direcção artística e banda sonora original.

Em Portugal, foi distinguido nos Prémios Sophia com o galardão de Melhor Filme Ibero-Americano.

Em território brasileiro, o filme foi eleito pela Abraccine como Melhor Longa-Metragem Brasileiro de 2025. Já no Prémio APCA, arrecadou as distinções de Melhor Filme, Melhor Actor para Wagner Moura e o Prémio Especial do Júri atribuído a Tânia Maria.

Greve na Unicamp e em universidades estaduais paulistas

A actividade decorre em contexto de greve estudantil que já ultrapassa um mês nas universidades estaduais paulistas. Movimentos da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) protestam contra a precarização do ensino público e possíveis processos de privatização, além de reivindicarem melhorias nas condições de permanência estudantil.

Segundo os movimentos, há 130 cursos paralisados na USP, 69 na Unesp e 65 na Unicamp. Na USP, onde a mobilização teve início em 14 de maio, as assembleias estudantis impulsionaram a expansão do movimento para as restantes instituições.

Entre as principais reivindicações estão o aumento do auxílio de permanência, destinado a estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconómica ou oriundos de outras cidades, melhorias nos restaurantes universitários, contratação de docentes e a revisão dos repasses do ICMS, principal fonte de financiamento das universidades estaduais paulistas, cujo índice permanece inalterado desde 1995.

Questionada pela Agência Pública, a Unicamp referiu que o tema dos repasses é tratado no âmbito do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp). O órgão afirmou que os reitores da USP, Unicamp e Unesp aguardam novas reuniões com a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (SCTI), por meio do secretário Vahan Agopyan, para tratar da questão.