A desconfiança e a corporalidade. O medo a uma biologia que tudo devassa e consome, que transforma e faz criar uma outra coisa, um horror à vista, uma máquina outra, arqueada, gritante, sanguínea, ácida, mortífera. Lá fora, o frio que enregela, a neve que cega, brancura de um negrume que só o ser-se humano pode realmente esconder: se não sei quem o outro é, como pode ele saber quem eu sou? E se não se pode saber quem é cada um, como é que se pode perceber o que é ser-se humano? Essa parece ser a questão que mais preocupa John Carpenter neste seu “Veio do Outro Mundo” (“The Thing”, 1982): o que se é realmente, no interior, no âmago, no cerne. Pode-se ser de uma forma por fora, essa não engana, amanhã se será o que se é hoje, nada muda muito, mas o que vai no interior, isso verdadeiramente nunca se sabe, pois sempre se transforma, ou não fosse o humano um ser de mudança de espírito, de vontade, de ânimo e de sentimento. Perante o mal, mal ele pratica. Feito no mal, mais mal ele faz.
Neste filme em particular, o interno é simples função de um horror externo, de algo que vem de fora. A invasão do corpo e a sua transformação pelo corpo-horrífico e extremo afirma também um outro medo, o trans-medo, o terror da torção, da reconfiguração, da da negação total e absoluta de uma corporalidade numa outra. A “coisa” não se vê – é a forma da cópia do corpo que absorve – e esse é o paradoxo inicial desse medo da transformação: como pode ser imagem-forma aquilo que não se consegue ver como sendo uma “outra coisa”? Quando só fica o buraco de um corpo que ali esteve e que não se conhece como fisicalidade discernível, fica tão só a coisa desconhecida indiciada pela forma de um degelo que, por sua vez, instala um segundo medo: o do espaço invadido, o espaço-corpo que vem do exterior e que toma o seu lugar em todos os espaços que podem ser atravessados (os corredores) e que podem servir de esconderijo (as divisões interligadas). Já não é só o corpo como tecido insuspeito (mas suspeitoso) de oclusão corpo-territorial, é também o território em que tudo é matemática de expansão dos extra-corpos, os quais podem muito rapidamente completar bem para além daquele lugar, usando todos e quaisquer corpos nativos e facilmente violáveis, mutáveis e assimiláveis.
Não poderão estar, ao mesmo tempo, mais fechados (o complexo que encerra) e mais expostos (a Antártica imensa), os que estão sobre ataque: estão num “western” de terror, num “western” na neve, num “western” com criaturas, num “western” sobre o medo do outro. John Carpenter fá-los sempre renegados, anti-autoridade, vestidos como se fossem da Cavalaria, uma do ar, se diga: R.J. MacReady (Kurt Russell) é um anti-herói que não acredita em muito mais do que nele próprio e que, por não confiar em ninguém (e o ser humano não de todo confiável), se posta como um empedernido e capaz lutador que atravessa todas as dúvidas e variações corporais simplesmente porque é crente no ver e nada mais. Só através da certeza da visão e da liquidez do sangue, podem ele e todos os outros saber se aquilo que não se vê pode ser aquilo que mexe quando não deve mexer. E o que move e depois desaparece, o que se desfaz em partes e ainda sobrevive, para ainda tomar um outro corpo, refazer-se outra vez, numa outra cópia perfeita, num outro simulacro total? O medo passa a ser permanente, o “body horror” e o “fearful horror”, um medo duplicado, o negar de uma humanidade mínima, o matar primeiro para não morrer antes. Todos eles sabem: um de nós pode ser o extra-corpo, somos corpo nosso, mas já não somos o que fomos porque controlados agora, sabemos mas não sabemos ao mesmo tempo, já somos outra corporalidade dentro da nossa, somos cópia-número que já se fez cópia morrendo antes. O medo passa a ser o medo do medo. Para onde podem eles fugir? Para o próximo corredor, para a próxima sala? Se as roupas estão rasgadas, foi aquele outro que se matou? Se aquele ficou sozinho durante uma hora, já não é ele que controla o corpo que o carrega? O medo do corpo, pois então, o medo do biológico que pode, a qualquer momento, se transmutar no mais horroroso dos trans-corpos.
A estação científica torna-se ela própria a experiência do impossível: cães que se destroçam e lançam o líquido que re-molecula e homens que se rasgam em formas que nada de humano têm, partes de máquinas que se fazem outras máquinas (a nave que não chegará a partir), o calcular digital de um fim da Humanidade, previsto a partir das absorções continuadas de uma simples forma que nunca se conheceu realmente, a não ser como uma sem-forma, sombra sempre fugidia. O “western” tem que ser continuado: os tiros têm que ser disparados, as facções têm que ter as suas vitórias alternadas, o ficar-se no frio gélido e voltar, o destruir o helicóptero (única forma aparente de impedir o movimento do alienígena), o queimar com gasolina até que, esperançosamente, nada reste. O terror não pode ir embora: um a um, quase todos acabam por desaparecer, até que só ficam Childs (Keith David) e MacReady, sozinhos entre os destroços da estação. Um alienígena assimilador (quem deles?) que tudo absorverá ou um herói (qual deles?) que nunca será descoberto? A dúvida final de cada um deles é a mesma: ou mato aquele que está diante de mim e virei a destruir todos os humanos, que já não um humano eu próprio sou ou me e nos deixamos morrer aqui no frio que o fará hibernar de novo, e mesmo assim poderá ainda voltar a tomar as formas dos que virão saber o que connosco se passou.
Do terror para o heróico, do horror para o “western”, como sempre o faz Carpenter, as questões e as dúvidas são sempre acerca da conduta humana e como ela se transforma quando posta perante a sua própria volatilidade e transmutabilidade. Para isso, não se precisa de alienígenas, já chega o ser-se humanamente mutável e mutavelmente humano…

