“Wuthering Heights” é o primeiro grande blockbuster de 2026. Produzido e protagonizado por Margot Robbie e realizado por Emerald Fennell (“Promising Young Woman”, “Saltburn”), é a mais recente adaptação do romance homónimo de Emily Bronte, que explora a relação amorosa e destrutiva de Cathy (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi).
A fama da obra e as suas inúmeras adaptações para o grande ecrã já seriam o suficiente para elevar as expectativas para esta longa-metragem. No entanto, foi também a equipa por trás deste projeto, juntamente com um trabalho de marketing diferenciado alavancado por duas das maiores estrelas de cinema da atualidade e uma promessa de uma abordagem distinta e contemporânea, que situaram este como um dos grandes marcos cinematográficos do ano.
O filme é, para já, um marco na cultura pop e um êxito de bilheteira, tendo já atingido os 150 milhões de dólares, o que demonstra o trabalho eficaz realizado na divulgação do filme, reforçando o status de Margot Robbie e Jacob Elordi como super-estrelas.
Por outro lado, apesar da abordagem e do tom que se distanciam das versões anteriores, que até acaba por ser bastante interessante de um ponto de vista conceptual, o filme tem muito pouco a acrescentar de uma perspetiva narrativa contando com inúmeras sequências desconfortáveis (de forma não intencional) que deixam o público entre os sorrisos constrangedores e o desviar do olhar.
É claro que quem está familiarizado com o trabalho da realizadora já se habituou à sua visão ousada e muitas vezes provocadora e, nesta longa-metragem, os fãs de Emerald Fennel continuarão a reconhecer a sua pegada autoral apesar de esta ser a sua obra com maior foco na fotografia, aqui chefiada por Linus Sandgren e que acaba por ser o ponto mais forte do filme.
No entanto, as cenas mais arrojadas são completamente gratuitas, ao invés dos seus filmes anteriores em que estas sequências contribuíam para o desenvolvimento das personagens. A realização é pouco consistente e a narrativa flutua constantemente entre os momentos dramáticos e cómicos, sem qualquer equilíbrio, não permitindo ao espectador situar-se num universo credível com personagens tridimensionais. Fennel optou também por uma edição bastante acelerada que não permite que as cenas respirem, acabando por ser um dos fatores mais frustrantes da obra. Com planos tão incrivelmente bem pensados, um trabalho de cores tão forte, e uma direção artística tão sofisticada, é angustiante ter-se tão pouco tempo para absorver tamanha beleza.
Simultaneamente, é curioso que esta escolha por este ritmo acelerado acabe por aproximar o filme do formato do videoclip dos artistas pop. Neste sentido, é precisamente a banda sonora original de “Wuthering Heights”, desenvolvida por Charli xcx, que conta com canções muito mais interessantes do que o filme mas que parecem não pertencer a este universo.
Todas as performances contam com alguns momentos sólidos mas, assim como o filme, não parecem consistentes ao longo da sua duração, sendo de sublinhar a prestação de Margot Robbie que nos mostra Cathy como uma personagem forte mas pouco credível. Elordi consegue desenvolver melhor Heathcliff com momentos bastante vulneráveis e o carisma a que já habituou o público. Destaca-se Hong Chau com aquela que é, de longe, a melhor performance do filme. A atriz tailandesa domina totalmente o ecrã com a sua presença ameaçadora, roubando todas as cenas que partilha com os protagonistas. Parece ser ela também a única personagem secundária verdadeiramente bem desenvolvida.
Não se trata de um filme inteiramente ofensivo, mas também não cumpre com o que prometeu e o pouco valor que realmente entrega recai em aspetos técnicos irrepreensíveis e dominado por mestres nas respetivas áreas. Nestas duas horas e dezasseis minutos poderia ter havido um bom filme e isso é algo que se sente em algumas cenas. No final fica apenas a frustração de isso não ter acontecido e do público estar a marcar presença apenas para assistir a uma hiper sexualização gratuita de uma história que já lhes é familiar. Pelo menos, as aspas que a realizadora decidiu colocar no título do filme acabam por amenizar esta insatisfatória adaptação.


