A imagem de o rio Sena tingido de tinta vermelha, em homenagem sentida aos mortos com o vírus HIV, é uma das mais belas imagens deste filme, que ilustra bem a luta destes soldados de rua, cujo seu sangue foi derramado e ignorado. “120 Batimentos por Minuto”, a terceira longa-metragem de Robin Campillo, foi o filme sensação na 70ª edição do Festival de Cannes, tendo adquirido o Grande Prémio do Júri, e demonstra ser um dos melhores filmes de 2017. Realização, montagem e elenco surpreendem e encantam.

Filme melancólico e político este de Robin Campillo que escreveu o argumento juntamente com Philippe Mangeot, presidente da Act Up francesa. Baseado nas próprias experiências de Campillo e de Mangeot, como membros desta associação francesa, o filme retrata as suas lutas ativistas contra a epidemia da Sida nos anos 1990. Descontentes com a passividade e o silêncio dos políticos, cientistas e dos lucros das farmacêuticas, a Act Up Paris foi uma associação militante de luta de combate à SIDA, da comunidade homossexual, criada em 1989, inspirada no modelo americano. A inacção por parte do Governo francês, que nada fez para prevenir o alastrar do VIH, leva a que muitos jovens se juntem a este movimento militante a praticar ações não violentas em defesa da prevenção e do tratamento da doença. É neste contexto que Nathan, um jovem que se junta ao movimento, conhece Sean, um dos militantes mais fiéis e proactivos do Act Up, e que de um beijo politico entre eles, se cria uma relação forte.

Sean é um jovem cheio de energia e de vida, mesmo com o vírus a crescer dentro de si. A sua coragem e dedicação ao movimento de luta nas ruas é inspiradora. Na primeira parte do filme vemos muito dessa luta destes protagonistas, que ocupam palcos para se manifestarem ou que se deitam no meio da rua, erguendo cartazes com slogans fortes. Mas vemos também um ambiente de energia positiva e contagiante, como na discoteca, um espirito jovem de quem desfruta da vida. O ambiente de dança e de música que se converte em moléculas do vírus é um dos momentos mais poéticos desta obra. O passado e o presente entrelaçam-se para contar esta história, como por exemplo numa cena de sexo entre Sean e Nathan conhecemos o passado dos dois. Já a segunda parte foca-se mais na doença, na morte. O filme vai gerindo um ritmo energético que, com o evoluir da doença, vê-se forçado a abrandar o ritmo. Sean começa a ficar cansado com a doença a vencê-lo aos poucos. Quando o coração pára de bater temos o silêncio, a morte. Magnifico plano o da casa de Nathan, em que vemos do lado esquerdo a sala, com a presença de alguns membros da Act Up Paris a discutirem as futuras lutas e do lado direito o quarto, onde o corpo morto de Sean repousava. O vírus venceu este soldado, mas a luta continua pelos seus camaradas, nunca esquecendo os seus heróis caídos em combate. O gesto de Nathan será a sua última prova de amor perante Sean.

Esta obra de Campillo demonstra muito bem os bastidores da epidemia; da luta da Act Up ao ataque das indústrias farmacêuticas, ao seu papel fundamental na sensibilização da população, como por exemplo nas escolas. É por isso, também, um filme pedagógico. Como a certa altura alguém diz que a ignorância é uma ameaça e que o conhecimento é uma arma.

Um documento histórico que não se limita a recriar o passado, tornando-o numa obra intemporal e obrigatória. Fica a sensação de que este filme deveria ter chegado mais cedo. Já era tempo de o cinema discutir a SIDA, mesmo que antes tenhamos visto filmes como, por exemplo: “Filadélfia” (1993) e “O Clube de Dallas” (2013) ou a série “When We Rise”. Robin Campillo fá-lo melhor que eles todos. Estas personagens são reais, elas existiram e infelizmente milhares não se encontram hoje entre nós. Haja mais cinema assim, sentido, honesto e militante. O final silencioso do filme deixa o espectador constrangido, enquanto os créditos percorrem a tela. Na sala fez-se silêncio em homenagem aos mortos. O coração parou de bater.

Realização: Robin Campillo
ArgumentoRobin CampilloPhilippe Mangeot
Elenco: Nahuel Pérez Biscayart, Arnaud Valois, Adèle Haenel 
França – 2017
Drama
Sinopse
: Início dos anos 90. Com a SIDA a ceifar inúmeras vidas nos últimos dez anos, os activistas da Act-Up Paris multiplicam as suas acções para lutar com a indiferença generalizada. Nathan, um jovem que se junta ao movimento, vê a sua vida transformada por Sean, um dos militantes mais activos.

«120 Batimentos Por Minuto» - O corpo como arma de luta até o coração parar de bater.
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