7 filmes que eternizam Robert Redford

Sete títulos que reflectem não apenas um actor, mas uma forma de olhar o mundo
Robert Redford Robert Redford
Via: Wallpapers.com

Esta terça-feira, aos 89 anos, morreu Robert Redford, uma das últimas grandes lendas de Hollywood. A sua partida não é apenas a despedida de um ator célebre, mas o encerramento de um ciclo no cinema norte-americano.

Redford começou no teatro e na televisão em Nova Iorque, no final dos anos 50, mas foi com “Dois Homens e um Destino” (1969), ao lado de Paul Newman, que se tornou mundialmente conhecido. O duo voltaria a encontrar-se em “A Golpada” (1973), filme que venceu o Óscar de Melhor Filme e consolidou a dupla como símbolo de uma época.

Outros papéis memoráveis seguiram-se: o candidato carismático e falível de “O Candidato” (1972), o jovem jornalista em busca da verdade em “Os Homens do Presidente” (1976) ou o agente vulnerável em “Os Três Dias do Condor” (1975). Redford parecia sempre escolher personagens que refletiam as ambiguidades políticas e sociais do seu tempo.

Mas se a frente das câmeras ele já era um ícone, foi atrás delas que provou ser um verdadeiro visionário. Em 1980, com “Gente Vulgar”, surpreendeu Hollywood: o seu filme de estreia como realizador conquistou o Óscar de Melhor Realizador e Melhor Filme, algo raro para um primeiro trabalho.

Seguiram-se outros títulos de peso, como “Quiz Show” (1994) e “O Encantador de Cavalos” (1998), mostrando uma sensibilidade narrativa marcada pela ética e pela empatia.

O passo mais transformador, porém, viria com o Festival de Sundance. Fundado nos anos 80, tornou-se a plataforma essencial para o cinema independente norte-americano e internacional.

Foi graças a Redford que cineastas como Quentin Tarantino, Paul Thomas Anderson ou Steven Soderbergh encontraram visibilidade. Filmes como “Cães Danados”, “Donnie Darko” ou “O Projecto Blair Witch” devem a Sundance a sua existência pública. Ao criar este espaço, Redford rompeu com a lógica comercial de Hollywood, oferecendo ao cinema independente uma legitimidade inédita.

A sua visão artística nunca esteve dissociada da sua vida pessoal. No Utah, longe do ruído das grandes cidades, construiu a sua casa e ergueu a base de Sundance. Ali viveu em contacto com a natureza, coerente com o ativismo ambiental que abraçou desde cedo. Em 2005, fundou o Redford Center, ao lado do filho James, para usar o cinema como ferramenta de educação climática. Essa dimensão ética atravessa toda a sua carreira: Redford acreditava que o cinema tinha um papel social e político, para além do entretenimento.

A sua filmografia estendeu-se até muito recentemente. Em 2017, voltou a contracenar com Jane Fonda em “Nós, ao Anoitecer”, numa despedida afetiva da fase romântica da sua carreira. Em “O Cavalheiro com Arma” (2018), interpretou um ladrão idoso que vive da nostalgia do crime (papel que muitos viram como um reflexo da sua própria relação com o mito da juventude e da aventura). O seu último aparecimento no cinema foi em “Vingadores: Endgame” (2019), retomando o papel de Alexander Pierce, líder da Hidra, fechando o ciclo no maior franchise do cinema contemporâneo.

Mais do que ator, realizador ou produtor, Redford foi um mediador entre o passado clássico de Hollywood e o futuro incerto do cinema. Um artista que compreendeu que a fama só tem sentido quando colocada ao serviço de algo maior: a descoberta de talentos, a defesa da natureza, a valorização da liberdade criativa.

Com a sua morte extingue-se um rosto familiar, mas permanece uma obra que atravessa gerações. Em sua celebração, destacamos hoje sete títulos fundamentais da sua carreira.

“Dois Homens e um Destino” (1969), de George Roy Hill

Em “Dois Homens e um Destino”, George Roy Hill transporta-nos para o crepúsculo do Velho Oeste, cenário em que se forja uma das mais magnéticas duplas de fora-da-lei do cinema: Butch Cassidy, encarnado com argúcia e charme por Paul Newman, e Sundance Kid, cuja presença hipnótica é conferida por Redford. Longe da poeira estéril e da rigidez austera do faroeste clássico, o filme abraça uma narrativa em que se entrelaçam acção arrebatadora, humor sutil e uma melancolia persistente, como sombra que recusa dissipar-se.

A trama acompanha Butch, cérebro engenhoso e negociador perspicaz, e Sundance, pistoleiro de reflexos quase sobre-humanos, ao comando do “Buraco na Parede”, gangue dedicada a assaltos a bancos e comboios. Porém, a audácia é subitamente posta à prova por um “Superbando” inclemente, elite de rastreadores e atiradores de precisão inigualável. Sob a pressão dessa perseguição implacável, a aparente invencibilidade da dupla desfaz-se, revelando a fragilidade e a efemeridade de um mito construído entre o risco e a liberdade.

“O Candidato” (1972), de Michael Ritchie 

“O Candidato”, de Michael Ritchie, apresenta Redford como Bill McKay, advogado progressista da Califórnia e filho do ex-governador John J. McKay, cuja sombra política paira sobre a trajectória do próprio filho. Inscrito para o Senado por Marvin Lucas, estratega político de cálculo preciso, McKay impõe uma condição: falar com liberdade absoluta, sem artifícios nem concessões. Inicialmente sem quaisquer hipóteses, a sua franqueza começa lentamente a conquistar o eleitorado, transformando o gesto simbólico de uma candidatura marginal numa força inesperada.

À medida que a campanha se intensifica, Lucas e a sua equipa mobilizam toda a maquinaria estratégica, refinando discursos, moldando imagens e calibrando cada gesto. McKay confronta-se com a erosão gradual dos próprios princípios; os escrúpulos cedem diante da lógica inexorável da política e do imperativo de vencer. Em cada escolha, em cada palavra ensaiada, instala-se uma consciência inquieta da metamorfose que atravessa o candidato, revelando o embate entre idealismo e ambição. O filme expõe, com ironia sofisticada e subtil elegância, a fragilidade moral do protagonista e o preço de permanecer no jogo político.

“O Nosso Amor de Ontem” (1973), de Sydney Pollack

“O Nosso Amor de Ontem”, de Pollack, apresenta Redford ao lado da icónica Barbra Streisand, que dá vida a Katie Morosky, ativista comunista de convicções inabaláveis. Nos tempos de universidade, Katie cruza-se com Hubbell Gardiner (Redford), jovem atleta de corpo robusto e mente literária, num contacto breve e discreto, limitado às aulas de redação, mas suficiente para deixar uma marca silenciosa e persistente em ambos.

O filme situa-se na maturidade dos protagonistas, quando o reencontro reacende uma paixão fulgurante, entrelaçada com o tumulto político e ideológico da época. Cada instante do amor que floresce entre eles é submetido a provas constantes: as visões de mundo diametralmente opostas transformam o sentimento em terreno instável, exigindo de cada um coragem para ceder, compreender e resistir à tentação de anular o outro.

Mais do que um romance, é uma reflexão sobre a complexidade do amor imerso em tempos de convulsão social, sobre o equilíbrio delicado entre desejo e ideologia, e sobre a força que mantém juntos aqueles que, apesar das divergências, se reconhecem na essência um do outro.

“O Grande Gatsby” (1974), de Jack Clayton

Adaptado do romance de F. Scott Fitzgerald, o filme apresenta Robert Redford como Jay Gatsby, um milionário enigmático em busca do seu grande amor perdido, Daisy Buchanan. Realizado por Jack Clayton, o filme transporta-nos para os anos 1920, entre festas luxuosas e ostentação, onde o brilho da sociedade esconde um profundo vazio emocional. Redford dá vida a um Gatsby carismático e sofisticado, numa das interpretações mais memoráveis da sua carreira.

Décadas depois, a história voltou às salas de cinema, em 2013, com Leonardo DiCaprio a assumir o papel principal.

“Os Homens do Presidente” (1976), de Alan J. Pakula

“Os Homens do Presidente”, inspirado em factos verídicos, narra a investigação de Robert Woodward e Carl Bernstein, jornalistas do Washington Post, sobre o escândalo de Watergate, nos anos 70. A dupla descobre uma teia de espionagem e lavagem de dinheiro que, lentamente, desmorona o poder de Richard Nixon, levando-o à renúncia durante o segundo mandato.

Tudo começa com um episódio aparentemente trivial: a invasão do edifício Watergate por um grupo de criminosos. À primeira vista, parecia um caso banal, digno apenas de notas nas páginas policiais. Contudo, o que se anunciava corriqueiro revela-se progressivamente como o epicentro de um dos maiores escândalos políticos da história norte-americana. Nixon, eleito em 1972 para o segundo mandato, vê-se gradualmente envolvido, enquanto a sombra da suspeita cresce e ameaça a própria presidência.

Meses antes da eleição, os invasores são detidos no quartel-general do Partido Democrata, em Watergate. Ligados a agências como FBI e CIA, foram apanhados com câmeras e microfones. À primeira vista, parecia improvável que isso afetasse a reeleição de Nixon. É então que Woodward e Bernstein emergem no cenário jornalístico, conduzindo uma investigação minuciosa. O filme destaca o empenho destes repórteres em expor a verdade, transformando a busca jornalística numa força capaz de confrontar o poder e revelar a dimensão histórica do escândalo.

“Os Três Dias do Condor” (1975), de Sydney Pollack

Situado entre os arranha-céus de Nova Iorque e os corredores de poder de Washington, D.C., o filme narra a história de um investigador da CIA, apaixonado pelos livros e pelo silêncio dos arquivos, cuja existência tranquila é subitamente desfeita. Num dia aparentemente comum, ao regressar do almoço, depara-se com uma cena macabra: todos os seus colegas de trabalho foram assassinados.

A partir desse instante, vê-se envolto numa teia de intrigas e perigos invisíveis, obrigado a escapar de um destino idêntico e a decifrar os motivos ocultos por detrás da matança. Entre fugas calculadas, pequenos enganos e estratégias de sobrevivência, o protagonista confronta uma conspiração de proporções insondáveis, aprendendo a manipular a informação e a iludir os seus perseguidores.

“África Minha” (1985), de Sydney Pollack

No alvorecer do século XX, Karen Blixen (Meryl Streep), uma dinamarquesa de elevada posição social, desloca-se para o Quénia, onde se instala numa vasta e isolada plantação de café, acompanhada de Bror Blixen-Finecke (Klaus Maria Brandauer), um barão com quem contraiu matrimónio por conveniência. Rapidamente, Karen revela-se uma administradora perspicaz e determinada, enfrentando os caprichos de uma terra exigente e a dureza da vida colonial.

A chegada de Denys Finch Hatton (Robert Redford), um aristocrata inglês aventureiro e sedutor, insufla à sua existência uma tensão apaixonada, confrontando-a com desejos, liberdades e escolhas até então inexploradas. Entre a opulência europeia e a vastidão africana, desenrola-se uma narrativa de amor, ambição e autodescoberta, marcada por decisões irreversíveis e pelo confronto constante entre o coração e o dever.