Dizem por aí que o cinema brasileiro vive uma boa fase. Mas dizem isso agora, como se fosse uma descoberta de última hora; como se essa vitalidade tivesse começado só depois do sucesso apoteótico de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, quando saiu de Veneza cercado de atenção e desembarcou no Oscar com três nomeações (vencendo uma delas), recolocando o cinema de autor brasileiro sob os holofotes. Mesmo que essa “boa fase” não tenha propriamente começado com Salles e nem se resuma a ele, é impossível ignorar a projeção que seu filme deu ao cinema brasileiro nos últimos doze meses e o ano de 2024 parece que foi um catalisador desse fenômeno.
Para ficar em alguns exemplos, teve o magnífico O Último Azul, de Gabriel Mascaro, que apareceu como um cometa em Berlim, conquistando o urso de prata (o equivalente ao segundo lugar) e consolidando a estética tropical-digital do realizador. Em maio, Kléber Mendonça Filho apresentou ao mundo o seu elegantíssimo O Agente Secreto, talvez o seu filme mais complexo e mais internacional. Ganhou em Cannes os prêmios de melhor direção e melhor ator para Wagner Moura e, desde então, tem sido recebido com muito entusiasmo em pré-estreias esgotadas em Portugal. O filme rapidamente passou a ocupar, no imaginário cinéfilo brasileiro, o espaço simbólico deixado por Ainda Estou Aqui, como se o público já buscasse seu próximo candidato à temporada de prêmios, numa espécie de ansiedade cíclica por uma nova consagração.
No entanto, para quem vinha prestando atenção, essa vitalidade que parece ter atingido um ápice nos últimos meses já estava em curso muito antes dos tapetes vermelhos e das campanhas internacionais. E resistiu a duras penas. Em 2019, por exemplo, em meio ao desmonte cultural promovido durante os anos Bolsonaro, houve aquele fenômeno em Berlim: 19 produções brasileiras espalhadas pela programação oficial, entre elas o feroz Mato Seco em Chamas, de Adirley Queirós e Joana Pimenta, que parecia filmado não com uma câmera, mas com um coquetel molotov; ou o maravilhoso Divino Amor, de Gabriel Mascaro, que já flertava com uma distopia tão tropical quanto teológica; uma premonição política disfarçada de fábula sci-fi.
No primeiro semestre de 2025, essa oferta não só persistiu como se multiplicou. Filmes brasileiros surgiram em Cannes, Gramado, Locarno, Tribeca, FIDMarseille e em muitos mercados de work in progress — onde os primeiros cortes, mesmo em estado bruto, já deixavam claro que algo especial estava em gestação. O que une essas obras não é um estilo, uma agenda ou uma estética comum, mas uma recusa sistemática ao lugar-comum: são filmes que desestabilizam o olhar, deslocam o centro, propõem outras narrativas. Às vezes com humor, às vezes com raiva, quase sempre com invenção.
Abaixo, reunimos oito desses títulos que você ainda não viu, porque ainda não estrearam comercialmente nas salas, mas que já andam circulando no radar (ou nos bastidores) dos festivais mais interessantes. Prepare-se para incluí-los nas suas conversas de fim de ano ou na lista de favoritos de 2026. Afinal, se o Brasil ainda é o país do futuro, seu cinema já está com alguns passos à frente.
1. Pipas
Dir. Walter Thompson-Hernández

Antes chamado de O Céu Estava Azul, o longa de estreia do americano Walter Thompson-Hernández foi rebatizado como Pipas após um longo processo de pós-produção e estreou discretamente na última edição de Tribeca, em junho passado. Não se trata exatamente de um híbrido entre ficção e documentário, mas de um filme de ficção filmado com o rigor e a textura de um documentário. A história acompanha um chefe do tráfico em meio a uma crise existencial, e o filme se constrói como um realismo mágico sobre fé, violência policial e a busca por paz e redenção em uma vida marcada pelo crime.
Muito aguardado desde o seu elogiado curta If I Go Will They Miss Me, que estreou em Sundance em 2022, o longa levou quase três anos para ser realizado. Com muitas cenas e diálogos improvisados, Pipas assume uma estética que embaralha as fronteiras entre encenação e realidade, fazendo com que o espectador se questione se está diante de um documentário roteirizado ou de uma ficção espontânea. Esse efeito não vem de truques de linguagem, mas do modo como o filme se ancora em improvisos, corpos reais e situações filmadas com uma crueza quase invisível, que dissolve os contornos tradicionais da representação. Thompson-Hernández dirige com um domínio impressionante, sobretudo diante do desafio de um cineasta americano filmando em português no Brasil.
Ele constrói metáforas visuais belíssimas das favelas cariocas sem jamais cair na armadilha de romantizá-las. Um filme que merece ser descoberto, e que promete revelar Thompson-Hernández como um nome a ser acompanhado de perto.
2. Onde Moram os Irmãos
Dir. Marisa Mendonça

Marisa Mendonça é, sem dúvida, uma das vozes mais interessantes a surgir no cinema independente brasileiro nos últimos anos. Seu longa de estreia, ainda completamente inédito, vem chamando a atenção de programadores de festivais por onde tem passado e deve fazer a sua estreia mundial nos próximos meses. O filme acompanha Lívia (Liliane Rovaris), uma mulher de 40 anos que fica encarregada de gerir o pequeno negócio imobiliário da família e, aos poucos, passa a se envolver de forma cada vez mais intrusiva na vida dos inquilinos. O que poderia ser um drama psicológico se desdobra, no entanto, como uma observação sutilmente cômica sobre relações familiares, luto, solidão e códigos sociais.
É difícil não lembrar da Mabel Longhetti de Uma Mulher Sob Influência, imortalizada por Gena Rowlands, ao ver essa protagonista errática e contraditória, dividida entre as expectativas sociais e uma vontade cada vez mais incontrolável de transgredi-las. Mas a referência aqui é mais um ponto de partida do que uma comparação direta. O filme de Mendonça tem uma pulsação própria, marcada por um naturalismo que flerta com o absurdo do cotidiano, em cenas levemente distorcidas, como se a realidade tivesse sido deslocada por um ou dois graus. Uma comédia dramática atenta à intimidade, aos gestos pequenos e à forma como o ridículo e o comovente às vezes nascem do mesmo lugar.
3. Papagaios
Dir. Douglas Soares

O primeiro longa de ficção de Douglas Soares é um dos sete filmes selecionados para a competição de Gramado deste ano que começa hoje. O título faz referência a uma figura conhecida no jargão dos repórteres de rua: os “papagaios de pirata”, aquelas pessoas que tentam aparecer ao fundo de transmissões ao vivo na TV, em busca de alguma visibilidade. No filme, eles são os protagonistas, e estão dispostos a ir até às últimas consequências para atingir seus objetivos.
Soares mistura comentário social com uma atmosfera surreal, expondo a nossa obsessão contemporânea pela fama através de personagens que lidam com aspirações não realizadas num mundo saturado por imagens. É um filme que transita entre a sensualidade homoerótica de Brian De Palma e o distanciamento afetivo de Peter Strickland (especialmente o de The Duke of Burgundy). Mas Soares não é um imitador. Seu filme tem ritmo, voz e linguagem muito próprias, conduzido com a segurança de quem sabe exatamente o quão perto do abismo pode ir — sem nunca cair no vazio.
“Papagaios” é protagonizado pelo jovem ator Ruan Aguiar e pelo veterano Gero Camilo, e traz uma porção de figuras conhecidas do imaginário cultural brasileiro, como Claudete Troiano e o ícone pop dos anos 80 Léo Jaime, que aqui interpreta uma versão decadente de si mesmo. A estreia mundial em Gramado acontece neste domingo, dia 17.
4. Morte e Vida Madalena
Dir. Guto Parente

O cearense Guto Parente já é um nome conhecido no circuito do cinema independente brasileiro, especialmente depois que seu ótimo Estranho Caminho, que estreou em San Sebastián e passou por Tribeca, levou a maioria de seus filmes ao catálogo da Mubi no Brasil. Seu novo e divertidíssimo longa, Morte e Vida Madalena, é um filme dentro do filme e acompanha uma produtora de cinema grávida que entra em crise quando o pai, roteirista do projeto que ela tenta finalizar, morre repentinamente, e o marido, diretor da obra, desaparece sem deixar rastros. A produção em questão é uma ficção científica de baixo orçamento, que parece ter sido inspirada nos filmes de Ed Wood, que ela tenta concluir sozinha — entre o luto, a confusão e uma crescente sensação de delírio.
Mais do que uma sátira sobre os bastidores da realização cinematográfica, o filme é uma comédia de humor negro sobre os limites da própria linguagem do cinema. Repleto de personagens queer, o longa adota uma abordagem provocativa ao escalar atores trans em papéis cisgênero, num gesto que reforça sua proposta de embaralhar normas e expectativas, sejam elas narrativas, de gênero ou de representação. O resultado é uma homenagem irreverente ao ato de filmar, mas também uma reflexão instigante sobre autoria, identidade e fracasso criativo.
Morte e Vida Madalena estreou na última edição do FIDMarseille, que aconteceu há algumas semanas na França, onde foi recebido em sessões acaloradas pelo público, e acabou por levar o Ciné+ Distribution Support Award, o prêmio de apoio à distribuição, em parceria com o GNCR, rede francesa de cinemas independentes.
5. Salomé
Dir. André Antônio

Uma fantasia queer pop cheia de frescor e estranheza que acompanha Cecília, uma modelo que retorna ao Recife para passar o Natal com a mãe e acaba seduzida por João, um antigo vizinho envolvido numa seita pagã de culto à figura de Salomé, que faz bastante uso de drogas alucinógenas. André Antônio constrói um universo visual exuberante, onde o neon e os tons saturados embalam uma narrativa que mescla desejo, mitologia e obsessão. O sexo explícito, embora natural e desinibido, nunca soa gratuito, é impulsivo e sensual.
Ao transpor o mito bíblico para a vida urbana do Recife e destacar a presença de mulheres trans como Renata Carvalho (Helena, mãe) e Aura do Nascimento (Cecília, filha), o filme realiza uma política radical da afirmação sem se prender a discursos militantes. A escolha de corpos trans na tela, vivendo desejos e pulsões, basta como gesto subversivo. Mais do que revisitar um mito, André Antônio o ressignifica: a sua Salomé reflete inquietações, erotismo e liberdade no pulso jovem e queer do cinema brasileiro contemporâneo.
O filme acumulou diversos prêmios no Festival de Brasília de 2024, incluindo Melhor Filme (júri oficial e popular), Roteiro, Direção de Arte, Trilha Sonora, Atriz Coadjuvante e o prêmio Abraccine, dado pela associação de críticos do Brasil. Sua estreia comercial está marcada para novembro nos cinemas brasileiros.
6. Doutor Monstro
Dir. Marcos Jorge

Inspirado livremente em um crime real que chocou o Brasil em 2003, o filme recria a história de um médico que assassinou e esquartejou uma de suas pacientes, com quem alegava manter um relacionamento amoroso. Condenado, cumpriu apenas dois anos de prisão antes de ser solto. Anos depois, ao saber que voltaria para a cadeia, cometeu suicídio e foi encontrado vestido com roupas femininas e com implantes nos seios e glúteos. O filme abre com imagens de arquivo do verdadeiro médico sendo abordado por um repórter de TV, declarando estar “lutando para reconstruir a vida”.
Dividido em três atos, o filme adota a estrutura de uma ópera como metáfora para a tragédia, já que o médico era um fã declarado do gênero. A narrativa alterna entre o drama de tribunal e flashbacks que remontam aos eventos que levaram ao crime. Por trás da trama macabra, o filme aponta para os altos índices de feminicídio no Brasil — em 2024, foram mais de mil casos registrados pela polícia.
Depois do sucesso de Estômago 1 e 2, Marcos Jorge retorna com um filme pop que, embora excessivamente contaminado por uma estética novelesca, converte o sensacionalismo do true crime em motor narrativo, sem nunca perder o fôlego nem diluir sua contundência. A presença de Taís Araújo como a advogada determinada a condenar o médico reforça o vínculo com o universo televisivo, mas esse diálogo com a TV parece parte da própria lógica do projeto: um filme que se apropria da linguagem popular para seduzir seu público, mesmo que isso signifique flertar com o excesso. Algumas cenas explícitas de mutilação talvez precisem de uma alerta de gatilho, mas Doutor Monstro se sustenta como uma experiência inquietante. Ao revisitar este caso extremo que escandalizou o país 20 anos atrás, o filme não se limita ao choque mas também revela como a misoginia no Brasil permanece entranhada nas instituições e no imaginário coletivo, permitindo que a violência contra mulheres continue a ser tratada com este nível de indiferença.
7. Cinco Tipos de Medo
Dir. Bruno Bini

Este é o segundo filme da lista que está entre os sete longas em competição no Festival de Gramado, que começa esta semana. Por coincidência, é também o segundo a trazer uma protagonista da nova adaptação da novela Vale-Tudo — Bella Campos — só que desta vez num filme talvez bem menos influenciado pelo universo folhetinesco dessas atrizes.
Cinco Tipos de Medo é um thriller eletrizante que segue a mesma tradição de filmes como Crash, de Paul Haggis, ou Babel, de Alejandro González Iñárritu, entrelaçando várias histórias para expor falhas sistêmicas como corrupção, o universo das milícias e o colapso institucional.
O filme é um quebra-cabeça narrativo que mistura diferentes histórias, cada uma vista por um ponto de vista distinto até que, num determinado momento, todas se colidem. Há um jovem músico apaixonado por uma enfermeira, uma mulher presa num relacionamento tóxico com um traficante, uma policial que lamenta a perda do filho para as milícias e um advogado que luta para libertar um chefe da máfia acusado de assassinato. No centro emocional desse puzzle está um romance proibido à Romeu e Julieta, ambientado em um cenário hostil onde o afeto oscila entre ser um refúgio e uma ameaça constante.
Com seu mosaico de perspectivas, o filme de Bini monta um suspense que se expande do íntimo ao coletivo, revelando como cada escolha pessoal é moldada, e muitas vezes distorcida, por um ambiente urbano marcado por desigualdade e violência. A narrativa, com ressonâncias de uma tragédia grega contemporânea, transforma paixões e rivalidades em engrenagens de um sistema onde ambição e violência se entrelaçam até se tornarem indistintos.
8. Ato Noturno
Dir. Márcio Reolon, Filipe Matzembacher

A dupla brasileira que conquistou o Teddy Award de melhor filme queer em Berlim, em 2018, por Tinta Bruta, está de volta com um thriller erótico que se equilibra entre uma tensão hitchcockiana e o retrato político do Brasil contemporâneo.
O filme acompanha Matias (Gabriel Faryas), um ator em ascensão em Porto Alegre que se envolve com Rafael (Cirillo Luna), um político gay ainda no armário tentando uma vaga à prefeitura da cidade. O romance secreto rapidamente se transforma em uma relação carregada de tensão e risco, marcada por encontros sexuais em espaços públicos, onde o prazer se mistura ao desejo de exposição e a excitação nasce menos do ato em si do que da constante possibilidade de serem flagrados. Há aqui uma constante negociação entre exposição e silêncio, prazer e perigo — como se a própria cidade fosse cúmplice e ameaça ao mesmo tempo.
A figura do político conservador homossexual irá inevitavelmente gerar comparações com o atual governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, mas a semelhança, garante os diretores, é mera coincidência e não deve ser interpretada como um comentário direto.
Apresentado na última Berlinale em fevereiro, Ato Noturno constrói um espaço onde o público e o privado se contaminam, e onde o corpo se torna palco de disputa entre desejo e autopreservação. Reolon e Matzembacher reafirmam sua habilidade em criar narrativas queer que não se contentam com a mera visibilidade: eles usam o cinema para explorar o que se arrisca e o que se perde quando a intimidade é forçada a viver sob as luzes, ou debaixo das sombras.

