Os 10 melhores filmes de 2013, por Tiago Resende

Penso que não é errado afirmar que 2013 foi um bom ano para o cinema. Muitos filmes estrearam em Portugal, mas nem sempre foi possível ver o que queríamos e quando queríamos. Continua a existir um problema grave no nosso país, que é quem gere as salas de cinema. Vários cinemas, vários mundos, vários olhares e várias histórias foram possíveis de se ver em Portugal. Certamente muitos outros infelizmente não chegaram até às nossas distribuidoras, e mesmo aqueles que acabaram por estrear por cá, nem sempre chegaram à maioria as cidades. É de continuar a lamentar o atual sistema de distribuição, dos filmes não americanos, no nosso país. A centralização do cinema em duas grandes cidades e muitas vezes apenas na capital, para além de não ser justo, só leva as pessoas a verem os filmes em casa.

Outro problema é o preço dos bilhetes, que encarece todos os anos. Não vi alguns filmes como “O Passado”, “O Grande Mestre”, “China – Um Toque de Pecado”, “Blue Jasmine” e “Antes da Meia-Noite”, por exemplo. Muitos outros não vi certamente por falta de oportunidade, ou por questões financeiras ou por mera ignorância. Assim sendo, apresento a lista possível. A lista vale o que vale, é apenas uma lista, e certamente seria um pouco diferente se tivesse visto outros filmes. A lista deste ano não inclui nenhum filme português, o que é pena, mas é de destacar o cinema europeu diversificado e o cinema americano indie. O que estas listas tem de ingrato é que deixam de lado muitos outros bons filmes que mereciam ser destacados. Curiosidades à parte, penso que pelo menos metade dos filmes aqui apresentados abordam, de diversas formas, a questão da família, sendo portanto este o tema dominante neste top 10. Esta é a minha lista dos 10 melhores filmes de 2013, filmes que me tocaram, sensibilizaram e emocionaram de alguma forma (filmes que estrearam nas salas de cinema portuguesas entre janeiro e dezembro de 2013).

"Django Libertado" (2012)_1

1º – Django (Django Unchained) de Quentin Tarantino (EUA)

Estreou cá em Portugal logo em janeiro e portanto foi um dos primeiro filmes que vi. Pois bem, de imediato passou a ser um dos meus filmes favoritos e chegando agora ao final de 2013, afirmo que “Django” é o filme do ano. Sendo eu grande fã de westerns, este tinha claramente que ser um dos meus filme preferidos. Tarantino apresenta com “Django” talvez o seu melhor filme de sempre. Tendo o realizador inúmeras influências dos westerns spaghettis, ele presta ao género a devida homenagem. Quase toda a sua obra tem características do género western e este filme é o resultado final, um sonho que ele acalentava à muito. Se calhar não o fez mais cedo porque quis ganhar confiança para o fazer. Se calhar quis ganhar experiência para enfrentar um desafio desta magnitude, pois sabe que fazer um western não é assim tão fácil como parece. Certo é que este é o seu cinema! “Django Libertado” é o cinema de Tarantino! O realizador acaba por reinventar o próprio género, incorporando, entre muitas outras coisas, aquilo que normalmente os westerns não tem em abundância, os diálogos! Sangue, morte e uma divertida e inteligente sátira ao racismo, são os ingredientes necessários para transformar este filme num dos mais apetitosos do ano, que presta a devida homenagem, com muito estilo, aos grandes mestreMorricone, Leone, Corbucci e a Peckinpah. O ator Christoph Waltz conseguiu assim conquistar mais uma estatueta dourada, na categoria de Melhor Ator Secundário. Talvez num próximo filme do Tarantino lhe dêem a de Melhor Ator. Banda sonora, realização e argumento são magistrais. É por tudo isto que, na minha opinião, “Django” merece o lugar de ouro dos melhores filmes de 2013. Um filme único, que só Tarantino o poderia fazer, pelo menos com tanta orgia de balas, só ele mesmo.

"Arrugas" (2011)_1

2º – Arrugas (Arrugas) de Ignacio Ferreras (Espanha)

A velhice é um tema bastante bulido no cinema, mas pouco provável no cinema de animação. Ignacio Ferreras conseguiu com “Arrugas” explorar de um modo bastante sério e realista, uma temática pesada e delicada, a velhice. Através de dois velhos, que ficaram entretanto amigos, num lar de idosos em Espanha, o realizador conseguiu com realismo e ternura criar uma obra que chegue mais aos adultos, do que às crianças. Ou não fosse o realizador dedicar no final este filme a todos os velhos de hoje e aos de amanhã (que somos nós). Se a adolescência é uma fase complicada na vida de qualquer pessoa, a velhice não é menos difícil. Pelo contrário, pode ser e pior fase, pois a solidão e o abandono podem dominar-nos. É o difícil processo de envelhecermos, em que aos poucos vemos os amigos a morrerem, ficando nós sozinhos e as doenças surgem. Penso que quem vê esta obra não pode ficar indiferente. Se há coisa mais importante na vida são os amigos e por isso este filme me tocou bastante, pois de certa forma ninguém os quer perder. Não queremos ficar sós. Um dos melhores filmes de animação do ano que deveria ser visto por todos.

Destaque da Semana: “Tal Pai, Tal Filho”

3º – Tal Pai, Tal Filho (Soshite chichi ni naru) de Hirokazu Koreeda (Japão)

Um dos filmes por que mais aguardava ver este ano e felizmente acabou por corresponder às minhas expectativas. Entrou de imediato para o meu top 3 do ano. Um filme de Koreeda tem obrigatoriamente que constar numa lista minha de melhores filmes do ano, até porque em 2012 o seu filme “O Meu Maior Desejo” constou em 8º lugar na lista desse ano. Este ano “Tal Pai, Tal Filho” teve direito a ficar com o lugar de bronze por ser um dos mais ternurentos e sensíveis filmes do ano sobre um tema complexo, a família. O tema que Koreeda explora em todos os seus filmes origina sempre histórias diferentes e interessantes. O cineasta torna a pegar num tema complexo e faz uma reflexão pessoal sobre a paternidade através de uma família japonesa contemporânea de uma forma natural e poética, sempre com uma realização quase documental. Aqui, o enfoque reside na figura paterna, que se vê numa situação delicada, ao saber que o seu filho afinal não é filho dele de sangue. O realizador japonês questiona se é mais importante a educação e o amor ou o sangue, o biológico. Um filme obrigatório!

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4º – A Caça (The Hunt) de Thomas Vinterberg (Dinamarca)

“A Caça” é um filme forte, duro, capaz de nos agarrar ao primeiro minuto. O realizador dinamarquês apresenta-nos uma história que é cada vez mais vivida pela sociedade em vários países do mundo. Uma história tão real que nos deixa desconfortáveis ao aceitarmos como uma pequena mentira pode suscitar uma tragédia tão grande. A história de Lucas, um homem que vê a sua vida girar 360º por causa de uma mentira impiedosa que se espalha por toda a comunidade. Nesta pequena vila todos desconfiam, todos julgam Lucas e por isso o perseguem. O realizador consegue magistralmente passar o sofrimento do personagem para a pele do espectador. O que é assustador. Faz-nos pensar na força de um pequeno boato. Coloca-se a questão, em quem devemos acreditar, na palavra de uma criança ou de um adulto? Tudo isto acaba por se transformar numa caça às bruxas, que neste caso é caça ao Lucas. Destaque ainda para o ator Mads Mikkelsen, que consegue uma interpretação magnifica, neste que foi um dos melhores anos para o ator dinamarquês. Tornou-se num dos melhores filmes europeus do ano!

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5º – Mud (Mud) de Jeff Nichols (EUA)

A meio da lista tinha que constar este belo e simples conto americano sobre uma criança que procura um amor que funcione. Dentro do espirito dos livros de Mark Twain e do filme “Conta Comigo” (1986), o realizador Jeff Nichols trouxe-nos uma história do Mississipi, sobre a inocência e sobre o amor, visto através do olhar de Ellis, uma criança corajosa e romântica, que quer acreditar em algo que vê a desaparecer de dia para dia no mundo dos adultos – o amor. Tornou-se impreterivelmente num dos mais belos contos que o cinema americano produziu, e num dos meus filmes favoritos. Com um ritmo calmo e uma rigorosa realização, esta produção indie americana é uma das melhores surpresas do ano. Um filme que nos fala da amizade, da inocência, da adolescência e do amor.

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6º – Frances Ha (Frances Ha) de Noah Baumbach (EUA)

Outra surpresa do ano foi esta história vinda de Nova Iorque, “Frances Ha”. Este é o melhor trabalho de Noah Baumbach. Uma comédia com um preto e branco divinal, que faz um retrato verdadeiro e divertido da nova geração de jovens do século XXI. A história de Frances, uma bailarina em crise, que acabou com o namorado e vê a sua melhor amiga mudar de casa, conta com duas referências do cinema, bem perceptíveis. O cinema de Woody Allen, em particular o filme “Manhattan” (1979), e a referência à Nouvelle Vague francesa, em particular aos filmes “O Acossado” (1960) e “Bando à Parte” (1964), ambos de Godard. Está tudo tão presente nos enquadramentos, nos diálogos, na montagem, na fotografia e no som. Revelou-se uma agradável comédia, cheia de energia, sobre os dias de hoje, que merece ser vista.

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7º – Bárbara (Barbara) de Christian Petzold (Alemanha)

Depois do razoável “Yella” (2007), o realizador alemão Christian Petzold evoluiu consideravelmente com “Bárbara”, tendo alias vencido prémio de melhor realizador no Festival de Berlim de 2012. Christian mostra-nos o ambiente frio e desumano da Alemanha dos anos 80. Passado na República Democrática Alemã esta é a história de Barbara, uma médica de Berlim que é enviada para uma aldeia perto da costa do Mar do Norte, depois de lhe ter sido negada a autorização para emigrar. Este filme não é tão violento quanto “As Vidas dos Outros” (2006), de Florian Henckel von Donnersmarck, pelo contrário é mais discreto e subtil em evocar o regime e a propaganda, que dividiu um país por quarenta anos e que transformou as pessoas de seres vivos a seres sobreviventes. Não evoca moralismos e é um filme pensativo, pelo que com mais visionamentos o poderemos conhecer melhor. No final, a negro, resta-nos apenas esperança.

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8º – Bestas do Sul Selvagem (Beasts of the Southern Wild) de Benh Zeitlin (EUA)

“Bestas do Sul Selvagem”, uma fábula indie, é a primeira longa-metragem do jovem realizador americano Benh Zeitlin que conseguiu atrair alguma atenção nos Óscares 2013. A história da rapariga Hushpuppy, que procurava desesperadamente pela mãe, que não existe. Ela precisa de alguém que cuide dela constantemente, já que aparentemente o seu pai a negligencia. A ausência desta figura materna para Hushpuppy, faz com que ela tenha de aprender aceitar a morte, algo que faz parte da vida, do universo, pois todos temos que morrer um dia. Tudo tem que se desfazer para voltar a nascer. O filme pode parecer melodramático e triste por pensarmos que aquelas personagens não tem futuro, mas na verdade, penso que nos dá uma motivação positiva sobre a vida. Com uma boa história, banda sonora e excelente interpretação da jovem protagonista, este é um filme que não pode ficar sem ser visto. Uma boa experiência cinematográfica é garantida.

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9º – Dentro de Casa (Dans la maison) de François Ozon (França)

Com este filme, sentimo-nos uns invasores. François Ozon deixa-nos espreita pelo buraco da fechadura de uma típica família burguesa francesa (a família dos Raphas). “Dentro de Casa” apresenta-se como um conjunto de realidades sobrepostas, em que o cineasta faz um retrato fiel da vida das pessoas, com sarcasmo, voyeurismo e manipulação à mistura. Esta é uma história sobre Claude, um jovem que brinca e observa os outros, tendo desejos sexuais com a mãe do seu amigo Rapha. Aquilo que prende atenção do espectador é o mecanismo encontrado pelo jovem protagonista para conseguir entrar dentro de casa, e assim, conviver com as outras personagens, criando instabilidade entre elas. Este é um daqueles filmes que conta uma história por cima de outra história e a determinada altura não sabemos em qual acreditar. Um dos mais interessantes, arrojados e modernos thrillers, que leva o espectador a participar e a reflectir num exercício narrativo bastante hitchcockiano.

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10º – A Gaiola Dourada (La cage dorée) de Ruben Alves (França)

Encerro este meu top 10 de 2013, precisamente com um dos filmes mais falados do ano na Europa, “A Gaiola Dourada”. Uma comédia francesa sobre uma família de emigrantes portugueses em Paris. Conseguiu ser uma das melhores surpresas do ano, pois Ruben Alves conseguiu pegar nos estereótipos e clichês deste tipo de histórias e transforma-la numa leve e divertida comédia, que supera muitos dos filmes ditos comerciais em todos os níveis. Marca pontos pela sinceridade com que se apresenta, num tom realista e assumidamente descontraído, como homenagem a todos os emigrantes portugueses espalhados no mundo, mas em especial aos pais do realizador. Elenco e banda sonora são outros dois pontos que favorecem este filme. Assim, escolho este filme para fechar esta lista pois já que não consta nenhum filme português, este ao menos é o filme mais português de todos os aqui presentes. Uma “comédia à portuguesa” com certeza como não se via há muito.