Agnès Varda, realizadora franco-belga pertencente ao movimento cinematográfico da Nouvelle Vague, esteve nos passados Óscares por duas razões: recolher a estatueta honorífica que destaca uma vida de trabalho marcada pela experimentação e pela visão única sobre a realidade, e estar nomeada, junto de JR, ao prémio de melhor documentário por “Olhares Lugares”. Finalmente só recebeu a primeira distinção.

Num momento em que a indústria cinematográfica está a levantar a voz pela igualdade das mulheres, poucas são as vozes e as imagens que atingem este objetivo de evidenciar o problema e apontar o seu verdadeiro significado. Um episódio do documentário “Olhares Lugares” de Agnès Varda e JR basta para revelar este significado de forma contundente. Desde o respeito às intenções e os efeitos de algumas iniciativas das mulheres da indústria cinematográfica americana, como vestir de preto na entrega dos Globos de Ouro, não podemos eludir a comparação e assinalar que, se nessa ocasião muitas foram as que vestiram essa cor, poucas foram as que conseguiram transmitir uma mensagem de reivindicação significativa.

Que “o meio é a mensagem” já foi dito por McLuhan no século passado e tal vez por isso Agnès Varda, que vai fazer 90 anos em maio e tem uma carreira cinematográfica plena de significado, sabe que o único meio de produzir sentido é transformar o olhar e não só a imagem para a qual olhamos.

Neste fotograma de Olhares Lugares vemos três mulheres de preto assistindo à reprodução totémica de si próprias. Aquelas que foram apresentadas como esposas anónimas de três estivadores da doca transformam-se em Mulheres Visíveis na sua simplicidade e grandeza perante elas próprias, perante os estivadores da doca e finalmente perante o espectador. Varda, em quatro cenas, consegue realizar esta transformação, percorrer o caminho que separa uma esposa trabalhadora de classe baixa numa mulher que simboliza o empoderamento do género feminino. O efeito é catártico e funciona como revelação.

Mais do que um road movie de dois inverosímeis companheiros de viagem, este documentário é uma celebração da imagem como espelho que (re)constrói a identidade, identidade esta que está prestes a desaparecer esmagada pela caótica e inesgotável reprodução de imagens que, longe de testemunhar vivências, acaba por invisibilizá-las.