“Os Tenenbaums”: requiem para uma harmonia perdida

No fundo, “Os Tenenbaums” é uma tragédia disfarçada de comédia, marcada por ironia, absurdo e, sobretudo, dor.
Os Tenenbaums Os Tenenbaums
"Os Tenenbaums" (2001), de Wes Anderson

Há famílias que se desfazem aos poucos, como casas que envelhecem, com as suas rachaduras ocultas sob camadas de tinta fresca. “Os Tenenbaums” é sobre uma dessas famílias.

Wes Anderson, com a sua estética única, entrega-nos um retrato melancólico, absurdamente cómico e, por vezes, cruel, sobre o fracasso das estruturas familiares. Mas não qualquer fracasso: aquele que parece inevitável, como se estivesse inscrito no destino desde o início — ou, dir-se-ia com Albert Camus, como se fôssemos todos estrangeiros no seio da própria casa, da própria carne, da própria história.

Royal Tenenbaum, interpretado com mestria cínica por Gene Hackman, é o patriarca que falhou redondamente. Advogado de meia-tigela, mentiroso compulsivo, pai ausente e marido infiel, regressa à casa da família após anos de afastamento, alegando (falsamente) estar às portas da morte. O pretexto é torpe, mas eficaz: quer reconquistar o espaço perdido, como quem volta ao castelo depois de o ter deixado entregue ao abandono. O problema é que os danos já foram feitos — e os escombros afectivos permanecem, espalhados por cada canto daquela casa onde o tempo parece ter parado.

A casa, aliás, é uma personagem por si só. Um casarão em Nova Iorque, com escadarias infindas, paredes cobertas de retratos dos filhos e corredores que mais parecem túneis de memória. É um lar que carrega o peso das glórias passadas — porque todos os Tenenbaums, em algum momento da infância, foram prodígios. Chas era um génio financeiro, Margot uma dramaturga precoce, Richie um tenista invencível. Mas os prodígios envelheceram e hoje são adultos frustrados, emocionalmente quebrados, presos ao mito das suas infâncias brilhantes.

E aqui entra Albert Camus. A família Tenenbaum vive o que o filósofo argelino chamou de absurdo: a contradição entre o desejo humano de sentido e o silêncio intransigente do mundo. Todos anseiam por reconexão, por redenção, por um regresso impossível a uma ordem que talvez nunca tenha existido. Mas o que encontram é o vazio, o ruído dos gestos vazios, o eco de afectos mal resolvidos.

Chas (Ben Stiller), sempre vestido de fato de treino vermelho, vive em constante estado de alerta. Após perder a esposa num acidente de avião, torna-se obcecado com a segurança dos filhos, que leva para todo o lado como quem transporta bens preciosos que teme ver destruídos. A sua dor é prática, metódica, quase militar. Tal como o homem camusiano que, diante do absurdo, escolhe a revolta silenciosa: não contra o mundo, mas contra a sua própria desistência.

Margot (Gwyneth Paltrow), por sua vez, é o enigma central da narrativa. Fumadora inveterada, quase sempre em silêncio, move-se como se carregasse segredos que nunca poderão ser ditos. Adoptada desde pequena, sempre se sentiu uma intrusa na família. O seu casamento sem paixão, as suas escapadelas sexuais e o seu ar distante revelam uma mulher que nunca se encontrou. Ela é a estrangeira, na acepção camusiana: vive entre os outros mas não lhes pertence, habita o palco mas não reconhece o papel.

Richie (Luke Wilson), o mais romântico dos irmãos, afasta-se de tudo após uma crise nervosa pública durante um torneio. A sua paixão incestuosa por Margot, sua irmã adoptiva, corrói-o lentamente. Vive isolado, de óculos escuros e bandana na cabeça, como se procurasse filtrar o mundo. O seu momento mais doloroso — uma tentativa de suicídio ao som de “Needle In The Hay” do Elliott Smith — é talvez a cena mais crua de todo o filme. É ali que percebemos que, por detrás da encenação visual, há uma ferida aberta. O gesto de Richie ecoa O Mito de Sísifo”, onde Camus escreve que “o único problema filosófico verdadeiramente sério é o suicídio”: se a vida não tem sentido, por que não desistir? A resposta, para Camus, é clara: porque a lucidez é uma forma de liberdade. E Richie, no fundo, decide continuar.

Há ainda Etheline (Anjelica Huston), a matriarca que tenta manter alguma dignidade no meio do caos. Antropóloga respeitada, mãe rigorosa, mulher elegante, ela representa o equilíbrio que todos parecem ignorar. O seu novo pretendente, Henry (Danny Glover), é a antítese de Royal: sereno, respeitador, gentil. Mas mesmo ele parece deslocado naquele universo disfuncional — como um forasteiro que tenta ler um idioma extinto.

Wes constrói este mundo com uma obsessão estética que contrasta com o desequilíbrio emocional dos personagens. Cada plano é cuidadosamente composto, como se a simetria pudesse compensar a desordem interior. Há algo de quase teatral em tudo: os cenários, os figurinos, a narração omnisciente de Alec Baldwin. Mas essa teatralidade não é gratuita; expõe o absurdo da tentativa de manter uma fachada quando, por dentro, tudo está em colapso.

No fundo, “Os Tenenbaums” é uma tragédia contada como comédia. Há ironia, há sátira, há absurdo. Mas há, sobretudo, dor. Uma dor que não se resolve, que não se redime, mas que encontra algum alívio na partilha. A reconciliação entre pai e filhos não é plena, não é heroica. É apenas possível. E isso já é alguma coisa.

Ao fim e ao cabo, talvez a maior beleza do filme esteja na aceitação da imperfeição. “Os Tenenbaums” são falhados, sim. São estranhos, sim. Mas são humanos. E Anderson, com o seu olhar peculiar, oferece-nos um espelho onde podemos ver as nossas próprias fragilidades — embaladas em bandas sonoras nostálgicas, diálogos curtos e olhares perdidos. Porque, afinal, quem nunca desejou regressar a casa e perceber que ainda há tempo para sarar o que ficou por dizer?