Com uma carreira construída entre Portugal e os Estados Unidos, Ana Cristina de Oliveira afirma-se como uma das atrizes portuguesas com maior projeção internacional. Do outro lado do Atlântico, trabalhou com realizadores como Tony Scott, Garry Marshall, Zack Snyder e Michael Mann, e contracenou com atores como Brad Pitt, Colin Farrell e Benicio del Toro.
Em Portugal, o seu trabalho tem sido distinguido com vários prémios, nomeadamente pela Academia Portuguesa de Cinema e pela Fundação GDA, através de interpretações que dão voz e corpo a personagens marcadas pela marginalidade, pela ambiguidade moral e por fortes arcos emocionais.
Nesta conversa, Ana Cristina de Oliveira revisita a infância passada nas salas de cinema, reflete sobre as diferenças entre os mercados português e norte-americano, e o papel do cinema enquanto espaço de imaginação.

Entrevista a Ana Cristina de Oliveira:
Cinema Sétima Arte: A tua carreira em frente às câmaras começou enquanto modelo e, mais tarde, construíste um percurso sólido, com várias distinções importantes, enquanto atriz. A vontade de fazer cinema sempre existiu?
Ana Cristina de Oliveira: A vontade de fazer cinema foi sempre uma coisa quase inexplicável, algo que, desde miúda, pensei que nunca iria atingir.
A minha mãe trabalhava no Cinema Nimas, foi lá que passei a minha infância. Os meus tempos livres eram naquele cinema, a levar amigos da escola a consumir cinema. E, como estava rodeada de pessoas que trabalhavam em diferentes salas, se houvesse um filme que eu quisesse ver noutro cinema que não fosse o Nimas, a minha mãe falava com os colegas de profissão: “Olhe, vai aí a minha filha”. Havia sempre essa troca e não se pagavam bilhetes. Pode parecer parolo, mas já não tenho idade para ficar embaraçada: é um bocado como a história do “Cinema Paradiso”, do miúdo que passa a infância a ver filmes e depois, sem querer, se torna realizador.
A minha fascinação pelo cinema, principalmente pelo cinema americano, começou muito cedo. Mas nunca pensei que viesse a fazer uma carreira no cinema, especialmente em Los Angeles, em Hollywood.
Cinema Sétima Arte: Como se deu esta transição de modelo para atriz?
Ana Cristina de Oliveira: Eu já era modelo em Portugal, nos anos noventa; uma agência do Japão veio a Portugal fazer um casting e fui escolhida. Surgiu então a oportunidade de ir para Tóquio, e foi assim que tudo começou. A minha agente em Tóquio era inglesa e tive a oportunidade de ir com ela a Los Angeles. A primeira vez que aterrei nos Estados Unidos foi em L.A., senti-me logo em casa. Pensei: é aqui que eu quero estar.
Ainda fui fazer Nova Iorque e Paris, mas acabei por me sabotar para não continuar na vida de modelo, a fazer trinta castings em Nova Iorque, trinta castings em Paris, onde via o sol, literalmente, durante cinco minutos por dia.
Então foi mesmo assim: “não, não, não, o que eu quero mesmo é voltar para Los Angeles!”. Quando me estabeleci em L.A., continuei a fazer alguns trabalhos como modelo, enquanto estudava acting. Foi nessa altura que entrei na Stella Adler Academy.
Cinema Sétima Arte: E como foi esse período de aprendizagem na Stella Adler Academy e começar ali, naquele mercado altamente competitivo?
Ana Cristina de Oliveira: Eu acho que, quando somos jovens, nem pensamos muito, arriscamos, vamos de cabeça. Achamos que vamos viver para sempre, que vamos mudar o mundo e que tudo e mais alguma coisa é possível.
Depois, estamos a falar de um período muito específico, o início dos anos noventa. Hoje, trabalhar como ator é completamente incomparável. Na altura, não havia redes sociais, o contacto humano prevalecia. Dava-se mais valor ao método, à escola de onde vínhamos, e não ao número de seguidores ou de “gostos” nas redes sociais.
Entrei na Stella Adler Academy em 1994. Era um curso de dois anos e, naquela altura, quando se conhecia alguém da indústria, perguntava-se sempre qual era a escola, qual era o método. Isso tinha um peso muito grande, era muito mais valorizado.
Cinema Sétima Arte: O processo de casting mudou muito? Comparando os anos noventa com a atualidade?
Ana Cristina de Oliveira: Lá nos Estados Unidos, as agências eram muito segmentadas: havia agências só para anúncios publicitários; agências só de prints, ou seja, fotografia; e depois havia agências só para cinema. Tudo isto funcionava em blocos muito definidos, o que criava um ritmo de castings extremamente intenso, eram constantes, sempre a andar de um lado para o outro.
A pandemia acabou por criar uma coisa que hoje é vista como “bonita”, mas que, na prática, eliminou o contacto entre pessoas. Nós, atores, temos de montar um estúdio em casa, ser bons na luz, no som, na edição… sabe-se lá no que mais.
Perder o contacto pessoal com pessoas da indústria, perder o ato físico de ir a um casting, afeta muito a própria evolução do ator. Ir a castings significa melhorar o próprio ofício, é seguir a ideia de que a prática leva à perfeição. E atenção, não estou a falar apenas de saber bem o texto. Muitas vezes eu sabia as deixas todas na ponta da língua e achava que o casting tinha corrido maravilhosamente, e nem sequer tinha um callback. Outras vezes, quando saía a achar que tinha feito o pior casting do mundo, tinha um callback ou acabava mesmo por ficar com o papel.
Acho que se perdeu essa magia com os self tapes, até porque, muitas vezes, basta uma pequena coisa que não tem nada a ver com o acting para conseguirmos o papel. Pode haver ali uma compatibilidade qualquer, uma conexão com as pessoas, uma conversa que desperte o interesse do realizador ou do diretor de casting. Agora é tudo a seco, fazemos o self tape, e perde-se esse contacto humano.
Cinema Sétima Arte: Há algum casting que te tenha marcado? Que seja exemplo do quão importante é esse contacto humano?
Ana Cristina de Oliveira: Sim! Há vários, mas posso partilhar um exemplo com o Michael Mann. Fiz o primeiro casting, depois fui chamada para um callback e ele estava lá. Eu, normalmente, não tenho o hábito de escovar o cabelo. Durante o callback, o operador de câmara, à frente de toda a gente, perguntou-me se eu não tinha uma escova para escovar o cabelo. E eu respondi logo que tinha uma escova, mas que estava em casa. O Michael Mann adorou. Adorou mesmo. E quando fiz o trabalho, o meu cabelo nem sequer foi tocado. São estas coisas. Se calhar, responder um bocadinho torto, aquela resposta que sai espontaneamente de nós, também capta a atenção. São essas coisas de que eu, pessoalmente, tenho saudades.
Se calhar, se eu nunca tivesse tido essa experiência, não saberia distinguir. Eu odeio self tapes. Odeio não ir a um casting. Por muito desconfortável que seja chegar lá e estarem trinta raparigas à espera para entrar, ouvir quem se ri lá dentro, quem fica mais tempo, quem fica menos tempo, não deixa de ser uma experiência melhor, mais exigente e que verdadeiramente contribui para a evolução do nosso trabalho enquanto atores.

Cinema Sétima Arte: Ao longo da tua carreira em cinema e televisão nos EUA, trabalhaste com alguns dos nomes mais relevantes de Hollywood. Que diferenças e oportunidades encontras entre os cenários português e norte-americano?
Ana Cristina de Oliveira: Eu acho que se começa logo pelo tamanho das equipas. Em Portugal, as equipas parecem-me muito mais reduzidas do que nos Estados Unidos, onde sempre trabalhei com equipas muito maiores. Isso é visível desde logo.
Mas também reconheço que, em Portugal, o facto de as equipas serem mais pequenas permite um maior espaço criativo e mais intimidade com a equipa. Conhece-se melhor a equipa técnica, o que lá não acontece. Ouvem-se muito mais histórias e anedotas engraçadas aqui, do que nos Estados Unidos, onde, como o campo é muito maior, não existe essa proximidade.
Depois há outra diferença muito significativa, nos Estados Unidos existe um sindicato de atores, algo de que aqui se vai falando de vez em quando, mas que não existe. E o que é que o sindicato faz? Impõe regras, estabelece tabelas salariais e garante condições básicas aos atores, o que é muito importante.
Cinema Sétima Arte: Uma das tuas interpretações com grande densidade foi em “Odete”. O que te atraiu naquela personagem e naquele universo tão singular que é o de João Pedro Rodrigues?
Ana Cristina de Oliveira: A primeira vez que comecei a ler o guião e, a cada página que virava, pensava: “O que é isto?”. Fiquei completamente deslocada. E eu tenho alguma inclinação para coisas que sejam completamente fora.
A personagem tinha um arco completamente acentuado e, para mim, isso foi muito marcante. Marcou-me, porque era tentar compreender algo muito profundo. Para começar, aprendi uma coisa de que não fazia a mínima ideia: existe algo chamado gravidez histérica, uma pessoa que acredita tanto que está grávida que chega a desenvolver barriga. É uma coisa real. E eu não fazia a mínima ideia de que isso existia.
Portanto, para mim, enquanto atriz, foi jogar com uma solidão extrema e um desejo enorme da Odete em ficar grávida. Ela começa como patinadora num hipermercado e acaba numa figura quase transgénero. Na época, nem sequer existia esta linguagem; se calhar, a Odete hoje seria muito mais facilmente enquadrável do que na altura.
O João Pedro Rodrigues caracteriza-se muito por quebrar estes temas, por trazer histórias completamente incompreendidas, completamente fora do seu tempo, e por revolucionar, sobretudo, a abordagem a temas ligados à comunidade queer. É impressionante.
Cinema Sétima Arte: Esta interpretação marcou a crítica internacional e recebeste o Prémio de Interpretação Janine Bazin no Entrevues – Festival International du Film de Belfort. Foi um ponto de viragem na tua carreira?
Ana Cristina de Oliveira: Foi o João Pedro que foi receber o prémio por mim. Eu estava em Los Angeles e foi ele que foi. E eu nunca pensei… nunca pensei mesmo. Porque, claro, é sempre bom ser nomeado ou ganhar qualquer coisa, mas não é isso que tira ou acrescenta valor ao trabalho em si. Mesmo que eu não tivesse recebido, isso não retirava valor nenhum à interpretação. Claro que é um reconhecimento e fiquei feliz, mas não é isso que define tudo.

Cinema Sétima Arte: Em “Carga”, de Bruno Gascon, interpretaste Sveta, uma personagem que te valeu várias distinções. Como foi o processo emocional de dar corpo a alguém tão ferido?
Ana Cristina de Oliveira: Foi intenso. Eu gosto de viver personagens que, como referi, têm um arco de desenvolvimento bem marcado, em que exista um ponto no filme em que, por mais diabólica que a personagem seja, por mais coisas horríveis que faça aos outros ou na sua própria vida, haja qualquer coisa que permita a quem está a ver sentir, pelo menos num momento, alguma compaixão por aquela pessoa.
É tentar perceber que nem tudo na vida é linear. Nem tudo é totalmente mau, nem tudo é totalmente bom. Há sempre ali qualquer coisa. No caso da Sveta, eu pensava muito nisso: ela é assim, mas porquê? Porque passou exatamente pelo mesmo que está a fazer passar às outras personagens e não conseguiu sair daquela vida. Ela própria foi traficada, e aquilo acaba por ser a forma de sobrevivência dela. Ou seja, aquilo que a vitimizou é também o que a molda. É o seu ponto de sobrevivência. O tempo passa, ela já não é “carne fresca” e passa a recrutar outras miúdas que acabam de ser traficadas.
Foi uma personagem intensa, mergulhar num mundo macabro, um mundo que eu não conheço em primeira mão, nem espero que ninguém próximo de mim alguma vez conheça.
Cinema Sétima Arte: Acreditas que o cinema e os papéis que interpretas têm um dever social de consciencialização e de dar corpo a histórias muitas vezes ignoradas?
Ana Cristina de Oliveira: Sem dúvida. O cinema passa muito por dar voz a quem não a tem. E, para um ator, é mergulhar em mundos que não conhecemos, mundos muito densos, que, a nível emocional, têm um peso gigante.
Acredito que o primeiro passo é termos esse conhecimento de uma forma geral, tentar ouvir relatos de terceiros, perceber contextos. Esse nível de pesquisa é fundamental. Existem coisas que têm de ser estudadas, aprendidas, e outras em que temos de tentar, ao mesmo tempo, dar espaço à imaginação para criar as personagens. Porque quem consegue ter uma boa imaginação consegue chegar lá, consegue aproximar-se do horror que muitos seres humanos vivem.
Eu venho da Stella Adler Academy, que tem um método muito assente na imaginação. Para mim, o cinema é, acima de tudo, um exercício de imaginação, tanto para um ator como para um realizador e até mesmo para um produtor.
Cinema Sétima Arte: As tuas colaborações com o Bruno Gascon, em “Carga” e “Sombra”, valeram-te várias distinções. Com “Sombra” recebeste o Prémio Sophia de Melhor Atriz Secundária. Como foi esse momento de reconhecimento do teu trabalho e da tua carreira?
Ana Cristina de Oliveira: Eu nunca pensei que fosse acontecer; foi, verdadeiramente, uma surpresa. Fui à cerimónia mais pelo Bruno, pela Joana, pela Ana Moreira. Não tinha discurso preparado, nem nada disso. Quando dizem o meu nome, lembro-me de a Ana Moreira me abraçar, do Bruno Gascon a dar-me palmadinhas nas costas, e eu ali no meio a pensar: “mas o que é isto afinal?”. Acho que nem percebi logo; demorei uns bons segundos a cair em mim.
Depois, a Ana Moreira ganhou como Melhor Atriz, pelo mesmo filme, e isso trouxe um sentimento muito grande de vitória coletiva. Estávamos ali com esse espírito; a nossa mesa sentia-se um bocadinho outsider, mas unida.

Cinema Sétima Arte: Para além dos projetos de que já falámos, mais recentemente tens reforçado a tua presença no cinema e na televisão portugueses, em séries e filmes como “O Clube”, “O Pior Homem de Londres” ou “Irreversível”. Como vês a evolução do audiovisual português?
Ana Cristina de Oliveira: Na minha opinião, enquanto atriz, acredito que o audiovisual em Portugal tem evoluído imenso. Acho que estes formatos de série, como aqueles em que a RTP tem apostado, são excelentes. Fica uma história concisa, há sempre um cliffhanger de um episódio para o outro, um grupo pequeno de atores, mas sólido, o que nos permite trabalhar melhor o arco de desenvolvimento das nossas personagens.
O facto de me ter mantido em Portugal nos últimos anos e de ter participado em produções nacionais, interpretando personagens com várias camadas e densidades, permitiu-me crescer enquanto atriz numa nova era do audiovisual português, e isso tem sido bastante positivo. Continuo a achar que existe sempre caminho e espaço para evolução; no entanto, o que ainda não foi feito em nada tem que ver com falta de ambição ou de técnica. Em Portugal existe uma técnica incrível, mas ainda falta receita, falta aceitação do público e faltam meios para se fazer ainda melhor, porque temos capacidade de ser os melhores.
Cinema Sétima Arte: Em 2025, estreaste “Maria Vitória” no Festival de Cinema de Tóquio. O que representa para ti levar um filme português a um festival desta dimensão?
Ana Cristina de Oliveira: Eu adorei fazer o filme, apesar de ter uma parte pequena. Adorei mesmo! Achei a equipa fantástica, sobretudo as pessoas com quem tive mais cenas; adorei trabalhar com o Miguel Nunes. Eu entro no elenco como mãe de uma miúda que faz parte do grupo de jovens onde se desenvolve a história, uma amiga da Maria Vitória.
Acho que o filme foi muito bem recebido em Tóquio. E, quando estreou cá, no Cinema São Jorge, no LEFFEST, a sala estava cheia e as pessoas adoraram. Eu não me lembro de ter estado na estreia de um filme português em que houvesse palmas até acabarem as últimas letrinhas dos créditos.
Agora, lá está, eu quero que o público vá às salas e consuma o nosso cinema, mas, infelizmente, acho que ainda existe, junto do público, uma imagem negativa do cinema português. Ainda persiste muito essa ideia de filmes em que não há diálogo nenhum, em que se filma uma roda durante meia hora. De facto, acho que a maior parte das pessoas ainda tem esse preconceito em relação ao nosso cinema.
Cinema Sétima Arte: Há géneros ou universos cinematográficos que ainda te despertam curiosidade?
Ana Cristina de Oliveira: Se tivesse de escolher agora, escolheria trabalhar mais em cinema de época, épocas já passadas, e não interessa se em séculos passados ou em anos como os oitenta, setenta, sessenta, cinquenta, e por aí fora. Adorava explorar esses terrenos, tendo sempre como ponto de partida um contexto histórico forte, seja ele qual for, mas que tenha verdade.
E isto liga-se um bocadinho ao que estávamos a falar no início da nossa conversa: não tem comparação falar dos anos noventa para agora. Parece tudo “ah, antigamente…”, mas a verdade é que o mundo mudou imenso. Por isso, explorar o cinema de época é algo que eu gostava muito de fazer, algo que me deixaria verdadeiramente feliz.

