“Nuremberg” é uma adaptação do livro de Jack El-Hai, publicado em 2013, intitulado The Nazi and the Psychiatrist. Acontece com este filme o mesmo que tem acontecido na literatura: os inúmeros livros sobre as várias funções e profissões em Auschwitz. À partida, olhamos para estes livros e filmes e parece-nos sempre uma boa ideia mastigar o assunto, falar do assunto, manter a memória acesa para que não nos esqueçamos e não voltemos a repetir os mesmos erros.
No entanto, a banalização normaliza e, a certa altura, a poluição em torno da verdade histórica levanta um pó que nos impede de ver mais fundo, arrasta-nos para uma identificação com histórias demasiado particulares e afasta-nos de uma visão do panorama geral. Basta termos estado minimamente acordados nos últimos anos para percebermos que estamos a falhar redondamente. Tenho uma sincera curiosidade em saber como irão reagir os espectadores dos Estados Unidos da América, porque provavelmente não irão perceber a ironia da hipocrisia.
Soma-se a isso o fenómeno da banalização e da hollywoodificação das matérias históricas. Russell Crowe como Hermann Göring é um gladiador: há uma humanização em demasia da personagem, um puxar para o sentimentalismo que não tem lugar num filme que aborda, provavelmente, o momento mais desumano da História. O que foi extremamente bem conseguido em “A Zona de Interesse” é completamente arruinado neste filme.
Num filme que é essencialmente um court movie, com a excepção das cenas nas celas, há um excesso de personagens a debitar figuras e factos históricos como se fossem alunos que estudaram ontem para o exame de hoje. Um caminho demasiado longo para chegar ao cerne do filme, o conflito central, o julgamento: dois actores vencedores de Óscares em confronto, esquecendo que as suas personagens históricas, à época, não teriam agido com uma atitude mediática, mesmo estando a imprensa presente na sala.
O filme não consegue fazer com que o elenco se encaixe como um todo, nem que o público se conecte emocionalmente com a história ou com as personagens. Constrói-se uma certa humanidade na figura de Göring, especialmente através da sua família. A esposa e a filha do líder nazi servem tanto para Kelley (Rami Malek) ganhar a confiança de Göring quanto para o realizador James Vanderbilt jogar com as expectativas do espectador.
No entanto, no final, os vencedores ganham e os perdedores perdem; todos revelam a sua verdadeira face e enfrentam as consequências. “Nuremberg” é um filme imperfeito e não é o grande thriller judicial que se esperaria, mas ainda assim espero que traga algum convite à reflexão sobre um tema que volta a tornar-se muito actual. “Há homens maus em toda a parte e nem sempre usam uniforme”, diz a personagem de Malek no final, quando lhe perguntam se atrocidades como o Holocausto se poderão repetir.

