“História Interminável”: o imaginário que desafia a finitude

“História Interminável” ensina-nos que, no centro de cada existência, jaz uma história que nunca termina, esperando ser desvendada, mesmo perante a mais impenetrável escuridão
História Interminável História Interminável
"História Interminável" (1984), de Wolfgang Petersen

Existem dias em que a vida parece um daqueles filmes em que se entra por engano e não se consegue sair. Bastian era exactamente esse tipo de menino: solitário, com um cabelo impossível que desafiava qualquer pente e uma tristeza tão pesada que nem os desenhos animados mais coloridos conseguiam aliviar. A morte da mãe deixara nele uma marca visível nos olhos, no andar hesitante e até na forma como se encolhia quando alguém lhe falava. O pai, por sua vez, era frio, distante e pragmático, uma espécie de manual ambulante de como não lidar com sentimentos. Dizia para seguir em frente como se as palavras tivessem algum poder mágico de curar corações partidos, e Bastian sabia que seguir em frente não era assim tão simples.

Numa tarde que parecia igual a tantas outras, fugiu de mais uma sessão de bullying na escola com as mãos nos bolsos e os sapatos a arrastar pó pelo chão. Entrou numa livraria antiga daquelas em que o cheiro a papel velho e a madeira molhada faz sentir que se entrou num templo secreto. O senhor Coreander, dono da loja, tinha um ar de quem já vira o mundo a arder mas ainda assim se surpreendia com cada cliente que atravessava a porta. Mostrou-lhe um livro com capa azul e dourada, letras que brilhavam com uma luz que só um menino solitário poderia perceber. Chamava-se “História Interminável”.

Bastian pegou no livro como quem encontra uma porta secreta para outro universo e logo que começou a ler a sua vida deixou de ser apenas choro e monótono cinzento. Fantasia existia para lá das páginas, um lugar de criaturas estranhas, princesas delicadas, dragões, corcéis alados e monstros que tinham ar de não gostar muito de segredos. E mais importante existia Atreyu, herói de cabelos rebeldes e coragem suficiente para fazer inveja a qualquer adulto, que partia numa missão impossível para salvar a jovem Imperatriz.

O que Bastian ainda não sabia era que o livro não era apenas para ler. Era um daqueles livros que desafiam a realidade, à medida que lia começava a perceber que também podia entrar na história. A linha entre o que era real e o que era fantasia começou a desfocar-se e por um momento Bastian sentiu-se um pouco como os protagonistas das aventuras que ele tanto gostava de ver ao cinema. Naquele instante as dores e os receios da vida real continuavam lá mas havia esperança, pelo menos nas páginas podia ser herói.

É curioso olhar para um filme como este hoje e lembrar-se de 1984, uma época em que a fantasia era pintada com cores fortes, efeitos especiais às vezes um pouco duros mas sempre com um entusiasmo contagiante. Este filme em particular tinha algo de alemão, embora estivesse em inglês, e mostrava um cuidado com o detalhe que poucos filmes familiares daquela década conseguiam atingir. As crianças tinham o cabelo despenteado como se Spielberg tivesse passado por lá a soprar vento nos estúdios e as criaturas que apareciam pareciam saídas de sonhos que alguém tinha tido depois de comer demasiado açúcar.

Há cenas que permanecem na memória como gravadas a fogo, por exemplo a cena do pântano da tristeza. Artax, o amado cavalo de Atreyu, começa a afundar-se e não há palavras que consigam salvar aquele momento. É uma das lições mais duras do filme, até os seres mais fortes podem sentir o peso da desolação. E claro Bastian não podia deixar de perceber o paralelo com a sua própria vida. O pântano parecia mais do que lama e água negra, era metáfora para a tristeza, para o luto, para aquele sentimento de que às vezes se afunda sem ninguém para puxar. O pai dizia para seguir em frente mas ninguém explica verdadeiramente como se faz isso quando o coração parece pesado demais.

Enquanto observava a história a desenrolar-se Bastian começou a perceber que dentro de um livro a dor podia ser entendida e até enfrentada. A viagem de Atreyu, a imperatriz que precisava de cura, os monstros e criaturas de Fantasia, tudo isso servia de espelho. Era o espelho do que se sentia quando se perde alguém importante, quando o mundo parece girar rápido demais e ninguém está a olhar. E no fundo não era apenas um filme de fantasia, era um manual disfarçado de aventura, a ensinar coragem, empatia e a capacidade de imaginar soluções quando tudo parece perdido.

O filme, claro, não é perfeito. Quando a história abandona a realidade e se dedica inteiramente ao mundo fictício o ritmo cai um pouco, mas há tanta riqueza no design, nas cores e nos personagens que se perde a preocupação. E há pequenos detalhes deliciosos, as crianças com os olhos cheios de surpresa, as criaturas que parecem que vão falar de repente, o humor que surge entre momentos de tensão.

E há lições implícitas sobre como lidamos com sentimentos e a importância de não ignorar a dor. Em 1984 a ideia de saúde mental era muito menos discutida, mas este filme tocava no assunto sem dizer uma palavra sequer, enfrentar a tristeza, aceitar o luto, aprender a conviver com a ausência. O livro no filme funciona como terapia, Bastian aprende a entrar no seu próprio mundo, a aceitar a morte da mãe e a descobrir coragem onde pensava não existir. É um lembrete de que por vezes a melhor forma de lidar com o mundo real é imaginar mundos novos onde podemos ser heróis sem precisar de lutar com espadas de verdade.

O relançamento do filme, no ano retrasado, para celebrar os 40 anos, foi um convite à nostalgia, mas também à reflexão. Quem viu Bastian em ecrã gigante, perdido entre lágrimas e sorrisos, percebeu que há algo de universal naquele menino, pois todos nós já fomos solitários, todos já nos sentimos esmagados por acontecimentos que não compreendíamos e todos já precisámos de uma Fantasia para sobreviver.

E claro há o humor escondido entre as páginas e cenas, dragões que parecem um pouco teimosos demais, personagens que olham para a câmara como quem diz vais mesmo acreditar nisto e pequenos exageros que fazem rir mesmo quando se tem um nó na garganta. É a mistura perfeita de aventura, drama e comédia subtil, a mostrar que a fantasia não precisa de ser séria para ser importante.

No fim, o que fica é a sensação de que a vida pode ser dura, mas que existem sempre portas secretas para mundos melhores. Bastian ensina-nos isso, que não é vergonha sentir, chorar ou afundar-se no pântano da tristeza. Que há livros, filmes e histórias que nos ajudam a levantar, que nos mostram coragem escondida e que, por vezes, basta imaginar para encontrar soluções.

Quando saímos do cinema com os olhos molhados e o coração um pouco mais leve só nos apetece sorrir. Se um cavalo pode afundar-se no pântano e depois ser lembrado como herói na memória de um menino, todos nós podemos aprender a levantar-nos, a continuar a caminhar e a acreditar que há sempre uma história sem fim à espera de ser vivida.

“História Interminável” não é meramente uma viagem a Fantasia; é um labirinto das nossas próprias aventuras interiores, um testemunho de que a imaginação é uma força que persiste, mesmo quando tudo parece desvanecer-se na penumbra. Nos interstícios de cada página, entre dragões de escamas cintilantes e corcéis alados, entre heróis e monstros que sussurram segredos, vislumbra-se um fragmento de nós próprios, pequeno mas resistente, à espera de ser reconhecido.

Bastian aprende isso, e nós, inadvertidamente, também. A vida é um pântano e um livro, um território de medos e de surpresas, de heróis inesperados e aventuras que se insinuam entre as frestas da realidade. Os finais felizes existem, embora raramente se revelem com clareza; eles surgem, difusos e delicados, à medida que abrimos o livro e nos deixamos levar. No âmago de cada ser, repousa uma história interminável, pronta a ser explorada, a ser vivida, mesmo quando a escuridão parece intransponível.

O filme estará em exibição amanhã (17), às 15h15, no Batalha Centro de Cinema, no Porto.