“As Férias do Menino Nicolau”: o real em estado de interpretação

Uma simples viagem em família pode expor as pequenas fissuras da vida adulta através do olhar da infância
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“As Férias do Menino Nicolau” (2014), de Laurent Tirard

Nem todas as adaptações se limitam a transpor um material para outro meio; algumas encontram uma forma própria de o fazer respirar. “As Férias do Menino Nicolau” (2014), de Laurent Tirard, é um desses casos. Continuação de “O Menino Nicolau” (2009), o filme prolonga o universo criado por René Goscinny e Jean-Jacques Sempé, preservando o humor delicado e a inteligência com que os quadradinhos, publicados entre 1956 e 1964, observavam a infância.

A linha narrativa assenta numa premissa de aparente simplicidade: Nicolau, aqui interpretado por Mathéo Boisselier, parte com os pais e a avó para umas férias de Verão no litoral francês. Antes da partida, um beijo trocado com a sua “namoradinha” da escola projecta-o de imediato numa fantasia matrimonial, ainda difusa, mas já tomada como inevitável.

Essa construção imaginária adensa-se quando, já instalado na praia, conhece uma rapariga que passa a interpretar como a escolhida pelos adultos para um futuro casamento.

É a partir desse mal-entendido que o filme organiza o seu movimento, encadeando equívocos, suspeitas e pequenas estratégias de resistência, nas quais Nicolau e os novos companheiros se empenham em contornar um destino que, na verdade, só ganha consistência no interior da sua própria imaginação.

Limitar o filme a esse eixo narrativo seria negligenciar aquilo que nele verdadeiramente importa. À semelhança do primeiro, a infância não se afirma apenas como tema, mas como uma instância de interpretação do mundo. Nicolau observa, recolhe fragmentos de conversas, lê gestos dispersos e, a partir desse material lacunar, elabora hipóteses frequentemente desmedidas.

O filme acompanha esse trabalho de decifração, feito de equívocos e pequenas revelações, no qual o quotidiano adquire espessura precisamente por passar pelo crivo de um olhar que ainda não domina os códigos do real.

É nesse intervalo entre o que efectivamente se passa e aquilo que Nicolau projeta que a comédia se afirma com maior acuidade. A relativa estabilidade do quotidiano adulto vê-se subitamente perturbada quando atravessada por essa percepção ainda em formação.

Um diálogo trivial adquire densidade dramática, uma coincidência converte-se em indício, um silêncio ganha o peso de uma ruptura iminente. O riso não emerge tanto da situação em si, mas do modo como ela é reinterpretada e reorganizada por esse olhar deslocado.

Em paralelo, o filme dedica uma atenção particularmente fina à vida doméstica. A relação entre os pais não se ergue sobre grandes confrontos, mas antes sobre uma trama de gestos mínimos que vão dando forma ao quotidiano: pequenas fricções, cedências quase imperceptíveis, entendimentos silenciosos que sustentam o equilíbrio do dia-a-dia. Longe de qualquer excesso dramático, é na precisão desses detalhes que o filme reconhece uma dimensão de verdade.

Kad Merad e Valérie Lemercier são decisivos para a manutenção desse equilíbrio. A forma como incorporam as personagens, sem qualquer excesso ou sublinhado desnecessário, afasta o risco de caricatura e fixa o filme num registo plenamente reconhecível. É precisamente essa solidez que, por contraste, abre espaço para que a imaginação de Nicolau se dilate, reconfigure o real e o desvie, sem que o conjunto perca consistência.

Neste segundo filme, delineia-se com maior nitidez o território das inquietações adultas. A mãe move-se numa espécie de suspensão interior, atravessada por perguntas que raramente chegam à superfície: quem é ela para além do papel que ocupa? Que outra vida teria sido possível noutro percurso? A presença da sua própria mãe, sempre inclinada a reactivar a memória de um antigo namorado, instala um murmúrio persistente dessas hipóteses não cumpridas, como se o passado permanecesse em aberto.

O pai, por seu lado, atravessa uma instabilidade que se manifesta sobretudo no plano exterior, ancorada no trabalho e numa necessidade latente de reconhecimento. A busca por validação extravasa o domínio profissional e infiltra-se na intimidade, abrindo brechas na imagem que construiu de si. A presença da sogra intensifica esse mal-estar, menos pelo confronto directo do que pela forma como reativa dúvidas que ele procurava manter num plano recuado.

Nada disto se organiza em torno de um clímax evidente. As tensões não irrompem, instalam-se de forma discreta. É justamente essa contenção que aproxima o filme de uma experiência reconhecível. O contexto das férias não surge por acaso; a deslocação e a interrupção da rotina tornam visíveis fragilidades que o quotidiano costuma amortecer. A recorrente escolha entre praia e montanha, à superfície insignificante, deixa entrever uma lógica mais profunda, onde ceder ou persistir ultrapassa largamente a simples decisão de um destino.

Quando o quotidiano se cristaliza, torna-se fácil abdicar da reflexão sobre as próprias atitudes. Tudo parece decorrer com naturalidade, ainda que essa naturalidade esconda zonas de desconforto. O filme capta essa lógica ao mostrar como a validação é procurada de forma difusa: no caso do pai, no flirt com a hóspede da Normandia; no da mãe, no interesse pelo realizador italiano. Nada de ostensivo, mas suficiente para deixar transparecer tensões mais fundas.

Inserido nesse cenário, Nicolau não se limita a assistir. Mesmo sem captar todas as implicações, pressente uma ameaça difusa e mobiliza-se para a conter. As suas acções, ainda que ingénuas, transportam uma carga afectiva que evidencia essa disposição infantil para acreditar que os vínculos podem ser protegidos por gestos simples.

Para nossa felicidade, e também para a do querido Nicolau, é comovente o momento em que os pais se apercebem de que, apesar de tudo, permanece entre eles uma memória viva do que foram quando se conheceram. Nesse reconhecimento não se inscreve qualquer promessa de perfeição, mas antes a possibilidade de uma reaproximação. As dúvidas e as tensões não desaparecem, mas dá-se um reencontro com um vínculo que lhes permite, de novo, estarem juntos.

Em vez de fechar as fissuras, o final opta por habitá-las. As dúvidas persistem, as tensões também, mas deixam de ter um efeito paralisante. “As Férias do Menino Nicolau” sugere, assim, que crescer passa por aprender a lidar com o inacabado sem permitir que ele comprometa o que ainda se mantém.

Ao mesmo tempo, o pequeno Nicolau intui algo que o tempo virá a esclarecer: os pais não são figuras invulneráveis. São frágeis, atravessados por dúvidas, afectos, tristezas e inseguranças, como qualquer outra pessoa. É talvez nesse reconhecimento, ainda incipiente, que começa a formar-se um olhar mais complexo sobre o mundo adulto.

O filme está disponível gratuitamente no canal de YouTube da Imovision.