Especial “A Cidade e as Salas de Cinema. As Salas de Cinema e a Cidade”

Para o cineasta Robert Bresson, o cinema não é um meio de reprodução, mas de expressão: “I’d rather people feel a film before understanding it”. O cinema é acima de tudo sentimentos, sensações, expressões, emoções, projetadas em imagens em movimento. “No cinema, a arte consiste em sugerir emoções, e não em relatar factos. O Cinema cria uma vida surreal” (1). O cinema transporta o Homem para um sonho. “O cinema é sonho (Michel Dard. É um sonho artificial (Théo Varlet). O cinema não será também ele um sonho? (Paul Valéry). Vou ao cinema do mesmo modo que adormeço (Maurice Henry)” (2). Portanto, o cinema gera emoções e sonhos. Segundo a Nova enciclopédia Larousse (3), sonho é “psíquica que sobrevem, durante o sono, e que pode ser parcialmente memorizada. 2. Pensamento vago; desvaneio. 3. Representação, mais ou menos ideal ou quimérica, do que se quer realizar, do que se deseja. Imaginar algo.”. Este sonho é assim uma experiência. Essa experiência só existe se houver espectadores, são eles que constituem o próprio cinema. É a experiência cinematográfica. Essa experiência é mágica, é uma ilusão portanto. O espectador projeta na sua mente imagens artificiais. O espectador quando entra na sala de cinema faz parte da experiência, tornando-se num sonho. Todos vivemos o cinema de formas diferentes, mas naquele momento, somos todos sonhadores. De certa forma, o cinema é uma forma de fuga para muita gente, projetando os seus sonhos. O espectador no cinema projeta-se naquelas personagens, identifica-se com elas, torna-se de certa forma ficção. Algo que não é ele. “O cinema, ao invés de obedecer às leis do mundo exterior, obedece às da mente. (…) o papel da memória e da imaginação na arte do cinema pode ser ainda mais rico e significativo. A tela pode refletir não apenas o produto das nossas lembranças ou da nossa imaginação mas a própria mente dos personagens.” (4).

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A entrevista de Robert Bresson.

É conhecida a expressão “fábrica de sonhos”, associada a Hollywood, uma das muitas máquinas do cinema que transforma as imagens em espetáculo. “Mas não será ele (o cinema) a mais absurda das máquinas, uma vez que só serve para projetar imagens, única e simplesmente pelo prazer de ver imagens?” (5). Talvez seja, mas é precisamente esse prazer de ver imagens, esse vício, esse amor e essa vontade em querer sonhar, que significa o cinema. Ele ainda hoje existe porque há sempre alguém que quer sonhar. “O homem é genial sempre que sonha”, já dizia o cineasta Akira Kurosawa.

O público sonha na sala de cinema, lugar de imaginação e evasão, ela é o espaço tradicional, desde os primórdios do cinema. É uma experiência do cinema coletiva. Essa experiência, por mais individual e pessoal que seja, é feita em conjunto com centenas de pessoas ao mesmo tempo, na sala de cinema. Contudo deixou de ser importante ver-se filmes numa sala escura, acompanho pela família, amigos ou desconhecidos. Os cinemas eram um ponto de encontro entre amigos que depois da sessão servia para todos se reunirem e discutirem o filme. Havia convívio. Essa experiência do cinema tem vindo a ser posta em causa, devido às novas formas de se ver cinema. Hoje existem novos dispositivos de acesso ao cinema, que nos criam uma experiência completamente diferente da tradicional (a sala de cinema). É evidente que um ecrã maior proporciona uma experiência mais rica, mais intensa e vivida do que um ecrã mais pequeno. É a experiência da grande tela que está a desaparecer. Com as novas tecnologias a experiência cinematográfica alterou-se.

Coloca-se então a questão: em que sentido as novas tecnologias serviram e podem servir a Sétima Arte? Elas têm servido para o bem e para o mal. O cinema democratizou-se, é verdade. Se por um lado é mais fácil termos acesso a câmaras de vídeo bastante mais baratas, que nos proporcionam uma qualidade de imagem e de som quase profissionais, o que leva a que toda a gente possa livremente fazer filmes, criando uma grande variedade de oferta cultural; por outro, tal como aconteceu com a fotografia, parece que hoje em dia todos são ‘realizadores’, ou seja, toda a gente hoje filma, realiza, edita e partilha o seu trabalho na internet. Não queremos com isto dizer que é errado, pois não é. Vivemos numa era de cultura partilhada. Acontece é que as imagens, sejam elas fixas ou em movimento, banalizaram-se. Ela (a imagem) aparece em todo o lado, repetida ou em versões diferentes. O acesso à imagem democratizou-se, é certo, mas tornou-se vulgar, levando o ser humano a não questionar o que vê à frente dos seus olhos. Por outro lado é mais fácil o acesso a um grande número de filmes, que de outra forma não seria possível. De forma gratuita, em plataformas online como o Youtube e Vimeo. Um aluno de cinema, por exemplo, pode hoje fazer o curso todo através do Youtube, pois encontra lá todos os filmes que necessita de ver. Ou seja, esta democratização do cinema é essencialmente uma coisa boa. No entanto, não podemos descorar os aspectos negativos de tal fenómeno. Vamos menos ao cinema. O modo como vemos cinema distancia-se cada vez mais dessa magia nostálgica do velho cinema. Hoje não vamos ao cinema, vemos um filme em casa, na televisão ou no computador, ou até num tablet ou num smartphone. Será também isso cinema? Ou o cinema existe apenas numa sala de cinema? Ou estará o cinema associado à ideia de grande ecrã, pois é aí que a experiência é verdadeiramente vivida? Assistimos hoje à batalha película versus digital. Em Portugal já praticamente não se filma em película, até porque a Tobis fechou, infelizmente. A sua morte (da película) é apontada para entre 2013 e 2015. Será também possível fazer-se cinema em digital? Será este formato melhor que o analógico? Não há dúvida que o digital veio democratizar o acesso a quem quer fazer e ver cinema. Mas a superior qualidade da imagem é inegável na película, pela sua maior informação e textura. O que será do cinema depois do fim da película? De que cinema falaremos nós? Não se sabe. Mas a mesma coisa não será certamente. João César Monteiro disse uma vez: “O que acontece quando vivemos sem o cinema? Ficamos mais pobres”. Concordando por inteiro com o que ele diz, acrescentamos ainda que, sem o cinema a vida não faz sentido.

O cinema, desde o seu nascimento, tem vindo a evoluir, a melhorar a sua experiência. Primeiro com o surgimento do som, em 1927, com o filme “O Cantor de Jazz”; depois com a côr, o technicolor que é usado pela primeira vez em “O Fantasma da Ópera” (1925), embora “O Feiticeiro de Oz” (1939) e “E Tudo o Vento Levou” (1939) seriam os primeiros filmes a ser totalmente filmado a cores (no entanto, o primeiro filme a cores data de 1901/1902); depois o Cinemascope nos anos 50, uma tecnologia que usava lentes anamórficas, em que “Como se Conquista um Milionário” (1953) foi um dos primeiros filmes a ser filmado nesse formato; foi também nos anos 50 que se realizaram os primeiros testes da imagem em três dimensões (3D), embora até ao século XXI a tecnologia fosse sempre usada ocasionalmente, passando por uma “moda”. Só a partir de 2010, com “Avatar”, é que a tecnologia, mais desenvolvida, se fixou no sistema de produção cinematográfico em todo o mundo. Estes são só alguns exemplos de várias tecnologias que se foram associando ao cinema, quer ao nível da imagem e do som, podendo ainda falar-se dos agora cinemas IMAX e do som, com o 7.1 surround sound. Tudo isto leva, à partida, a uma experiência na sala de cinema mais rica, mais forte e viva para o espectador. Mas contribui também para o aumento dos preços dos bilhetes de cinema, na medida em que o material utilizado requer maior qualidade a nível tecnológico. É legitimo afirmar-se pagamos pela tecnologia.

“No ato de ir ao cinema há indiferença e devoção, premeditação e fatalidade. O destino do espectador vive, durante algumas horas, preso aos destinos que se jogam num rectângulo de tela. E quando sai, há nele qualquer coisa de abandono e de revolta, de humilhação e de protesto. Aquela mentira embaladora que o enfeitiçou, desfeita agora, parece-lhe, ao mesmo tempo, um bem e um mal, uma recompensa e um castigo. Congratula-se e arrepende-se de ter querido iniciar-se em coisas novas e profundas, presenciando aquela fantasmagoria luminosa. Para o espectador de cinema, gostar de um filme é ter chorado, ouvido, compreendido, ou não. Não gostar é o mesmo — e ainda mais.(…) Por tudo isto o espectador de cinema é tão enigmático como o próprio espectáculo.” (6). Nos anos 30 do século XX era assim que vivia o cinema, segundo António Lopes Ribeiro. Hoje a experiência que o público sente é outra, devido aos novos dispositivos que permitem o acesso ao “cinema”. Entre aspas “cinema”, pois se não é numa sala de cinema, não será cinema, será outra coisa qualquer que ainda não soubemos definir. A experiência cinematográfica é uma área muito mais vasta e complexa do que aqui neste artigo foi abordada. Entraria no campo da psicologia e psicanálise, pelo que não é do nosso conhecimento, nem é do nosso interesse entrar por essa via.

É pertinente colocar-se, então, a questão, “o cinema ainda existe?”. O cinema era uma tecnologia do século XIX que atravessou todo o século XX. Agora no século XXI será que essa tecnologia se aguentará? O maior meio de expressão alguma vez inventado, o cinema, será um invento sem futuro? Com o fim da película (versus digital) a experiência é outra. Será que o cinema ainda existe? é uma pergunta pertinente, à qual a resposta ainda não é fácil de se obter. Uma coisa é certa, o cinema existiu e ainda existe. Mesmo que esteja a desaparecer ou a alterar-se, a experiência cinematográfica, continua a existir em algumas partes do mundo. Ainda há quem queira voltar a ser criança e assim esquecer a solidão. Ainda há quem sonhe numa sala escura e que continue a ser seduzido por este ritual que dura há mais de 100 anos (em 2015 o cinema comemora 120 anos de vida), a vinte e quatro imagens por segundo.

Notas:

1) MORIN, Edgar – O Cinema ou o Homem Imaginário. Lisboa, Relógio d’Água Editores, setembro de 1997. p. 25.

2) MORIN, Edgar – O Cinema ou o Homem Imaginário. Lisboa, Relógio d’Água Editores, setembro de 1997. p. 26.

3) LAROUSSE – Nova Enciclopédia Larousse. Círculo de Leitores, fevereiro 1999. volume 21.

4) MORIN, Edgar – O Cinema ou o Homem Imaginário. Lisboa, Relógio d’Água Editores, setembro de 1997. p. 38.

5) MORIN, Edgar – O Cinema ou o Homem Imaginário. Lisboa, Relógio d’Água Editores, setembro de 1997. p. 30.

6) RIBEIRO, António Lopes – Crónica, in Imagem, Ano I, no1, 10 de maio de 1930.