Especial “A Cidade e as Salas de Cinema. As Salas de Cinema e a Cidade”

O Porto passou do tudo ao nada. Uma cidade pioneira no cinema e com emblemáticos edifícios que passaram durante décadas a Sétima Arte, enfrenta hoje por uma grave lacuna a nível de oferta de infraestruturas que passem cinema. O centro da cidade não oferece cinema aos portuenses. Apenas os subúrbios, com os seus shoppings, estão a oferecer a dita ‘experiência cinematográfica’, em salas mais modernas.

Até aos anos 80 as salas estavam cheias mas, nos anos 90, começa a sentir-se uma quebra no público. Atualmente o Porto não tem nenhuma sala de cinema tradicional que passe filmes diariamente, exceto o Cinema Carlos Alberto e o Passos Manuel, que passam cinema uma vez por semana. Muitas dessas grandes salas que fizeram furor nos anos 60 e 70 fecharam, outras foram vendidas e algumas são alugadas ocasionalmente para a realização de outros eventos. O que vingou na cidade, principalmente a partir dos finais dos anos 90, foram as salas multiplex, em centros comerciais, os chamados cinemas “pipoqueiros”. “O panorama atual da exibição cinematográfica no Porto é tudo menos exemplar – 14 salas em funcionamento, 12 das quais em centros comerciais (oito salas Lusomundo no Dolce Vita do Estádio do Dragão, quatro salas Medeia no Shopping Cidade do Porto, com um anexo no Cine- Estúdio do Teatro do Campo Alegre), e apenas um cinema na Baixa (o Estúdio 111, no Teatro Sá da Bandeira), a passar filmes porno. Dos 21 cinemas ativos na cidade em 1978, não há nenhum aberto.” (1). Em 2014, o Porto não tem um único cinema na cidade que passe cinema regularmente, contando apenas com o Passos Manuel e o Carlos Alberto, que passam mensalmente um circuito alternativo e conta com os cinemas comerciais do Dolce Vita (que pertencem à NOS Audiovisuais).

O Porto é um caso onde não se entende para onde foi o público de cinema. “Que segunda cidade do país é esta que já teve um dos maiores cineclubes da Europa e onde agora há pessoas para tudo, menos para o cinema?” (2).

No início do ano de 2013 encerraram por todo o país 49 das 106 salas de cinema, que a exibidora Socorama Castello-Lopes detinha. São cerca de metade das salas da Castello-Lopes que já fecharam portas, tendo levado ao despedimento de 75 trabalhadores. Há casos verdadeiramente alarmantes de regiões de Portugal sem um único cinema comercial, são disto exemplo, Viana do Castelo, São João da Madeira, Covilhã, Leiria, Loures, Seixal, Guia e Ponta Delgada (os Açores ficam assim sem cinemas comerciais). Estes 49 cinemas multiplex já não exibem filmes desde o dia 31 de janeiro de 2013.

Até então, em todo o país existiam cerca de 540 salas de cinema, passando agora a existirem menos 49, ou seja, 491 salas. Segundo os dados do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), em 2011 foram ao cinema cerca de 15,7 milhoes de espectadores, obtendo uma receita bruta de 79,9 milhões de euros. Em 2012 houve uma redução de 12% no número de espectadores, cerca de 13,7 milhões, e uma diminuição de 8% na receita bruta, 73,8 milhões de euros. No caso particular da exibidora Castello Lopes, segundo os dados do ICA, o número de espectadores em 2012 foi de 2.269.208 (-14,2% do que em 2011) e uma receita bruta de 12.608.260,20€ (-12,3% do que em 2011). Verifica-se assim uma grande quebra de receitas e de espectadores do segundo maior exibidor do país. Como é sabido, o líder de exibição cinematográfica é a NOS Audiovisuais (os representantes do dinheiro americano), que irá certamente ganhar com estes encerramentos. A NOS Audiovisuais assume, portanto, um vasto controlo do monopólio dos cinemas portugueses, escolhendo que tipo de filmes devem passar nas salas, sendo eles maioritariamente americanos, ou melhor, de Hollywood. Existe uma concentração da distribuição que deve ser urgentemente pensada.

Se em 2012 o número de espectadores nas salas de cinema em Portugal foi de 13,8 milhões e a receita bruta de bilheteira foi de 73,9 milhões de euros, em 2013 foram às salas portuguesas 12,5 milhões de espectadores (perfazendo uma média de 1,2 espectadores por habitante) e a receita bruta foi de bilheteira foi de 65,5 milhões de euros, representando um decréscimo de 9,4% e 11,5% em relação ao ano transato, respetivamente. Apenas os meses de junho e dezembro fizeram mais receita e mais espectadores do que em 2012. No entanto, o mês mais lucrativo do ano foi agosto, que levou 1.550.524 espectadores e obteve uma receita bruta de 8.236.119,58€, muito por conta de “A Gaiola Dourada”. Por motivos de ordem cronológica não é possível conhecer os resultados estatísticos finais do ano civil de 2014, nem tão pouco retirar quaisquer conclusões. No entanto, pode avançar-se que, segundo o ICA, no seu relatório de outubro de 2014, entre janeiro e setembro de 2014, e face ao período homólogo do ano anterior, registou-se uma descida na receita bruta e no número de espectadores nas salas de cinema em Portugal de 7,8% (44.780.906,00€) e 7,5% (8.614.932 espectadores).

Uma das principais causas destes preocupantes resultados nas salas de cinema nacionais, deve-se ao facto de terem sido fechadas dezenas de salas por todo o país. Foram várias as cidades de Portugal que viram as suas salas de cinema encerrarem e, em alguns casos, houve cidades sem uma única sala aberta. “Os portugueses vão menos ao cinema. Descarregam da net”. A crise, o aumento do desemprego e o aumento do preço dos bilhetes de cinema são algumas das possíveis razões que levam a encerrar cinemas. Deste modo, é natural que a pirataria online aumente substancialmente. É um facto que há menos portugueses a irem aos cinemas. Mas também é verdade que há mais espectadores a irem ver cinema português, sendo que em 2012 estrearam 29 longas-metragens de produção nacional (seis a mais do que em 2011), tornando-se no ano em que mais filmes portugueses estrearam e segundo os dados do ICA (até 31 de dezembro de 2012), a produção nacional cinematográfica estreada em 2012 em Portugal foi vista por 756.298 espectadores até hoje. Este é o melhor resultado de sempre para o cinema português, superando assim os dados de 2005.

Em 2013, o produtor Paulo Branco afirmou, a propósito do encerramento do cinema King, em Lisboa, que “lamenta o desinteresse dos portugueses no ato de ir ao cinema” (3). A sala explorada pela Medeia Filmes, foi encerrada por Paulo Branco “em consequência de um “aumento exponencial” do valor da renda do espaço, de 4.000 euros para 12.000 euros, depois de uma reavaliação do edifício para 2,2 milhões de euros” (4). “É difícil chegar ao público. Não é de admirar que o público não chegue a nós (…) Ir ao cinema é uma experiência e essa experiência tem de ser cultivada. É uma questão de educação. Conhecimento e cultura são enriquecimento” (5), comentou Paulo Branco.

O que resta então? Os centros comerciais. Segundo Margarida Acciaiuoli, no seu livro “Os Cinemas de Lisboa”, “a concentração das salas num mesmo local e a diversificação dos filmes em cartaz obedecem aos mesmos princípios que estão na origem dos centros comerciais. A ideia de que a cidade se pode fazer substituir por uma espécie de réplica imperfeita de si mesma…” (6). Margarida Acciaiuoli continua a sua conclusão sobre a relação entre os espectadores e os cinemas, “sem grande convicção, poderíamos sustentar que o estatuto do espectador pouco mudou. De facto, é ainda a estas reações e à ambiguidade que nelas existe que se deve a frequência das salas. Mas poderíamos também defender que já nada se passa dessa maneira. O certo é que a ‘ida ao cinema’ se alterou. Deixou de haver as longas preparações, as salas esconderam-se e concentraram-se, não há lugares marcados, acabaram os intervalos, desapareceram os foyers, e os corredores encurtaram-se.” (7). Segundo a autora os termos ‘cinemas’ e ‘espectadores’ estão a perder-se. O primeiro porque os espaços dignos desse nome desapareceram ou deixaram de praticar aquilo que o próprio nome indica. O segundo porque foi substituído pela expressão ‘público’. Este sai dos multiplex dos centros comerciais como poderia estar a sair de qualquer uma das lojas do centro comercial.

Não é novidade nenhuma ver-se cinemas a fecharem portas. Nas duas últimas décadas encerraram dezenas, se não mesmo centenas, de salas de cinema independentes e também comerciais por todo o país. Muitas cidades e vilas apenas conseguem manter uma regular exibição de filmes graças aos cineclubes. O Cineclube de Guimarães e o Cine Clube de Viseu são os mais ativos do país, com regular exibição, criação de workshops, ciclos de cinema e contacto com escolas, graças a um grande número de sócios que contribuem para que estas instituições continuem em funcionamento. É de louvar o enorme trabalho de alguns cineclubes, que apesar das enormes dificuldades financeiras que atravessam, conseguem transmitir um grande amor pela Sétima Arte às populações locais. São também estes cineclubes que têm vindo a realizar nos últimos anos sessões de cinema ao ar livre, uma iniciativa que têm tido grande adesão por parte do público. É o caso do Cinema ao Ar Livre do Cineclube de Faro, de Joane, da Maia, de Guimarães e de Viseu (que tem até os “Jardins Efémeros”, o maior evento cultural da cidade de Viseu e um dos maiores do país), por exemplo. No Porto é a Porto Lazer que organiza o cinema ao ar livre, “Cinema Fora do Sítio” e em Lisboa existe o CineConchas.

Os festivais ocupam os cinemas, dão-lhes uso. Veja-se por exemplo o Desobedoc que ocupou as duas salas do Cinema Trindade e o Cinema Batalha e o caso do Fantasporto que ocupa todos os anos o Rivoli. Brevemente haverá outro festival internacional na cidade a ocupar o Passos Manuel, o Porto/Post/Doc.

Tudo isto são bons exemplos que provam que há público que quer ver cinema fora de casa, projetado numa grande tela. É verdade que o cinema ao ar livre é gratuito, mas os festivais, mesmo a pagar esgotam quase sempre e em Espanha provou-se que, se o preço dos bilhetes for consideravelmente mais baixo, as pessoas aderem mais facilmente às salas de cinema. A edição de 2013 da Festa do Cinema Espanhol foi um enorme sucesso, provando que o cinema mais barato ainda enche salas. As pessoas poderiam ver quantos filmes quisessem durante os três dias da festa, entre 21 e 23 de outubro, ao preço de 2,90€, nos 2.924 ecrãs das 323 salas aderentes que representam 90% do mercado daquele país. “O número de registos ultrapassou o milhão e oitocentas mil pessoas. (…) apontam para um total de 1.513.958 espectadores durante os três dias da promoção, 98% mais do que na edição do ano passado e uma afluência 663% superior à dos mesmos três dias da semana anterior (…) É muito simples, quanto mais barato o serviço, maior a procura. Isto significa que houve um reencontro entre o espectador que há muito tempo não ia ao cinema e que quando o preço baixa aceita o estímulo.” (8).

Os cinemas têm hoje que se reinventar, não podendo ser apenas um espaço para exibir filmes. Têm que oferecer mais serviços, como bibliotecas, salas de estudos, auditórios, salas para museus, etc. passando a ser um centro cultural. Veja-se o magnifico exemplo espanhol, que teve a ideia de transformar um antigo matadouro num múltiplo espaço cultural (com cinemas, biblioteca, cantina, auditórios, museu, etc.). Sabendo que existe público interessado, existem algumas tentativas de reabertura de antigas salas de cinema. É o recente caso do Cinema Ideal, em Lisboa, que com um investimento de cerca de 350.000 euros, a Midas Filmes e a Casa da Imprensa, entidades responsáveis pela reconstrução do cinema, reconstruíram uma das salas mais marcantes da cidade. A sala foi inaugurada em agosto de 2014, com a reposição do filme “A Desaparecida” (1956) de John Ford, e promete trazer nova vida através de uma programação mais virada para o cinema independente.

Notas:

1) NADAIS, Inês – Porto: Onde é que estão os espectadores para o cinema?. Ipsilon. (27/02/2009).

2) NADAIS, Inês – Porto: Onde é que estão os espectadores para o cinema?. Ipsilon. (27/02/2009).

3) LUSA, Director do Cinema King lamenta “desinteresse” dos portugueses. Notícias ao Minuto. (25/11/2013).

4) LUSA, Director do Cinema King lamenta “desinteresse” dos portugueses. Notícias ao Minuto. (25/11/2013).

5) LUSA, Director do Cinema King lamenta “desinteresse” dos portugueses. Notícias ao Minuto. (25/11/2013).

6) ACCIAIUOLI, Margarida – Os Cinemas de Lisboa: Um fenómeno urbano do século XX. Lisboa, Bizâncio e autora, 2a edição portuguesa, maio de 2013. p.317.

7) ACCIAIUOLI, Margarida – Os Cinemas de Lisboa: Um fenómeno urbano do século XX. Lisboa, Bizâncio e autora, 2a edição portuguesa, maio de 2013. p.324.

8) QUINTAS, António – Espanha pede cinema mais barato. RTP Cinemax. (24/10/2013).