“A Fabrica de Nada” foi o filme português que surpreendeu em Cannes, vencendo o prémio FIPRESCI – Federação Internacional de Críticos de Cinema na Quinzena dos Realizadores. Este filme mostra, de uma forma tão natural quanto ficcional, tão verdadeira quanto ilusória, como o mundo em que vivemos hoje caiu numa crise constante e inultrapassável, que vem dar a grande oportunidade para uma abrupta intensificação na acumulação unilateral da riqueza, pelo velho roubo sistemático feito ao trabalhador, pela exploração máxima da sua força de trabalho.

Numa fábrica de elevadores, da noite para o dia, os trabalhadores ficam sem a maior parte dos meios tecnológicos que compunham e muniam os seus postos de trabalho. Como forma de protegerem os seus postos de trabalho, os operários impediram a nova administração de entrar nas instalações, ocuparam a fábrica e tentaram subsistir em autogestão.

Tudo acontece com os mesmos discursos de sempre por parte das entidades patronais no sentido de saírem de cena o mais depressa possível, enviarem dois carrascos que consigam livrar-se dos trabalhadores e ainda assim deixar “os falidos” com os bolsos cheios. É esta lógica de sanguessuga contra a qual estes trabalhadores lutam, impedindo que as migalhas que lhes querem oferecer para explorarem novas fontes de energia, num outro sítio, sejam superiores ao valor da dignidade, pois, caso se vendam por dinheiro, estão simplesmente a entrar na mesma lógica egoísta. A expressão “sair de cena” é a mais adequada, pois o espaço da fábrica torna-se o cenário onde estes trabalhadores, ao mesmo tempo que lutam pelos seus postos de trabalho, são encenados por um director argentino, Danièle Incalcaterra. A grande esperança dos trabalhadores quando surge o telefonema de uma nova e larga encomenda que poderia vir dar um novo fulgor à vida da fábrica, afinal faz parte do argumento de um filme? Afinal qual a efectividade daquilo que está a acontecer?

Existe uma visão pessimista do futuro, como se o capitalismo fosse uma força invencível que consegue apropriar-se de todas as filosofias e movimentos para melhor se projectar pelo futuro. As filosofias ambientalistas e feministas não passam de novas máscaras sob as quais se continuam a esconder as mesmas forças que criam a verdadeira filosofia, a mesma velha realidade, a das classes sociais: de um lado, os pobres; do outro, os ricos. Já ouvimos quem dissesse que seria mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, e neste filme é um pouco essa a ideia que está representada. Parece que por mais raiva e vontade que exista dentro daqueles que têm sido fustigados e injustiçados, uma força desmedida apropria-se de todos os seus movimentos para os incorporar na sua lógica devastadora. Até as artes se podem tornar mercadorias meramente vendáveis, despojadas de qualquer tipo de poder intelectual emancipatório; ou então, simples vendedoras de ilusões? O diálogo final, quando José Vargas descobre que afinal o telefonema era falso e fazia parte do projecto artístico de Danièle, é esclarecedor deste pessimismo. José afirma que as necessidades prementes de alimentação, de subsistência dos filhos acabam por tornar toda a luta mais difícil, pois quantos são aqueles que estão prontos a sacrificar o pouco que têm para entrarem num estado de incerteza quanto aos recursos disponíveis para fazer face aos seus encargos? E qual destes bem-intencionados trabalhadores será o primeiro a corromper-se para poder entrar na mesma lógica que estava a combater? E, no fim de contas, até um artista aproveita a situação para mostrar a sua arte e com ela obter os seus dividendos.

O filme mostra que existe uma lógica destruidora que se intensifica a cada dia, que existem formas de lutar e de lhe fazer frente, mas que também existem forças que se podem aproveitar para, a partir delas, se impulsionarem e perenizarem a mesma forma de domínio. E quem nos salvará? Haverá alguma possibilidade de redenção desta história viciada da matéria?

O uso de não actores é a parte mais fascinante deste filme. É certo que não é nada de novo nas metodologias do cinema, porém, neste filme existe uma naturalidade tal que a própria linguagem que é usada não é mais do que aquela que se usa em momentos idênticos: uma linguagem que, embora não flua como nos discursos políticos, vem fazer resplandecer uma vontade sincera de querer compreender o fenómeno social no qual eles são a parte a quem fazem chegar menos conhecimento, e que, por isso, se sentem obscurecidos e obrigados a um esforço novo de compreensão da sua situação. O stress vai, aos poucos, tomando conta das emoções dos trabalhadores e também às palavras vão-se acrescentando intensidades novas. A forma fílmica parece conter algo de novo. Existem planos que sendo simples conseguem ser extremamente belos, como por exemplo a janela que enquadra a fábrica banhada por uma luz de lusco-fusco que parece desenhar uma pequena aura que repousa sobre a fábrica e as cenas de sexo ganham novas perspectivas pelos planos que se aproximam do rosto e através dos sons das respirações que se intensificam.

Os trabalhadores, neste filme, são representados como possuidores de uma vida pessoal, humanizados. É desfeita a ideia de mercadoria fetichizada que está cristalizada nas mentes dos patrões, que denega constantemente a vida que um trabalhador possui antes e depois do seu horário de trabalho, colocando-os sempre numa situação de disponibilidade completa. A vida aparece como sendo aquilo pelo qual os trabalhadores escolhem lutar e ocupar a fábrica. É no quotidiano onde o trabalhador assenta os pés, como num húmus de onde brotam as raízes que compõem o seu ser, um ser que ama e que é amado, que tem o seu prazer e que também o dá, como quem tem o direito de usufruir da sua natureza. É por essa vida que lhes pertence que os trabalhadores movem as suas forças em união, deixando de se sacrificarem a todos os instantes para que outrem enriqueça, para começar o sacrifício por uma causa maior: uma causa que é verdadeiramente sua por ser comum aos que se encontram na mesma condição.

Esta fábrica que produzia elevadores, elevou os trabalhadores a um novo patamar que poderemos pensar que é ilusório ou provisório. Porém, esse gesto de resistência, que foi por eles levado a cabo, mostra que ainda existe a possibilidade de fazer uso de um poder que se esconde dentro de todos que se esqueceram que o possuem, como quem desenterra um armamento que se arremessou para o fundo da terra por existir nele um símbolo de terror e de barbárie; mas talvez não haja outra solução senão a recuperação desse poder para uma libertação da barbárie, para a busca activa de uma tão esperada redenção.

Realização: Pedro Pinho
Argumento: Tiago Hespanha, Luisa Homem
Elenco: José Smith Vargas, Carla Galvão, Njamy Sebastião
Portugal/2017 – Drama
Sinopse
: Uma noite um grupo de operários percebe que a administração está a roubar máquinas e matérias-primas da sua própria fábrica. Ao decidirem organizar-se para proteger os equipamentos e impedir o deslocamento da produção, os trabalhadores são forçados, como forma de retaliação, a permanecer nos seus postos sem nada fazerem enquanto prosseguem as negociações para os despedimentos. A pressão leva ao colapso geral dos trabalhadores, enquanto o mundo à sua volta parece ruir.

«A Fabrica de Nada» - Ascensão dos trabalhadores até um novo patamar
4.5Valor Total
Votação do Leitor 1 Voto