“A Vizinha Perfeita”: dentro do horror quotidiano

“A Vizinha Perfeita” expõe, através das câmaras corporais da polícia, a banalização da violência e o medo latente numa América viciada em armas
A Vizinha Perfeita A Vizinha Perfeita
“A Vizinha Perfeita” (2025), de Geeta Gandbhir

Sabes aquela sensação de espreitar pela fechadura e ver a confusão a acontecer à tua frente, sem poderes fazer nada? Foi mais ou menos isso que senti ao ver “A Vizinha Perfeita”, o documentário de Geeta Gandbhir sobre o assassinato de Ajike Owens. A diferença é que, aqui, a fechadura tem lentes, microfones e luzes, e tudo é registado pelas câmaras corporais da polícia da Florida. É uma espécie de voyeurismo forçado, com a adrenalina do medo e a frieza da morte sempre à espreita.

O filme inicia-se com uma chamada para o 911 feita por Susan Lorincz, a vizinha branca que acabaria por disparar contra Ajike, uma mulher negra. A voz de Lorincz soa melodramática, quase teatral, trémula, como se emergisse de um daqueles dramas turcos que se seguem à noite, enquanto se saboreia uma chávena de chá. É neste instante que se revela a primeira ironia cruel: um pânico ensaiado, artificial, que se espalha na voz, mesmo sabendo-se que a arma se encontra à mão, pronta a ser disparada.

Depois, as câmaras corporais mostram a rotina da polícia nas visitas anteriores ao local. Nos Estados Unidos, estes dispositivos começaram a ser testados em 2010, com o objectivo de conter excessos e reduzir denúncias de abusos policiais.

Na prática, porém, é a própria polícia que controla as filmagens, que raramente são divulgadas, segundo uma reportagem da ProPublica. Um levantamento de junho de 2022 indicava que, de 79 ocorrências policiais com morte, as imagens foram tornadas públicas em apenas 33 casos.

As câmaras corporais foram fundamentais para a condenação dos agentes envolvidos no caso George Floyd. As imagens mostram o momento em que Derek Chauvin pressiona o pescoço de Floyd com o joelho durante nove minutos. A vítima repetiu mais de 20 vezes a frase “I can’t breathe”. O caso ocorreu em Minneapolis, em 2020, e desencadeou uma onda de protestos e discussões sobre uso da força, letalidade policial e racismo.

Aqui vemos a tensão nos rostos de todos, crianças, adultos e vizinhos curiosos, mas sobretudo o contraste entre o medo das pessoas comuns e a estranha calma dos agentes. Os rostos dos polícias, captados a meio caminho entre a neutralidade e a timidez, quase parecem dizer que aquilo é apenas trabalho e que basta respirar fundo, como se a violência sistémica fosse tão banal como perguntar a alguém se já lavou a loiça.

E então chega o instante fatídico. Lorincz, após uma sucessão de desentendimentos com a vizinha e com os filhos pequenos de Ajike, decide disparar. A câmara corporal regista o horror e a confusão: a porta a abrir-se, o tiro a ecoar, o corpo a ceder ao chão, seguido de um silêncio esmagador. O choque que provoca é frio e imediato. Gandbhir constrói a narrativa com estas imagens, entrelaçando-as com os registos áudio da chamada para o 911, transformando a tragédia numa experiência crua, quase insuportável, mas marcada por um rigor cinematográfico exemplar.

O que me deixou perplexo, no entanto, foi a passividade da polícia. Perguntas óbvias sobre a arma, sobre treino, sobre onde a guardava ou quantas vezes a tinha disparado não surgem. É como se possuir uma arma nos Estados Unidos fosse tão banal como ter uma torradeira ou um micro-ondas. E talvez seja mesmo isso, no país da Segunda Emenda a posse de armas é tão normalizada que quase ninguém se lembra de a questionar.

Dados recentes do Pew Research Center e projecções baseadas no Small Arms Survey indicam que cerca de 32% a 34% dos adultos norte-americanos afirmam possuir pessoalmente uma arma de fogo. Estima-se que existam hoje entre 430 e 470 milhões de armas em mãos civis, uma proporção de aproximadamente 1,3 a 1,5 arma por habitante. Nesse contexto, a morte parece um preço pago sem grande surpresa.

Lorincz surge despida de camadas explicativas ou de qualquer tentativa de humanização. Apresenta-se como alguém instável, perigosa, a quem os jovens atribuem o epíteto de “Karen”, um rótulo carregado de significado nas redes sociais, e a sua pertinência torna-se clara quando os dados do Gun Violence Archive revelam que desentendimentos aparentemente banais — uma vaga de estacionamento disputada, folhas caindo no quintal vizinho, um som demasiado alto — podem desaguar em homicídios por impulso. Ver Lorincz recusar-se a levantar-se para ser algemada, com educação mas firmeza, provoca um desconforto inquietante. É um lembrete de como a permissividade policial perpetua, quase invisivelmente, a sensação de impunidade.

O documentário vai além da simples crítica a Lorincz e lança luz sobre uma questão muito mais ampla e estrutural. Mostra como leis permissivas de legítima defesa, conjugadas com a posse desenfreada de armas, transformam bairros aparentemente comuns em palcos de tragédia iminente. Gandbhir não se detém em debates jurídicos ou partidários sobre a Segunda Emenda; antes, deixa que as imagens falem por si, com uma eloquência brutal. A familiaridade com a arma, a súbita violência do disparo e o espanto das testemunhas tecem uma narrativa de intensidade inegável, capaz de dizer mais do que qualquer análise formal poderia expressar.

O género true crime assume aqui uma densidade. Não se trata apenas do crime em si, mas da forma como o decodificamos, assimilamos e sentimos. As câmaras corporais erguem-se como uma voz autónoma do terror quotidiano, captando rostos, vozes, gestos, hesitações, temores e mentiras que desfilam diante de nós. A câmara não julga; limita-se a impelir-nos a assistir, a confrontar o desconforto. E a ironia é implacável: a violência, aparentemente trivial e rotineira, impõe-se, inalterável, na memória do espectador.

Surge ainda uma irremediável comparação com outros casos mediáticos em que a actuação policial esteve sob intenso escrutínio. Aqui, também, a detenção não é imediata; instala-se uma sensação de lentidão e relutância, como se a justiça caminhasse sempre atrás da tragédia.

No meio de tudo, instala-se uma cena. A câmara observa Lorincz na cela, isolada, fria, inquietante na sua banalidade. Nuances de expressão e movimento são captadas com precisão quase perfeita. Mais do que voyeurismo, trata-se de observar o medo, a raça e a letalidade que marcam uma nação viciada em armas.

O filme coloca-nos diante de uma pergunta fatal: como pode uma sociedade tolerar que tragédias desta natureza se tornem quase rotineiras? A familiaridade com a violência, a indiferença das instituições e a complacência das leis geram um quadro em que a morte se transforma num episódio banal, mais uma estatística. Quando o veredicto é apresentado apenas nos créditos finais, o efeito é duplo, conhecemos já o rosto da vítima, sentimos o peso da perda, e ainda assim a sentença surge como uma nota seca, abrupta, ao final da narrativa.

É difícil escapar à ironia amarga do título “A Vizinha Perfeita”. A vizinha exemplar revela-se capaz de converter a própria casa num palco de horror doméstico, e nós, espectadores, ficamos com a sensação desconfortável de ter espreitado pela fechadura de uma tragédia sem jamais poder tocá-la, sem jamais poder impedir o seu curso.

No essencial, Gandbhir faz mais do que narrar um crime. Revela uma sociedade onde leis brandas, hábitos arraigados e a banalização da violência se combinam, conduzindo a um fim quase inexorável. A tragédia germina não no tiro, mas em cada inspeção policial desatenta, em cada silêncio cúmplice e em cada norma que mantém a arma ao alcance de todos.

É este olhar directo, incisivo e atento às fragilidades humanas que transforma “A Vizinha Perfeita” num retrato sombrio de uma América que julgávamos conhecer, um retrato que perturba e nos obriga a confrontar o que preferíamos ignorar. Saí do filme com uma sensação ambivalente, entre o choque e a reflexão. Se isto é a vizinha perfeita, talvez seja mais seguro continuar a não espreitar demasiado para além da parede.