Há um sintoma no cinema português que tem que ser quebrado. Temos um momento histórico importante, que ainda nos está próximo do ponto de vista da História e podíamos aproveitar esse potencial, essa memória fresca, as pessoas que ainda se recordam para fazer boas peças de cinema. Os últimos exemplos de filmes feitos sobre o 25 de Abril, o tempo da ditadura ou o PREC pecam por falta de visão, rigor histórico e fulgor épico que alguns momentos chave tiveram.
Começamos pelo título, porquê “Camarada Cunhal”? Podia chamar-se “A Fuga” mas seria um insulto ao filme bem executado e com profundidade, que aliás recomendo, do Luís Filipe Rocha, baseado na célebre fuga solitária de António Dias Lourenço, dirigente comunista. O filme foca-se só no período em que Cunhal entra na prisão em Peniche até ao momento da fuga.
Os diálogos são pobres, sem profundidade, há pudor em falar de comunismo, do Partido Comunista Português, há pudor ideológico. Pinta-se uma prisão política em tons suaves, a comida é má e de vez em quando levas umas pauladas, nada de especial. O tempo do filme é apressado, tudo acontece com facilidade, não se sente o peso da solidão, da tortura, do jogo psicológico, da dor física… nada! E temos até um exemplo bem próximo em que em poucos minutos de filme se coloca essa dor, esse peso – o premiado “Ainda Estou Aqui” de Walter Salles.
Só sabemos que é o Álvaro Cunhal porque o guarda lhe pergunta o nome na entrada da prisão. E em todo o filme há uma necessidade extrema e absurda de ter que referir os nomes de toda a gente sempre que entram em cena. Um pequeno aparte histórico, muitos deles não usariam os nomes reais mas sim nomes de clandestinidade que em alguns casos ficaram tão entranhados que entre camaradas ainda hoje os usam. A fuga podia ser de uma qualquer prisão, com um qualquer grupo de presos, por qualquer um motivo.
O filme não faz justiça ao livro de Adelino Cunha, “Álvaro Cunhal – Retrato Pessoal e Íntimo”, que está na inspiração deste filme. Um livro bastante completo sobre a figura, o político, a vida pessoal, o escritor e o artista. Não faz justiça aos presos políticos da ditadura. E perigosamente ameniza a ação da ditadura e da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado).
Sérgio Graciano queima aqui a sua terceira oportunidade de fazer algo sobre personalidades políticas do século XX português. Seja com Salgueiro Maia ou com Mário Soares falta rasgo, falta verdade, falta história. Não estamos a falar de filmes com orçamentos curtos e até mesmo de produções que exijam muito, não estamos a falar de profissionais acabados de sair da escola. Percebo a boa vontade e a intenção de retratar e imortalizar figuras tão importantes mas assim fica dificil e torna-se duro fazer a defesa do cinema português. Exige-se mais!

