Já passaram seis dias desde que a 70ª edição do Festival de Cannes arrancou e a imprensa internacional já começa a destacar alguns filmes que podem vir a vencer a Palma de Ouro. Dos dezoito filmes da secção competitiva, onze já estrearam em Cannes: “Nelyubov” (Loveless) de Andrey Zvyagintsev, “Happy End” de Michael Haneke, “Wonderstruck” de Todd Haynes, “120 Battements Par Minute” de Robin Campillo, “Okja” de Bong Joon-ho, “The Square” de Ruben Ostlund, “Jupiter’s Moon” de Kornél Mundruczó, “Le Redoutable” de Michel Hazanevicius, “The Killing Of A Sacred Deer” de Yorgos Lanthimos, “The Meyerowitz Stories” de Noah Baumbach e “Geu-hu” (The Day After) de Hong Sangsoo.

Segundo a imprensa internacional o filme que reuniu até ao momento o favoritismo por parte da crítica é “120 Battements Par Minute” do argumentista e realizador francês Robin Campillo (realizador de “Eastern Boys”). Um filme sobre a epidemia da Sida, que retrata os anos 90 das lutas do grupo ativista Act Up de Paris, ramo da organização internacional de luta contra a Sida.”120 Battements Par Minute”, baseado nas próprias experiências de Robin Campillo, como um dos membros da organização nesta causa LGBTI, é um filme enérgico sobre as falhas dos serviços de saúde do governo Fabius e da presidência de Mitterand, no inicio dos anos 90, em lidar com a comunidade seropositiva. O The Hollywood Reporter exaltou o trabalho do realizador, o The Guardian deu 5 estrelas (“Este filme tem o que o seu título implica: um batimento cardíaco. (…) Robin Campillo comemora o legado do grupo ACT UP com um filme trágico, urgente e cheio de vida cinematográfica), a Variety escreveu que o filme conta com uma visão rara e inestimável, e a revista Premiere aponta-o como favorito a vencer a Palma de Ouro. Desde o seu dia de estreia em Cannes que “120 Battements Par Minute” continua a ser unanimemente o merecedor da Palma de Ouro e também como o candidato ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, pela França.

“Loveless” do russo Andrey Zvyangitsev, sobre os conflitos entre um casal em processo de divórcio, é também apontado como um dos favoritos para a Palma de Ouro deste ano. O novo filme do aclamado cineasta russo (“O Regresso”, “Elena” e “Leviatã”) foi muito bem aceite pela crítica internacional. Este é um drama que retrata a sociedade russa de forma intensa, sobre a procura pela estatuto e riqueza, que merece uma reflexão sobre o individualismo do século XXI. O The Hollywood Reporter escreveu que “Andrey Zvyagintsev mais uma vez demonstra o seu notável dom para a criação de microcosmos dramáticos perfeitamente formados que ilustram as patologias humanas da sociedade russa (…) O filme deixa-nos com um nó no estômago, ao deixar claro para todos na sala que é impossível uma vida sem amor”. O The Telegraph atribuiu 5 estrelas, assim como o The Guardian, que escreveu que esta “é uma história crua, misteriosa e aterrorizante de catástrofe espiritual: um drama com a forma ostensiva de um thriller processual de crime (…) ‘Loveless’ pode não ter a grandeza e o alcance de ‘Leviathan’, mas o seu brilho e paixão são extremamente convincentes”. A Variety escreve que “‘Loveless’ tem um olhar sinistro, não na política da Rússia, mas na crise da empatia cultural e da constante insensibilidade”.

Nunca nenhum cineasta ganhou a Palma de Ouro três vezes, mas Michael Haneke pode bem conseguir esse feito com “Happy End”. O cineasta austríaco é um veterano de Cannes que já venceu duas Palmas de Ouro, uma em 2009 com “O Laço Branco” e outra em 2012 com “Amour”. Haneke torna a conquistar a crítica, desta vez com “Happy End” que retrata uma família disfuncional que se encontra após a morte da matriarca. A imprensa tem tecido bons elogios, comentando que parece uma continuação de “Amour” e elogiando o extraordinário elenco composto por Toby Jones, Isabelle Huppert, Mathieu Kassovitz e Jean-Louis Trintignant. O The Guardian dá-lhe 5 estrelas e escreve que “o realizador austríaco regressa a muitos dos seus temas clássicos numa sátira dura, implacável e emocionante sobre os europeus burgueses e as pessoas que os servem”. O The Wrap escreve que “o filme exige e que recompensa a nossa atenção, mas Haneke é um mestre – o seu enquadramento tão preciso, a sua forma tão rigorosa – que te puxa naturalmente”. A Variety escreveu: “É como se o diretor tivesse amarrado as pontas soltas de seus filmes anteriores, ao mesmo tempo em que nos forçava a reexaminar questões que só ficaram mais terríveis desde que ele nos chamou a atenção”. Este é um dos grandes favoritos a vencer a Palma de Ouro de 2017.

Depois do sucesso “Carol”, Todd Haynes estreia em Cannes o seu sétimo filme, “Wonderstruck”, um drama sobre duas crianças surdas que se conectam com décadas de diferença. É um filme que apesar de ser apontado como um dos favoritos à Palma de Ouro, tem dividido a crítica. Com um elenco liderado por crianças, o ambiente infantil e mágico tem sido apontado como um dos pontos fracos do filme. A Variety escreveu que “…quando “Wonderstruck” deveria estar a levantar voo, o filme começa a girar de forma prosaica e enrolada, com camadas de coincidência significativa”. O The Telegraph atribuiu 4 estrelas, escrevendo que “Wonderstruck é um ternurento estudo sobre três crianças que anseiam encontrar o seu lugar”. O site Hollywood Reporter elogia o visual mais do que as interpretações do elenco. “Wonderstruck” tem sido abraçado como um comovente e uma complexa experiência cinematográfica para todas as idades.

“Le Redoutable” de Michel Hazanevicius regressa a Cannes pela terceira vez, primeiro com o inesquecível “O Artista” e depois com o fracasso drama de guerra “The Search”. Agora chega com “Le Redoutable”, que conta no elenco com Bérenicé Bejo, Louis Garrel e Stacy Martin. Este é um filme biográfico sobre o cineasta Jean-Luc Godard, que se foca no romance entre Godard e a atriz Anne Wiazemsky, durante as rodagens do seu filme “La Chinoise” (1967) e nos eventos do Maio de 68. “Le Redoutable” tem sido bem recebido, apesar de ter dividido a crítica, pois acaba por expor muito o próprio Godard, pelo que uns o veem como uma homenagem e outros como uma crítica. É visto como um dos mais leves filmes na competição deste ano, e apesar de não agradar a toda a crítica, o ator Louis Garrel é apontado como o favorito a vencer o prémio de Melhor Ator. O The Guardian deu-lhe 3 estrelas e escreveu que “Há muitas piscadelas e homenagens estilísticas ao trabalho de Godard, mas esse estudo de um JLG politizado e ressentido não o coloca exatamente onde quer (…) um filme repleto de incidentes e debates”. O The Hollywood Reporter escreveu que “os cinéfilos mais conservadores provavelmente vão rejeitá-lo, caracterizando-o como desrespeitoso, enquanto que os espectadores no geral vão achar divertido, mesmo que não desperte grande interesse sobre o cineasta”. O Indiewire escreve que “o filme reconhece as suas contradições e as suas realizações artísticas com uma mão delicada. Ele vai bem na maior parte. O filme consegue tomar uma história que a princípio teria um apelo restrito e amplia-o trazendo as tradições de género familiares e contextualizando a carreira multifacetada de Godard para especialistas e recém-chegados”. No entanto, o próprio Godard não aprovou este filme, dizendo que “É estúpido, é uma ideia estúpida”.

Outro filme que também dividiu a crítica é “Okja” de Bong Joon-ho, o primeiro filme da Netflix exibido em Cannes. Apesar de todas as polêmicas e discussões à volta da Netflix se estrear em Cannes, o filme foi aplaudido por todos os presentes e dividiu a crítica internacional. “Okja” conta a história de uma menina que cuida e tem como melhor amigo uma criatura fantástica (um porco mutante), que é sequestrada por uma corporação malvada. A Variety atribui 5 estrelas pela excelente realização e argumento, assim como o The Guardian lhe deu também 5 estrelas, dizendo que é um filme maravilhoso e comparando-o ao filme “E.T.” (1982). A Collider escreveu que “é deslumbrante e emocionante e engraçado e inventivo e inesperado. É por isso que Bong é um visionário entre seus pares. E, meu Deus, é por isso que vamos ao cinema”. “Okja” acabou por surpreender muitos e foi um dos mais aplaudidos em Cannes. Dificilmente o filme irá vencer a Palma de Ouro, mas o realizador sul-coreano Bong Joon-ho é apontado como favorito a vencer o prémio de Melhor Realizador.

Depois da estreia de “Okja” a Netflix estreia a sua segunda obra no Festival de Cannes, “The Meyerowitz Stories” de Noah Baumbach, que reune no elenco nomes como Emma Thompson, Ben Stiller, Elizabeth Marvel e o improvável Adam Sandler. O filme gira em torno de uma família cujos membros, que não se veem há anos, são obrigados a reunirem-se para um evento celebrando as obras de arte do pai. Esta obra de Noah Baumbach foi calorosamente bem recebido pela imprensa, que tem-se fartado de elogiar as interpretações de Ben Stiller e de Adam Sandler. O The Telegraph que lhe dá 4 estrelas comenta que Adam Sandler está finalmente num bom filme. O The Guardian dá-lhe também 4 estrelas e escreveu que “o mais recente filme de Noah Baumbach tem uma escrita inteligente e um elenco forte, mas é Stiller quem rouba o espectáculo com uma notável demonstração de emoção”. A Variety disse que este é o melhor filme original Netflix até hoje e elogiou o desempenho de Adam Sandler, “Adam é forçado a representar, e é uma coisa gloriosa de se assistir – mesmo para aqueles fãs que gostam dele no modo eterno homem-criança”. O Indiewire escreveu que “não é o filme mais espirituoso ou mais excitante que Noah Baumbach já fez, mas pode ser o mais humano (…) continua a ser extremamente frustrante como Adam Sandler pode ser bom quando ele não está a fazer filmes à Adam Sandler”.

“The Killing Of A Sacred Deer”, do realizador grego Yorgos Lanthimos (venceu o Prémio do Júri em 2015 com “A Lagosta”), foi vaiado pelo público e aplaudido pela crítica. Protagonizado por Nicole Kidman e Colin Farrell, este drama experimental acompanha uma família que vê a sua vida virada ao contrário após a entrada de um jovem adolescente nas suas vidas. O The Guardian dá-lhe 4 estrelas e escreve que este é “um conto bizarro e inquietante do realizador de ‘A Lagosta’, com Farrell como um cirurgião cardíaco com uma desconcertante amizade com um menino de 16 anos”. O The Telegraph dá-lhe 5 estrelas e descreve-o como “selvagem, desconfortável, engraçado e uma tragédia grega”. O The Hollywood Reporter elogiou muito o filme: “O desconforto psicológico se agita-se como um traiçoeiro fluxo subterrâneo sobre o humor absurdo do trabalho de Yorgos Lanthimos, que se torna num reflexo de horror doméstico na sua quinta e maravilhosa realização”.

Por fim, o vaiado “Jupiter’s Moon”, do húngaro Kornél Mundruczó (em 2014 venceu a secção Un Certain Regard com “Deus Branco”),conta a história de um refugiado sírio com poderes sobrenaturais que tenta atravessar a fronteira para a Hungria, divide opiniões. O The Hollywood Reporter destaca a beleza das cenas: “Toda a primeira parte do filme, os planos sequencia são deslumbrantes, cortesia dos 32 anos de carreira do diretor de fotografia Marcell Rev (…) Depois a narrativa toma o seu primeiro twist, com a sobrevivência de Aryan e o seu sangue que de repente começa a fluir para o céu, seguido pelo próprio Aryan”. Já o The Guardian escreveu que este “é um trabalho muito estranho e singular: não é a obra-prima visionária que se assume, porque acaba por confundir-se nos seus efeitos e ideias, mas é certamente corajoso. Ele perde a profundidade, porém, sem tornar-se superficial”. “Jupiter’s Moon” é visto como um filme ambicioso, muito bem filmado e com boas ideias, mas que será difícil conquistar a Palma de Ouro.

O certame continua até dia 28, faltando ainda ver oito filmes da selecção oficial, dos quais são muito aguardados “L’amant Double” de François Ozon, “The Beguiled” de Sofia Coppola, “Rodin” de Jacques Doillon e “Hikari” (Radiance) de Naomi Kawase.