A primeira etapa da longa corrida até aos Óscares (cerimónia agendada para Fevereiro de 2020) decorreu no mês passado na cidade francesa de Cannes.

Por maior que seja o número de filmes exibidos anualmente na Croisette, são sempre poucas as películas que atravessam o Atlântico e agradam a Academia de Hollywood. A última vez que uma estreia do Festival de Cannes venceu o Óscar de Melhor Filme ocorreu em 2011 com o filme “O Artista”, de Michel Hazanavicius.

Este ano, em Maio passado, o júri da 72.ª edição do festival francês elegeu como melhor filme “Parasite” do coreano Bong Joon-ho. A obra encantou tanto o júri como a imprensa, mas a Academia é outra história.

De entre os 94 filmes que estrearam este ano em Cannes, são apenas 6 aqueles que penso terem hipótese de chegar aos Óscares (em categorias para além de Melhor Filme Estrangeiro). Ora comecemos:

1. “Era uma vez em… Hollywood”, de Quentin Tarantino

Se excluirmos a Palm Dog atribuída à pitbull Brandy, o nono filme de Tarantino abandonou Cannes de mãos a abanar. Muitos previam que ganhasse o prémio de Melhor Argumento, mas quem o recebeu foi “Portrait de la jeune fille en feu” de Céline Sciamma. Curiosamente, “Era uma vez” será sem dúvida o filme de Cannes mais nomeado aos Óscares, quando Janeiro chegar.

Como o seu título indica, este é um filme sobre Hollywood e, como tal, será por certo mais bem recebido pela Academia do que pela crítica europeia. “Era uma vez” ainda não teve estreia comercial, mas já enfrentou a sua primeira controvérsia, quando um jornalista questionou Tarantino sobre o número reduzido de falas da actriz Margot Robbie. A pergunta soou familiar à crítica frequente (se bem que disparatada) de que Tarantino despreza as suas personagens femininas. O realizador mostrou-se visivelmente irritado e limitou-se a responder “Rejeito a sua hipótese”.

Mas falemos de números: “Era uma vez” é capaz de arrecadar até 10 nomeações aos Óscares. Entre as categorias principais, está bem posicionado para Filme, Realizador, Actor (Leonardo DiCaprio), Actor Secundário (Brad Pitt) e Argumento Original. Pode ainda ser muito reconhecido nas categorias técnicas, como Montagem, Direcção de Arte, Guarda-roupa e Maquilhagem.

2. “Rocketman, de Dexter Fletcher

O consenso é que o musical sobre o cantor Elton John conseguirá apenas uma nomeação, a de Melhor Actor para Taron Egerton. Se a memória não me falha, um certo filme musical sobre um cantor igualmente adorado por milhões recebeu cinco nomeações aos Óscares no ano passado. Para não falar de que venceu quatro. Quatro! “Bohemian Rhapsody” é o filme mais oscarizado de 2018.

Assim sendo, a minha aposta é que “Rocketman” será nomeado para Filme, Actor, Montagem de Som e Mistura de Som, tal como “Bohemian” foi. Vão quatro. No cenário mais optimista, a Academia poderá também reconhecer a Direcção de Arte, o Guarda-roupa e a Maquilhagem. E vão sete.

3. “Dor e Glória, de Pedro Almodóvar

A Academia gosta de Almodóvar. Com quatro filmes nomeados aos Óscares, dois até triunfaram, incluindo “Tudo Sobre a Minha Mãe” que venceu Melhor Filme Estrangeiro, nomeação provável para “Dor e Glória”.

Outra nomeação possível é a de Melhor Actor. O filme, autobiográfico, conta com Antonio Banderas a interpretar uma versão do cineasta. O júri de Cannes aclamou a performance e atribuiu-lhe o prémio de Melhor Actor, pelo que a nomeação ao Óscar é plausível.

Uma forte possibilidade é a de Melhor Realizador. A Academia é, felizmente, um grupo cada vez menos americano e mais internacional. Prova disso foram as nomeações do polaco Pawel Pawlikowski e do mexicano Alfonso Cuarón na última edição. Não acredito que tenha sido uma excepção, mas sim o início de uma tendência. Se assim for, Almodóvar está na linha da frente para uma das cinco vagas.

4. “Parasite”, de Bong Joon-ho

A combater pela mesma vaga encontra-se Bong Joon-ho. Vencer a Palma de Ouro assegura a qualquer filme um nível de visibilidade e alcance tremendo, o que poderá valer a nomeação para Melhor Realizador a Bong.

Ao observarmos os membros do júri desta edição de Cannes, facilmente nos apercebemos do grande número de realizadores que o compôs: Yorgos Lantimos (“A Lagosta”, “A Favorita”), Kelly Reichardt (“Certain Women”), Pawel Pawlikowski (“Ida”, “Cold War Guerra Fria”) e Alejandro Iñárritu (“Birdman”, “The Revenant: O Renascido”). E adivinhem só, todos eles são membros da Academia.

“Parasite” pode ainda aspirar a Argumento Adaptado, Cinematografia e Direcção de Arte.

5. “The Lighthouse”, de Robert Eggers

Depois da sua estreia como realizador com o êxito de bilheteira e crítica “A Bruxa”, Robert Eggers traz-nos um filme sobre dois faroleiros, interpretados por Willem Dafoe e Robert Pattinson. O primeiro é um actor querido em Hollywood, que surpreendentemente nunca ganhou um Óscar. O segundo tem a melhor prestação da sua carreira, de acordo com a crítica. O resultado poderá ser nomeações para Actor e Actor Secundário, respectivamente.

6. “J’ai perdu mon corps”, de Jérémy Clapin

Esta animação francesa conta a história de uma mão em busca do corpo humano a que pertencia. Foi eleito melhor filme da secção paralela International Critics Week – e logo adquirido pela Netflix. A nomeação para Melhor Filme de Animação é quase certa.

Em suma, temos neste momento dois filmes à frente na corrida ao Óscar de Melhor Filme: um Tarantino, esperançoso que seja desta que vence o prémio máximo da Academia, e um biopic sobre Elton John, esperançoso de replicar o sucesso do seu percursor “Bohemian Rhapsody”.

Seguir-se o Festival de Veneza no final de Agosto, uma paragem importante no circuito. Na última década, quatro filmes vencedores do Óscar de Melhor Filme tiveram a sua estreia mundial neste festival – mais recentemente, “A Forma da Água” de Guillermo del Toro. Veremos em três meses o que nos trará a edição de 2019.