Foi em 2005 que vimos no cinema o último bom trabalho de mestre Spielberg, intitulado de “Munique”. Seguiram-se depois “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” (2008), “As Aventuras de Tintin – O Segredo do Licorne” (2001) e o mais recente “Cavalo de Guerra” (2011). Três filmes bastante fracos para um realizador como este, que contem uma obra com alguns dos melhores filmes de sempre. Spielberg, o homem que inventou o conceito “blockbuster”, foi sempre um realizador de altos e baixos, no entanto, não deixa de ser um mestre da sétima arte e apesar destas instabilidades irá continuar a merecer sê-lo.

Apesar de tudo esperava-se um pouco mais para este filme, uma história sobre um cavalo. Dito assim pode parecer pouco motivador ir conhecer esta história, mas o trailer consegue convencer um pouco.

A história, adaptada do romance juvenil de Michael Morpurgo (1982), inicia-se em 1912, em Inglaterra, onde acompanhamos a amizade singular entre um jovem, Albert, e um cavalo, Joey. Com a entrada da Inglaterra na Primeira Grande Mundial, o cavalo é forçosamente vendido, por questões financeiras, a um militar inglês, que irá partir para França. No entanto, devido às extraordinárias capacidades deste animal e ao grande afeto entre o jovem, este alista-se mais tarde no exército para ir à procura do seu cavalo “desaparecido em combate”.

A história é até interessante, podendo originar um potencial bom argumento, mas Spielberg parece ter preferido o caminho mais fácil e simples, optando por a contar de forma linear e simples. Dando assim um aspeto de filme de família com um happy ending. O filme, que tem quase duas horas e meia, perde-se bastante pelo meio, sendo que a primeira e a última meia hora são as partes mais interessantes e mais bem conseguidas. A restante hora e meia de filme é completamente desnecessária, caindo muitas vezes no exagero melodramático e forçado. Percebe-se bem a ideia da história em querer mostrar que Joey marca de forma emocionante a vida de todas as personagens com que se cruza. Daí também o filme demorar tanto tempo, pois há pelo menos cinco vidas distintas que se cruzaram e ficaram emocionalmente ligados a Joey. A meio do filme chegamos a ter como referencia “O Resgate do Soldado Ryan”, também de Spielberg, mas neste caso o resgate é de um cavalo. A primeira meia hora apesar de interessante faz-nos lembrar bastante os filmes da Disney (os de imagem real, do género “Se a Minha Cama Voasse…” (1971)), cheios de personagens clichés e previsíveis, com gags pelo meio. Já a última meia hora do filme é talvez a única parte Spielbergiana, ou seja, a melhor.

Outro dos aspetos negativos do filme é o facto de, sem qualquer justificação para tal, as personagens “estrangeiras” falarem inglês, mas com sotaque. Não faz sentido nenhum, este tipo de filmes, que têm personagens alemãs e francesas a falarem em inglês como os ingleses. Torna-se completamente desnecessária esta abordagem e descabida, realçando o facto de este ser um “filme familiar”.

Um dos aspetos positivos deste filme é que não há assim tantos filmes passados durante a 1ªGG, ao contrário do que acontece com a 2ªGG. Podemos assim perceber um pouco melhor esse período conturbado e negro da história do Homem, em que quem cometeu as grandes atrocidades não foram alemães, ingleses ou franceses, mas sim o Homem. E quem pagou com isto? A Terra, a natureza, os animais. É um facto que durante a Primeira Guerra Mundial usaram-se muitos pombos correio e principalmente cavalos. Estes são assim, de forma simples, homenageados neste filme que reconhece os seus esforços e dedicação, numa guerra que não era deles. É bem clara a brutalidade a que os cavalos foram sujeitos, sendo completamente escravizados e barbaramente mortos. Há ainda o cuidado em mostrar que em todo o lado existem pessoas boas e más, independentemente do país ou raça, ou seja, por onde quer que o cavalo passasse, apesar de ser muitas vezes mal tratado, havia sempre alguém que o respeitava e o tentava ajudar.

Outra das qualidades do filme é a banda sonora de John Williams, que apesar de boa não terá qualquer hipótese contra a de “O Artista” e “Hugo”. É de notar ainda, que muitas vezes a música ajuda no mau reforço das emoções, juntamente com a câmara, pois ela anuncia-nos o que iremos sentir, tornando-se previsível. Há portanto coisas que não batem certo. Quanto aos cenários interiores e principalmente exteriores são maravilhosos, criando um visual deslumbrante, juntamente com uma boa fotografia, com tons castanhos e amarelados.

Quanto ao elenco, não há ninguém que se destaque, a não ser mesmo o cavalo Joey, pois este sim teve aqui uma grande interpretação, com boas cenas de ação e dramáticas. Joey chega mesmo a fazer-nos lembrar Boxer, o leal, forte e dedicado cavalo do filme “O Triunfo dos Porcos” (“Animal Farm” (1954)). Joey tinha as mesmas qualidades que Boxer, apesar de um gostar de humanos e o outro não.

Para os Óscares está nomeado para seis categorias, no entanto, dificilmente irá vencer em alguma, talvez nas mais técnicas do som. Dos nove nomeados ao Óscar de Melhor Filme é o segundo pior da lista, estando a cima de “Os Descendentes” (que é o mais fraco). “Cavalo de Guerra” de modo geral não é mau, mas também não é bom, é apenas um filme satisfatório.

Realização: Steven Spielberg

Argumento: Lee Hall

Elenco: Jeremy Irvine, Peter Mullan, Emily Watson, David Thewlis

EUA/2011 – Drama

Sinopse: “Cavalo de Guerra” começa com uma comovente amizade entre um cavalo de nome Joey e um rapaz de nome Albert, que o doma e treina. Quando são forçados a separar-se, o filme segue a extraordinária viagem do cavalo e o seu percurso na guerra, mudando e inspirando as vidas daqueles que com ele se cruza – a cavalaria Britânica, soldados Alemães e um agricultor Francês e a sua neta – antes de a história atingir o seu clímax em pleno campo de batalha em Terra de Ninguém.A Primeira Guerra Mundial é vivida pelos olhos deste cavalo – uma viagem de alegrias e tristezas, amizade verdadeira e aventura. “Cavalo de Guerra” é uma das grandes histórias de amizade em tempos de guerra – um bem sucedido romance transformado num espetáculo que invadiu as salas de teatro internacionais com grande sucesso e que já está na Broadway. Para já chega às salas de cinema, numa adaptação épica por um dos melhores realizadores na história do cinema.

«Cavalo de Guerra» - Uma simples homenagem aos cavalos
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