Depois do sucesso de “Drácula” de Todd Browning, a Universal teve a iniciativa em adaptar a ousada obra da escritora Mary Shelley, o romance gótico “Frankenstein: ou o Moderno Prometeu”. O realizador britânico James Whale aceitou a proposta tendo conseguido realizar o filme de terror mais importante alguma vez feito. “Frankenstein” teve uma recepção por parte do público ainda mais efusiva do que “Drácula”, tendo sido um dos maiores sucessos de bilheteira no seu ano, o que ajudou a que o terror se tornasse na imagem de marca da Universal.

Este filme de James Whale conseguiu superar o seu antecessor (“Drácula”) não só ao nível do sucesso de bilheteira, mas também ao nível da realização e do elenco. “Frankenstein” deve muito ao filme expressionista alemão “O Golem”, por ter percebido que ir buscar a imagem do expressionismo alemão conferiria ao cinema popular de terror de Hollywood um estilo e um ambiente admiráveis. A caracterização dos personagens e os cenários atribuem uma maior veracidade às imagens.

A história, já conhecida por todos, é sobre um cientista ambicioso (Colin Clive) e o seu assistente, Fritz (Dwight Frye), que criam um monstro (Boris Karloff) ostracizado pela sociedade por ser visualmente repulsivo.

No romance original de Mary Shelley, o monstro fala frequentemente. Mas Whale e os seus argumentistas quase não o põem a falar. A delicada interpretação de Boris Karloff fez de “Frankenstein” o maior ensaio do cinema de estúdio sobre o preconceito. James Whale conseguiu abordar temas interessantes como a manipulação genética, a divisão entre o Bem e o Mal e a relação entre o criador e a criatura.

A recusa de Bela Lugosi, em usar maquilhagem para interpretar o monstro de Frankenstein, acabou por levar à sua substituição, por um dos mais emblemáticos atores do cinema de terror, Boris Karloff. O que garantiu a imortalidade da sua interpretação, de um monstro mal tratado e um pouco infantil. A sua magnífica interpretação assustou, comoveu e criou empatia com o público. Transformou a criatura num monstro infantil, inocente, que nos inspira simpatia. Os delitos causados pelo monstro são ou acidentais ou justificados. A criatura era vítima de maus tratos e de exclusão social e o facto de apresentar um físico assustador, com uma força sobre-humana e um olhar ameaçador, gerou preconceito para o resto da sociedade. O monstro é sempre julgado pela sua aparência e agredido antes de se poder defender. Os seus atos não tinham qualquer intenção de fazer mal, como é o caso da cena com a criança, com quem brinca inocentemente. A população, sem qualquer prova, acusa o monstro, por puro preconceito e medo. Tudo isto leva a que o monstro seja perseguido por uma multidão enfurecida, reclamando justiça (o que prova que existia mais humanidade no monstro do que nas pessoas ou até mesmo no seu criador, que por capricho e ambição pensou apenas no seu ego). O final de “Frankenstein” é trágico, sendo inovador para a época em que os filmes tinham quase sempre um final feliz.

Em 1935 James Whale realizou “A Noiva de Frankenstein”, um filme que começa onde “Frankenstein” acaba, tendo-se tornado também numa obra marcante para o cinema de terror.

“Frankenstein” é uma fábula sobre um cientista ambicioso e a sua criação, um filme que nos lança pistas sobre o preconceito na sociedade. Uma obra prima do cinema e um clássico intemporal que marcou o cinema de terror, tendo já inspirado muitas outras obras e tendo sido recriada inúmeras vezes no cinema. O sucesso de “Frankenstein” acrescentou o medo aos prazeres das idas ao cinema.

Nota: Este filme integra o Ciclo de Cinema Aberrações

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Ciclo de Cinema Aberrações: “Frankenstein” (1931) de James Whale
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