«Cruella» – Continua mais traiçoeira que uma cascavel

É o “Joker da Disney”, a comparação que tem rendido publicidade garantida a esta “prequela” de uma das personagens mais célebres do universo Disney, “Cruella De Vil”, não é de todo um paralelismo descabido.

Recordamos que de Cruella muitas peles foram vestidas, a diabólica estilista que perseguia cachorrinhos começou com a voz de Betty Lou Gerson em “101 Dálmatas” (1961 [o filme que salvou o departamento de animação do estúdio da bancarrota]) e mais tarde “estrela” de uma adaptação live-action (1996, escrito por John Hughes) com Glenn Close a desempenhar tal entidade, agora deparando-se na posse de Emma Stone é igualmente um fruto da nossa sociedade e destes tempos fervorosos quanto a sentimentos de injustiça social, assim como o mencionado e comparado filme de Todd Phillips. E tal como “Joker”, transcreve tais pensamentos para a década de 70 (com alguns anacronismos à mistura, concebidos graças à ficção). A história de uma trágica órfã que planeia uma insaciável vingança na forma de um alter-ego anárquico (não é preciso mencionar o nome dessa figura), é claramente um filme, até à sua medula, com o selo Disney, logo, a representação do anti-herói é (sempre foi) um “bicho-de-sete-cabeças” para o estúdio.

Contudo, “Cruella” balança a sua malvadez [irreverência] e a bafienta tendência de conto de fadas “disnesco” (o trauma como catarse na criação do vilão, correntes libertadas desde o ineficiente “Maléfica”) sob um teor punk e porque não, popluxo (devemos salientar o guarda-roupa criado pela duplamente oscarizada Jenny Beaven [“Mad Max: A Estrada da Fúria”, “Quarto com Vista sobre a Cidade”]), funcionando como um filme negro dentro dos parâmetros desta linha de montagem, mesmo com os seus constantes recuos de forma a consolidar a consciência da nossa contemporaneidade. Mas, onde “Cruella” realmente regozija, é na escolha de Emma Stone que se rende totalmente a esta “psique” com estilo e graciosidade necessária e a outra Emma (Thompson) a emprestar-se à caricatura de uma estilista odiosa à parte, um duo garantido em constante oposição, que sustenta este trabalho de Craig Gillespie (“Lars e o Verdadeiro Amor”, “Eu, Tonya”) da esperada cedência da perfeita banalidade temática.

Contudo, talvez seja estes ventos altamente polarizados e radicalizados que nos fazem olhar duas vezes para os vilões do nosso imaginário e encará-los como incompreendidos, e a Disney tem sido o centro disso com as revisitações à sua galeria de antagonistas. Será uma mudança das anteriores convenções maniqueístas? Conforme seja a resposta, definitivamente “Cruella” não as dará, porém, é possivelmente dos mais pensados e elaborados filmes que o estúdio Disney nos garantiu nos últimos anos.

«Cruella» – Continua mais traiçoeira que uma cascavel
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