E se o melhor jogador de futebol olhasse para os adversários e visse “cachurruinhos fufuinhos” e “peluduinhos? E se as irmãs dele fossem gémeas más que o querem matar pelo lucro? E se o governo português desejasse sair da União Europeia enquanto uma cientista de cadeira de rodas clona o nosso herói nacional? E se um “fugiado” fosse salvo por um iate para depois salvar o nosso orgulho nacional? E se um filme fizesse a síntese de um imaginário infantil, cinematográfico e vanguardista enquanto lança linhas de reflexão sobre os europeus, sobre a Europa, sobre a identidade nacional e sobre a crise mundial dos refugiados?

O último filme de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt lida com diversas questões de uma forma pouco comum. Segue apenas, no entanto, o conteúdo dos seus últimos filmes e insere-se bem nas suas cinematografias. Um pouco como um perfumista tenta encontrar o aroma perfeito para veicular uma emoção, usando fragrâncias diferentes, este filme procura e usa referências, umas perfeitamente reconhecíveis, outras obscuras e demasiado subtis para um primeiro olhar. Prestemos atenção à irreverência do póster oficial do filme. “Star Wars”? Retro? O que existe em comum? Uma jovialidade sem receio de utilizar o humor e um enredo linear, salpicando-o de imagens e cenas que transbordam simbolismo e abrem inúmeras ligações para o real e o imaginário: duas gémeas a perseguir um porco num labirinto; uma  Dr.ª Strangelove lusitana; um solar do século XIX com leitos românticos forrados com lençóis e edredões do Diamantino.

Pouco importa como o filme é concebido, mais relevante é se o mesmo resulta. A verdade é que resulta sem ridicularizar ninguém, usando a crítica e a sátira de uma forma juvenil e assética. Ainda assim, reflete sobre a questão dos refugiados, aborda o crescimento da extrema-direita e xenofobia europeia. Ainda mais relevante, reflete sobre o modo condescendente e desligado como recebemos e pensamos estas questões: com aquela ingenuidade do “só acontece aos outros” e “mas isso é tão longe da nossa realidade”. 

Não é um filme que convença todos. Devo confessar que talvez não me convencesse há uns anos, antes de conhecer o trabalho de Gabriel Abrantes. Existe sempre a possibilidade de haver quem saia a meio do filme. Um dos maiores prazeres do cinema é sermos transportados e deixados levar por ele. Neste filme, somos conduzidos para um lugar mágico, para a satisfação pueril do faz-de-conta desde o momento em que as palavras distorcem a realidade até a essas duas palavras que têm o poder de moldar o mundo à nossa vontade: “e se…”

Realização: Gabriel AbrantesDaniel Schmidt
ArgumentoGabriel AbrantesDaniel Schmidt
ElencoJoana BarriosAbílio BejinhaChico Chapas, Carloto Cotta
Portugal/2018 – Comédia
Sinopse
: Diamantino, o melhor jogador de futebol do mundo perde o seu talento e termina sua carreira em desgraça. À procura de um novo propósito, o ícone internacional entra numa odisseia delirante, que envolve o neo-fascismo, a crise dos refugiados, a modificação genética e a busca pela origem da genialidade.

«Diamantino» – E se o melhor do mundo for Bongo e crepes com Nutella?
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